quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O Livro


Ficção científica que retrata um futuro alternativo, onde a Terra já não oferece condições de habitação e os humanos são obrigados a viver em gigantescas estações espaciais. No entanto, a política e as leis nessas estações, nos moldes das sociedades da Terra, não permitiram o desenvolvimento dessa nova sociedade da forma utópica inicialmente planejada, mas sim oferecendo aos seus habitantes nada além do que o poder financeiro, de distribuição absurdamente desigual, pudesse proporcionar.
É justamente em uma dessas estações espaciais, a Estação 2000, onde a estória se passa, explorando as influências dessa sociedade conturbada sobre vida dos quatro personagens principais, Jonathan Trust, comandante de um cargueiro espacial, Giovanni Rizzo, seu melhor amigo e piloto da nave, Helena Dias, a cientista integrante da equipe e Mercedes, uma jovem garota com quem o destino foi mais do que cruel. 
Juntos, os quatro tripulantes do cargueiro Kappa, Creedence, vivem diversas aventuras, sendo enviados em missões a devastada Terra, travando batalhas no espaço sideral e até mesmo enfrentando uma evoluída espécie que, com o controle de uma fenda temporal, pretende colonizar a Terra em uma época em que essa era viva e próspera. 







Estação 2000 - Capa






Agradecimentos


Á Deus
Aos Meus
E á Ela


Capítulo 1 – 2347 dc.


- Em 20 de julho de 1969, o astronauta Neil Armstrong se consagrou o primeiro homem a pisar na lua. “Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”, ele disse. E quem àquela época poderia imaginar que hoje, 378 anos depois, o espaço seria a única esperança da humanidade – Assim se iniciava o discurso do General McCartney, o mais velho e respeitado militar, ainda exercendo sua função na Estação 2000.
McCartney era um homem muito bem conservado para sua avantajada idade. Suas façanhas como militar já haviam lhe rendido várias condecorações e medalhas durante sua juventude, as mesmas que ele ostentava com orgulho em seu peito, presas a farda branca, de gala, bem alinhada e que o deixava muito elegante naquela data tão especial. Tentava esconder uma careca debaixo do quepe, deixando aparente apenas o bem aparado cabelo nas laterais da cabeça, e usava também um cerrado bigode, que lhe dava uma aparência imponente e escondia a figura amável e carismática que ele realmente representava para todos os outros militares.  
A enorme platéia era composta de um grupo de distintos jovens, usando becas pretas, e também de militares de várias patentes que, assim como o General, usavam suas fardas brancas, de gala.
Mais a frente, acima do palanque de onde o General recitava seu discurso, podia-se ver uma grande faixa onde estava escrito “Formatura da 148ª Turma de Cadetes da Estação 2000”.

...

- Você já era Jakarta, vou te abater pela segunda vez no mesmo dia! – Disse Jonathan Trust, dando uma gargalhada maliciosa enquanto puxava as duas alavancas do manche com velocidade pra perto do corpo.

Jonathan A. Trust era um jovem corajoso e muito habilidoso em combates, tanto espacial quanto corpo a corpo, mas seu jeito impulsivo de agir já havia lhe trazido alguns problemas durante os anos na disciplinada Academia Militar da Força Aeroespacial. Apesar de sua indisciplina, sua habilidade em combate e também sua impetuosa Capacidade de liderança nos treinamentos em grupo garantiram-lhe a admiração dos antigos combatentes e atuais professores. Era alto e de corpo forte, devido aos intensos treinamentos na academia, e seu cabelo, escuro e bem curto, não deixava dúvidas de que era realmente um militar. Jonathan dificilmente assinava ou mencionava seu nome do meio e muitos nem sequer chegaram a conhecê-lo. Seus amigos costumavam chamá-lo apenas de Jat.
A nave que ele pilotava era uma espécie de caça de cor púrpura, muito veloz e Capaz de realizar manobras evasivas com extrema eficiência. Assim como todas as naves na estação esta possuía o nome de uma letra grega, Delta, e suas asas, sendo uma com o dobro do tamanho da outra, foram projetadas especialmente para garantir um maior desempenho nas manobras evasivas por consequência da inércia gerada pelas mesmas no espaço. Outra característica que garantia grande agilidade aos Deltas era o seu eixo rotativo, que permitia às asas girarem em todas as direções em torno do cockpit, que podia ser tripulado por até quatro pessoas.

