- Charlie, Charlie Romeo solicitando
autorização para atracar.
- Permissão concedida. Bem vindo à Estação
2000, Creedence.
Ao desembarcarem na doca principal,
foram interrompidos por um jovem e miúdo cadete que prestava continência em
frente a Jonathan, Helena e Giovanni.
- Descansar, Cadete... – Jonathan
observou a identificação presa ao peito do jovem. – Meyer.
- O senhor é o Capitão Jonathan Trust,
senhor? – Perguntou o rapaz.
- Sim, sou eu mesmo. – Respondeu Jat,
olhando para o rapaz sem entender o porquê de sua presença ali.
- Tenho um convite para o senhor,
senhor. – E o rapaz entregou a Jonathan uma folha branca com inscrições
douradas.
Jonathan leu o convite, que dizia em
letras garrafais:
“Honradamente Convidamos o senhor
Capitão Jonathan A. Trust e sua tripulação para a cerimônia de comemoração da
aposentadoria do nosso mais estimado militar, o excelentíssimo General
McCartney.”
Logo abaixo, em letras menores e menos
enfeitadas, o convite também dizia:
“Aproveitamos a oportunidade para anunciarmos
a honrosa promoção de nossos oficias.”
E em seguida vinha uma pequena lista
de nomes.
Jonathan virou-se para Helena e
Giovanni, fazendo uma careta de descontentamento, e disse:
- Vamos ter de tirar a velha farda do
armário.
Os dois fizeram a mesma careta e
Giovanni respondeu:
- Hum... Imagina só o cheiro de mofo.
...
Uma comemoração tão importante para os
militares não poderia ser realizada em qualquer lugar, uma locação especial
deveria ser disponibilizada, e só havia um lugar, em toda a estação, capaz de
honrar tal requinte. Simplesmente o deck mais belo de toda a estação. Um jardim
em proporções titânicas, que além de cultivar a enorme diversidade da flora da
Terra, também abrigava muitas das espécies de sua fauna, algumas no zoológico e
aquário da estação e outras soltas pelo bosque. Os pássaros cantavam, as flores
desabrochavam, e uma cúpula translúcida, cobrindo todo o jardim, proporcionava
a climatização do ambiente e a chamada sintetização solar, que garantia a
iluminação, permitia às plantas realizarem fotossíntese e aos animais viverem
confortavelmente. Situado no ponto mais alto da estação, quando a iluminação do
jardim era cessada, a transparência límpida da cúpula, permitia ás pessoas
admirarem as estrelas no vasto espaço fora da estação. Neste jardim havia
também um enorme lago onde se podia praticar pesca, esportes aquáticos e de
onde surgiam fontes de águas dançantes quando escurecia. Havia um campo de
golfe, uma pista de patinação no gelo, que permanecia ativa durante todo o ano,
e, em seu centro, o mais luxuoso salão de bailes da estação.
As paredes laterais do salão eram
compostas por grandes janelas de vidro que iam do chão ao teto, onde suas brancas
armações se encerravam em arcos. O alto prédio tinha a forma de uma cruz, sendo
que o telhado das extensões de seus braços era triangular como nos antigos
templos gregos, e no ponto onde se cruzavam se erguia, ainda mais alta, uma
abobada central, tudo construído em vidro, o que lhe dava a aparência de uma
grande estufa. Havia quatro enormes portas situadas uma a cada extremidade da
cruz, e em cada uma das arestas foi erguida uma coluna grega com flamingos e
querubins esculpidos nos capitéis. Dentro do salão havia um grande palco
central, redondo e com um lustroso chão de madeira avermelhada, de onde uma
orquestra executava uma doce e harmônica música clássica. Ao seu redor, dentro
do perímetro da grande abobada, ficava a pista de baile, e espalhadas pelos
braços da cruz, as mesas redondas, enfeitadas com lindas toalhas de seda branca,
que escorriam ao seu redor até se encontrarem e contrastarem com o lustroso
chão de mármore preto, e sobre as quais estava disposto, além de toda a sorte
de talheres e louças de jantar, um singelo, porém lindo, arranjo de rosas
vermelhas.
Esse glamoroso jardim foi batizado de
Éden.
- Meus parabéns General. Tenho certeza
que sua atuação como militar deixou um legado inestimável a todos nós.
- Muito obrigado, filho. Você sabe a
consideração que tenho por todos vocês. Acompanhei a formação de vocês três e
principalmente a sua, Jonathan, eu o vi crescer. Como está seu pai?
- Ainda não tive tempo de visitá-lo.
Chegamos do Lixo hoje pela manhã. Mas creio que deve estar melhor do que eu
mesmo.
- Já faz dez anos, não é? Você
construiu uma carreira brilhante. Um verdadeiro herói.
- Somos todos heróis, senhor. Sem
minha tripulação eu não teria sobrevivido nem a primeira viagem.
- Com certeza você tem os melhores
companheiros que poderia ter. O melhor amigo e... Quem diria? Vocês até se
casaram. Acredito nas pessoas, rapaz. Sempre soube que fariam a diferença.
Enquanto conversavam, Jonathan
percebeu a aproximação de alguém com quem ele realmente preferia não ter
contato.
- Acho que devo ir agora General.
Prefiro evitar certos inconvenientes. – E Jonathan levantou os olhos na direção
da pessoa que se aproximava.
O General McCartney, um homem muito
sensato, entendeu logo o impasse e tratou de encerrar uma conversa, que poderia
ter durado horas.
- Eu é que devo ir, meu jovem, ainda
tenho muitos abraços para dar hoje, e depois, finalmente terei o descanso
merecido. – Antes de virar e afastar-se do grupo o General voltou-se para a
tripulação da Creedence e aconselhou-lhes. – Aproveitem a festa, filhos.
Jonathan virou-se para sua tripulação,
fazendo-os entender que deviam sair dali o mais rápido possível, quando de
repente alguém o abordou pelas costas.
- Ora, ora, se não é o Capitão
Jonathan Trust. Ou será que devo chamá-lo de Jat?
- Só meus amigos me chamam assim,
Stolz. – Respondeu Jonathan, virando-se com um sorrisinho sarcástico.
Adolf Stolz não se deixou abater pela
indireta, pelo contrário, continuou seu soberbo discurso:
- Você deve estar ciente de que esta
também é minha festa, não é? Ficou sabendo que fui promovido a Major? Terá de
voltar a bater continência pra mim, Trust.
- Ha, ha. Nunca bati continência pra
você, Stolz. Nem mesmo quando era cadete.
Stolz sentia a revolta se apoderar de
seu ser a cada palavra do insolente Jonathan Trust.
- Também estou assumindo o comando da
Sigma. Uma nave de verdade, não aquela lata velha que você pilota. Como é mesmo
o nome dela? Creedence, não é?
- Meus parabéns Stolz. Finalmente
assumirá sua própria nave e poderá parar de puxar, tanto, o saco dos seus
superiores. Ao contrário de você, eu nunca tive que lamber as bolas de ninguém.
Lata velha ou não, sempre tive minha própria nave.
Ao ouvir essas palavras Stolz foi
totalmente dominado pela raiva. Sentia seu orgulho ferido e a inveja que sentia
o traiu. Respirou fundo, elevou o tom de voz e agrediu:
- Uma nave que voa pro Lixo. É lá que
começou e é lá que terminará, Trust. Terminará como o inválido do seu pai e se
tiver o mínimo de dignidade, se deixará lançar no espaço, como ele deveria ter
sido há muito tempo.
Jonathan poderia passar o resto do dia
devolvendo a Stolz sua própria arrogância, e no fim acharia até divertido, mas
jamais aceitaria uma ofensa a seu pai. Cerrou o punho e sem pestanejar deu lhe
um direto de direita bem no meio do nariz.
- Você vai pra cadeia, Trust. – Gritou
Adolf Stolz ao se levantar do chão e se por de joelhos, enquanto segurava o
nariz quebrado, que jorrava sangue.