Após o puxão no manche o caça Delta de Jonathan subiu em trajetória circular até completar um circulo completo e assim se posicionar exatamente atrás de outro Delta. Jonathan então acionou os dois gatilhos presentes no manche ao mesmo tempo, disparando dois tirou simultâneos na nave a sua frente.
- Ha, ha, ha – Simulou a voluptuosa Jakeline Jakarta, uma risada debochada - Essa é minha vez Jat! Você pode ser muito bom com os Kappas, mas os Deltas são muito rápidos pra você. – Disse se referindo a naves cargueiras da estação, conhecidas pela letra grega Kappa.

Eximia combatente, Jakeline Jakarta era talvez a única da frota capaz de competir em igualdade com Jonathan, mas suas qualidades não se resumiam apenas ao combate. Morena esbelta de cabelos bem escuros e olhos verdes oliva, possuía atributos invejados pelas mulheres e desejados pelos homens. Suas belas feições roubavam olhares cobiçosos por onde quer que passasse.

Ela girou o manche trezentos e sessenta graus para a esquerda e o puxou com força para o corpo, e então as asas da nave giraram para a esquerda, em torno do cockpit, deslocando a nave para a mesma direção. Jonathan só pode ver seus tiros passando pelo Delta de Jakarta e se perdendo no espaço.
O puxão que ela deu no manche após a primeira manobra permitiu que a nave desacelerasse e que o outro Delta passasse por ela com velocidade. Jakeline então executou outro giro, dessa vez para a direita, se posicionando exatamente atrás da nave de Jonathan.
- Bye bye, gatinho! – E Jakarta disparou vários tiros intermitentes.
Jonathan não teve tempo de pensar em nada, sua nave foi atingida em cheio e ele só pode ver uma pequena explosão, que rapidamente foi consumida pelo vácuo, em sua asa maior, agora posicionada à sua esquerda. O impacto fez toda a nave tremer e os motores, forçados ao máximo para compensar as avarias, emitiam um som agudo e irritante. Jonathan segurou firme o manche tentando estabilizar a nave quando, de repente, todo parou.
Jonathan e Jakarta ouviram o som dos estressados motores de suas naves sendo desligados. Diante de seus olhos o espaço desapareceu e no seu lugar surgiu uma luz branca muito clara.
Jonathan tirou os óculos de proteção e os atirou contra o painel:
- Maldição! Quem desligou o simulador?
- Veja só se não são Jonathan Trust e Jakeline Jakarta. – Disse sarcasticamente o Tenente Adolf Stolz, que ainda segurava a chave usada para desligar os simuladores. – Se formam hoje e não tem o mínimo de responsabilidade. Voltem agora mesmo para a festa ou terei de prendê-los. Não me admira que vá para o Lixo, Trust.

O arrogante Tenente Adolf Stolz, desde o ingresso de Jonathan na academia, havia sido seu principal rival, e muitas vezes o motivo de ele ser punido por sua indisciplina. Stolz sempre foi muito disciplinado em todos os assuntos relativos à academia, tendo sido considerado pelos professores e outros membros do conselho militar um dos melhores alunos e um militar exemplar, mas, devido ao seu orgulho e vaidade, Adolf Stolz não era capaz de aceitar que alguém tão inconsequente, irresponsável e relaxado como Jonathan Trust pudesse vir a se tornar um militar e ainda superá-lo nos combates, caindo assim nas graças dos professores. Adolf era um rapaz alto, forte e bem apessoado, sua farda costumava estar sempre impecável, sua barba sempre bem feita e seus cabelos negros de um brilho azulado, estavam sempre curtos e bem penteados, porém, mesmo portando tal beleza, nunca pode superar o sucesso de Jonathan com as mulheres, o que lhe aumentava ainda mais o ódio e a frustração.

Jakarta segurou o braço de Jonathan, que já estava prestes a partir pra cima de Adolf.
- Não vale à pena Jat.
Jonathan olhou pra ela e compreendeu que começar uma briga agora, na véspera de suas formaturas, realmente seria estupidez, e saiu do centro de simulação a passos firmes, esbarrando propositalmente no Tenente Stolz.
Jakeline saiu logo atrás de Jonathan, e ele, ao perceber que ela o havia alcançado, disse em tom raivoso:
- Um ano... Ele se formou um maldito ano antes de nós e já acha que pode abusar da patente.
Jakeline segurou a ponta do queixo de Jonathan e respondeu:
- Calma, gatinho, nós nos formamos hoje. – Piscou o olho direito, ficou na ponta dos pés e beijou-lhe a boca.

...

Apesar das poucas conversas paralelas, o grande salão de bailes permanecia em silêncio para prestigiar o belo discurso preparado pela oradora da turma. Os militares, professores e formandos escutavam atentamente suas palavras e sentiam-se orgulhosos pelas honrarias e agradecimentos pronunciados por ela.