Giovanni e Helena seguraram Jonathan,
sabendo que a agressão a um oficial superior poderia realmente complicar sua
vida.
- Vamos embora, Jat. Deixa esse fresco
pra lá, vamos pra uma festa de verdade. Você vem Helena? – Perguntou Giovanni,
enquanto segurava Jonathan e tentava acalmá-lo. Precisava tirá-lo dali rápido,
antes que o tumulto começasse.
- Esfriem a cabeça e divirtam-se
rapazes. Não estou me sentindo muito bem, acho que vou dar uma passada no
doutor Peres e depois ir pra casa descansar.
...
No início todos eram iguais.
Todas as famílias tinham suas próprias
cabines, espaçosas o suficiente para garantir-lhes conforto e dignidade, porém
não tão luxuosas quanto os nobres, que inicialmente habitaram a estação,
estavam acostumados. Todos trabalhariam em prol da estação, garantindo o
progresso das missões e a prosperidade de seus habitantes.
Mas o regime igualitário ideal, como
previsto por Carl Marx, nunca existiu realmente na Terra, quem dirá na estação
2000. Como se poderia apostar no sucesso de um regime igualitário, quando o
povo da estação e seus principais representantes eram gananciosos capitalistas.
A princípio os habitantes das estações
foram divididos entre civis e militares, mas com o passar do tempo, os
imperfeitos seres humanos começaram a mostrar e enfatizar os defeitos relativos
à sua verdadeira natureza. O trabalho que deveria ser realizado por todos em
uma justa distribuição de tarefas logo foi sendo deixado de lado pelos mais
preguiçosos, sobrecarregando os mais dedicados e acarretando no seu descontentamento
com o regime e a administração da estação, o que veio a gerar reivindicações e
mobilizações tumultuadas, que só podiam ser contidas através da imposição da
força militar.
Os mais arrogantes habitantes da
estação também não eram capazes de aceitar a situação de igualdade com que
todos eram tratados. Na Terra estes tinham inúmeros privilégios, garantidos por
suas posses, mas na estação todos estavam à mercê dos mesmos direitos,
obrigações, das mesmas leis, da mesma carga de trabalho e do mesmo conforto. Não
podiam aceitar a igualdade como algo natural tendo vivido por diversas gerações
como seres superiores, então alianças começaram a se formar entre as
gananciosas famílias e também entre os corruptíveis militares e administradores
da estação. A união entre famílias aumentava o poder e influência destes nas
decisões tomadas em prol do todo da estação, e o oportuno descaso por parte da
administração permitia que este poder crescesse cada vez mais, levando estes a
se distinguirem dos demais, não restando alternativa senão instituir aquilo que
poderia enfim diferenciar a todos, corromper aqueles que ainda acreditavam na
ética e mantinham sua moral, e consequentemente derrubar para sempre o regime
igualitário que os governava. Foi instituída a moeda de troca da estação, o
dinheiro, os Solares.
Com essa nova forma de diferenciação,
os mais aproveitadores e influentes podiam não só comprar a força de trabalho
dos menos poderosos como também suas posses, antes lhes proporcionadas em
igualdade, criando na estação um novo ramo comercial e profissões que já não
beneficiavam mais o todo e a prosperidade da missão.
O capitalismo dominou a estação, e
antigas cabines de passageiros foram negociadas em troca de privilégios e
dinheiro, vindo a se tornar estabelecimentos comerciais de todos os tipos. Curiosamente
estes estabelecimentos cresceram e se firmaram principalmente nos pavimentos
inferiores da estação, o que os distanciava dos pavimentos militares e
administrativos, que se situavam nos andares mais altos e próximos do mais alto
dos pavimentos, o pavimento onde a alta classe da estação fixou sua luxuosa
morada, o pavimento adjacente àquele que era o mais glamoroso da estação, o
Éden.
Quanto mais se descia na Estação 2000,
mais aumentava a pobreza, a sujeira, as enfermidades e o perigo. Em meio aos
sujos corredores era possível ver pessoas maltrapilhas esparramadas pelo chão,
as antigas cabines de passageiros deram espaço para bares e bordéis, vazamentos
tornavam o ambiente úmido e mal cheiroso, e os arranjos feitos na rede elétrica
tonaram os pavimentos inferiores escuros e soturnos. Era sempre noite no
submundo da Estação 2000, iluminada apenas pelo neon das diversas boates.
Devido ao grande letreiro luminoso de
um de seus mais famosos bordéis, esse pútrido ambiente foi chamado de Caos.
- Você tem certeza disso, Jonathan? –
Questionou Rizzo, receoso. – Nunca fizemos isso antes, não quero que se ferrem
por minha causa.
- Relaxa, Giovannito, sei muito bem o
que estou fazendo e faço porque quero. – Respondeu Jat, encorajando o amigo e
bebendo um gole de sua cerveja. Giovannito era a forma como a avó de Giovanni o
chamava quando criança. – Pense que em breve ela estará com você e poderá
finalmente levá-la pra casa.
- Ela vale o esforço, Jat. Não é
qualquer uma. – Completou Giovanni buscando justificar o que estavam por fazer.
– Ela não teve escolha.
Conversavam à mesa do maior e mais
famoso cabaré do Caos, aquele que lhe deu o nome, o próprio Caos. Uma boate
requintada, frequentada principalmente por pessoas da alta sociedade da estação
e militares buscando o alívio do estresse cotidiano. A sua frente havia um
pequeno palco com fundo espelhado, onde uma das curvilíneas dançarinas
realizava performances junto a um lustroso mastro prateado e ao som de “You Can
Leave Your Hat On”, de Joe Cocker.
Apesar da proposta promiscua da casa,
o Caos era famoso por apresentar uma abordagem menos depravada que outras
casas, seguindo o estilo de antigos cabarés, o que diferenciava seu público e
atraía inclusive mulheres e casais. A casa exibia uma decoração anos trinta, possível
através de móveis antigos e restaurados, provenientes do Lixo. As lindas garotas
que circulavam pela casa usavam arranjos de pequenas plumas nos cabelos e
longos vestidos de caimento perfeito, o que lhes acentuava as formas e garantia
o glamour não encontrado em outras casas do mesmo ramo. Do lado esquerdo do
palco havia até mesmo um antigo, porém muito belo, piano de mogno, tocado
poucas vezes, durante apresentações de cancã.
A belíssima dançarina que na ocasião
se apresentava usava um apertado espartilho preto com rendas brancas, uma cinta
liga conectada as meias sete oitavos, também pretas, um sapatinho preto verniz
de salto não muito alto e uma cartola na cabeça. Sua pele branca contrastava
com o rubro batom em seus carnudos lábios, mas toda a beleza daquela dançarina,
bem como a de cada uma das outras tantas garotas que ali ganhavam a vida, não
podia nem de longe competir com a daquela que se aproximava da mesa onde Jat e
Giovanni estavam sentados. Aquela que deslizava por entre as mesas como num
bailado sutil, sublime, perfeito, atraindo o olhar não só dos homens que a
cobiçavam, mas também das mulheres que a invejavam. Aquela cujo vai e vem dos
largos quadris era Capaz de hipnotizar, obrigando os indiscretos admiradores a
acompanhá-lo não só com os olhos, mas também com a cabeça e pescoço. Aquela
cujos fartos, porém proporcionalmente perfeitos, seios se mostravam
insinuantes, sob o decote em V de seu lustroso vestido de seda vermelha,
instigando alguns a proferir vulgares elogios, que ela ignorava com altivez.
Seus longos cabelos negros caíam soltos sobre suas costas nuas, permitindo a
todos se maravilharem diante do movimento desprendido que realizavam aqueles
volumosos e largos cachos. Suas sinuosas curvas e o tom moreno de sua pele,
provavelmente herança de sua descendência latina, a diferenciavam das demais
garotas com quem convivia, mas sem dúvida o que mais atraía a atenção e tornava
aquela mulher tão única e misteriosa perante todas as outras era o ar de
tristeza, presente permanentemente, no fundo de seus olhos cor de mel.
- Mercedes! – Exclamou Giovanni puxando
a cadeira para a garota.
- Quanta gentileza, meu príncipe
encantado. – Disse Mercedes, acariciando o rosto de Giovanni ao se sentar.
- Finalmente será libertada de sua
torre, milady. – Respondeu Giovanni, com um brilho emocionado nos olhos ao
contemplar os dela.
Jonathan apenas observava sorrindo, a
troca de carícias e palavras ternas, enquanto bebia sua cerveja. Orgulhava-se e
sentia-se feliz em poder ajudá-los, mas preocupava-se um pouco com a conversa
que estava por vir, a conversa com aquele que já se aproximava, com seu terno
extravagante, a passos curtos e em um gingado estranho e presunçoso.
- Presumo que devamos tratar de
negócios agora, senhor Trust? – Indagou Castro, o dono do bordel, ao se
aproximar da mesa. – Vamos ao meu escritório.
Jonathan levantou-se, e Giovanni fez
menção de se levantar também, mas Jonathan o orientou a continuar onde estava
com um gesto de mão.
- Pode deixar que eu assumo daqui. Você
não vai querer deixar a Mercedes sozinha, vai? – Jat sorriu, dando uma
piscadela para o casal, e então seguiu Castro até uma pequena porta no fundo do
salão.
Adentraram uma ante-sala ampla, com
dois sofás, virados um de frente para o outro, e uma tapeçaria vinho e dourada,
que encobria tanto o chão quanto as paredes. No centro havia uma mesinha, onde
estavam largadas algumas cartas de baralho, e sentados nos sofás estavam dois
homens grandes, mal-encarados, vestindo ternos pretos e segurando
submetralhadoras. Jonathan e Castro passaram pelos dois seguranças sem nada
dizer e entraram juntos por outra porta, do lado oposto de onde vieram,
chegando ao amplo escritório, também forrado pela tapeçaria, e onde, além de um
divã, havia também uma grande mesa de madeira escura, com uma grande cadeira
estofada atrás dela e uma pequena cadeira de madeira mais clara e sem
estofamento a sua frente. Um dos capangas entrou atrás deles, parando a frente
de Jat para revistá-lo e confirmando para o chefe, com um aceno de cabeça, que
Jonathan não estava armado.
- Sente-se. Fique a vontade. – Disse
Castro indicando a cadeira pobre a Jonathan. – Quer uma bebida? – Sentou-se em
sua cadeira confortável e gritou apontando para o subordinado. – Você, traga um
Dry Martini pra mim.
- Não obrigado. Espero que essa seja
uma conversa rápida. – Respondeu Jat secamente.
A bebida alcoólica, principalmente
destilada como Uísque ou Vodka, apesar de lícita, era considerada um artigo
raro na estação, disponível apenas para os mais nobres, e comercializada a
preços exorbitantes. Por esse motivo o tráfico ilegal de bebidas, contrabandeadas
da Terra, tornara-se um ramo de negócios lucrativo para os interessados em
explorá-lo.
- Sabe que ela é uma fonte valiosa de
lucro, não sabe, senhor Trust? – Disse Castro puxando os fios das pontas de
fino bigode. – E deve saber também que, apesar da qualidade, a quantidade de
barris que me oferece subestima o valor de tão cobiçada prenda?
- Creio que a quantidade oferecida é
mais do que o suficiente para um homem cujo negócio criminoso está em risco de
extinção.
- Tem coragem de ameaçar meus negócios
em minha própria casa, senhor Trust? É mesmo um militar exemplar. Muito
corajoso! – E aumentando o tom de voz, perguntou. – Sabe que tenho dois capangas
do lado de fora deste escritório e mesmo assim acredita que pode me intimidar?
Jat levantou-se da cadeira num salto,
agarrou um velho abridor de cartas que servia de adorno a mesa e pressionou-o
contra a garganta de Castro, que, pego de surpresa, não pode se esquivar,
continuando sentado, acuado em sua confortável cadeira.
Nesse instante o segurança que
revistara Jonathan entrou na sala.
- Sua bebida, senhor. – E ao ver
Jonathan ameaçando seu chefe com o abridor de cartas, soltou a taça no chão e
apontou uma pistola Beretta nove milímetros para Jonathan. – Solte a arma,
agora!
- Meu amigo está lá fora me esperando.
Se eu não sair vivo desta sala ele trará reforços e então será seu fim, Castro.
– Respondeu Jonathan calmamente, ignorando o guarda-costas e olhando fixamente
nos olhos de Castro. – Aceite os barris e liberte a garota. É sua única opção!
- Somos homens sensatos, não queremos
ver uma carnificina aqui, não é senhor Trust? – Disse Castro em tom mais suave
e amedrontado, ainda olhando nos olhos de Jonathan. Virou-se então para seu
empregado e advertiu. – Abaixe a arma e saia. Tivemos uma desagradável demonstração
da espontaneidade do senhor Trust, mas tenho certeza que esse mal-entendido não
se repetirá.
Jonathan se afastou de Castro, ainda
segurando o abridor de cartas.
- E então, o que será?
- Por hora devo aceitar sua proposta,
senhor Trust. Mas não pense que me tem em suas mãos. O senhor não imagina por
onde passam os fios de minha rede de influências. Traga-me os barris e terá a
garota.
Jonathan voltou tenso e serio para a
mesa, porém satisfeito com o resultado de seu primeiro acordo ilegal. Ao
sentar-se respirou fundo e bebeu um longo gole do copo de cerveja que seu amigo
Giovanni lhe oferecia.
- E aí Jat, como foi?
Quando Jonathan tomou fôlego para
responder, Jakeline Jakarta apareceu á suas costas, massageando seus ombros.
- Nossa, quanta tensão! Você está
mesmo precisando de uma massagem especial. – E deu uma piscadela para Giovanni
e Mercedes, que a cumprimentaram com um aceno de cabeças.
Jonathan puxou Jakeline, pondo-a
sentada em seu colo e depois lhe beijou a boca. Só então respondeu a pergunta
de Giovanni.
- Conseguimos, irmão. – Ele sorriu
para o amigo.
- Espera aí, conseguiram o que? –
Perguntou Jakeline, tentando se situar na conversa.
- Conseguiram a minha liberdade. –
Respondeu Mercedes, não podendo conter as lágrimas que já lhe escorriam pelo
rosto.
- Caramba! – Alegrou-se Jakarta. – Esse
é mesmo um ótimo motivo pra comemorarmos. Comemorarmos em grande estilo.
- Um brinde a liberdade. – Propôs
Giovanni, com os olhos também lacrimejando.
Os quatro levantaram seus copos,
brindaram e beberam. Jonathan então virou-e para Castro, que estava um pouco
distante, próximo ao bar, e gritou:
- Castro, queremos dois quartos. – E
complementou provocando-o. – Na conta da casa.
Castro apertou os olhos como se pudesse
fulminar Jonathan com o olhar, sentiu a fúria percorrer todo seu corpo, mas
assentiu com um demorado aceno de cabeça.
...
Eram
aproximadamente quatro da manhã quando Jonathan chegou, ainda sob o efeito do
álcool, a sua suíte no pavimento militar. Ao entrar percebeu que as luzes ainda
estavam acesas, o que não parecia normal tendo em vista que Helena, àquela hora,
já deveria estar dormindo. A tensão começou a tomar-lhe, avivando sua mente,
correu então para o dormitório e deparou-se com uma cena que o fez recuperar a
sobriedade imediatamente.
Helena estava sentada sobre a cama com as
pernas encolhidas, sua cabeça se apoiava sobre os joelhos e suas mãos cobriam
seu rosto, a sua volta havia alguns papéis amassados, exames. Ela chorava
incontrolavelmente.
-
O que houve, meu amor? O que fizeram com você? – Desesperou-se Jonathan
correndo até ela, sentando-se a seu lado e abraçando-a.
Helena levantou a cabeça e olhando
profundamente nos olhos de Jonathan conseguiu, em meio aos soluços, dizer:
- Estou grávida.