- Meus parabéns! – Disse o General McCartney se aproximando de Jonathan com dois copos de uísque nas mãos. – Soube que assumirá sua própria nave.
- É só o Lixo, senhor. – Respondeu Jonathan pegando um dos copos que o General lhe ofereceu.
- O Lixo me deu várias dessas, meu jovem. – O General apontou para as medalhas no peito. – E seu pai também teve uma brilhante carreira militar por lá.
- Também foi lá que ela terminou. É por isso que hoje ele está naquela cadeira sem poder se levantar, e se não fosse sua amizade por ele, provavelmente ele já estaria vagando no espaço, senhor.
 - Eu o vi crescer e sei que tens um futuro brilhante pela frente, filho. Não deixe que a opinião dos outros te influencie, pois são poucos os que têm o privilégio de assumir uma nave logo após a formatura. Não encare o Lixo como um desafio, mas sim como uma oportunidade.
Jonathan não soube o que responder, apenas concordou com um movimento de cabeça.
- Já sabe quem será sua tripulação? – Prosseguiu o General.
- Não, mas gostaria de indicar alguém como piloto. – Disse Jat, tomando aquele momento como uma verdadeira oportunidade.
- Jakarta? – Arriscou o General, acreditando ter acertado. – Você conhece a política, Jonathan. Sabe que não posso colocar namorados juntos na mesma tripulação.
- Sei disso senhor, e não é de Jakarta que estou falando. Quero Rizzo como meu piloto. – E apontou para o amigo, que estava sentado despojadamente em outro canto do salão, gargalhando de uma piada qualquer.
- Giovanni Rizzo nem se formou ainda.
- E já foi considerado o melhor piloto da frota. Ele passou pro último ano, pode compor a missão como estagiário até que se forme e então assuma o posto oficialmente.
- Que seja então, mexerei meus pauzinhos pra colocá-lo com você. Mas, traga-o de volta a salvo pra formatura.
Jat sorriu.
- Ah, já ia me esquecendo. – Lembrou-se o General. – Você também precisa de um cientista no grupo, e eu tomei a liberdade de indicar uma pessoa. Também se forma hoje, e fiquei realmente impressionado com o trabalho que vem desenvolvendo e seus resultados acadêmicos.
Jonathan pode sentir que a resposta não o agradaria, mas perguntou assim mesmo.
- De quem estamos falando, senhor?
- Helena Dias. – E o General apontou para o palanque, de onde a oradora da turma finalizava seu discurso.

 De fato a resposta não agradou. Helena Dias a certinha, a estudiosa, a boa menina, a insuportável, era alguém que nunca aceitaria o desleixo dos dois outros tripulantes da nave, mas tendo o General se disposto a incluir seu melhor amigo na tripulação, qualquer que fosse o cientista indicado, Jonathan não teria coragem de recusar.
Helena não suportava o total descompromisso com que Jonathan e seus amigos levavam a vida, e o General McCartney sabia disso. Sabia também que ela jamais permitiria à missão seguir desordenada, imporia sua opinião, e esse conflito de diferentes opiniões amadureceria tanto Jonathan quanto ela mesma, por este motivo ele a havia indicado.
Helena não era tão virtuosa quanto Jakeline Jakarta e nem mesmo foi uma das garotas mais populares da academia, seus atributos eram mais modestos, mas sua beleza recatada de forma alguma podia ser contestada. Tinha cabelos bem lisos e num tom castanho avermelhado, de aspecto vivo e lustroso, que costumava usar preso como rabo de cavalo. Sua pele era bem clara e tinha algumas poucas sardas no rosto, seus olhos eram verdes como esmeraldas e seu corpo atlético roubava a atenção dos homens e os deixava sem fala. Isso quando ela não estava usando o velho jaleco branco de laboratório e os óculos, de baixo grau, porém de grossa armação preta, que costumava usar. Importava-se mais com seu trabalho do que com a própria aparência, portanto era sua sorte que a natureza lhe havia sido generosa. Nunca foi de dar muita liberdade aos homens, principalmente aos garanhões como Jonathan Trust. Sentia-se indignada com a facilidade com que os garotos conquistavam as mulheres na academia. Corpos fortes não a impressionavam, considerava-se uma mulher de valor, uma mulher que não se entregaria a qualquer relação sem futuro, digna de uma verdadeira demonstração de amor, de um verdadeiro trabalho hercúleo para conquistá-la.

- E aí, estagiário? – Disse Jonathan, dando um leve tapinha na cabeça de seu amigo Giovanni Rizzo, que estava sentado junto a outros estudantes.
- E aí, seu trouxa? – Respondeu Giovanni, oferecendo um copo de cerveja a Jonathan. – O que você disse? Estagiário? – E levantou a sobrancelha esquerda com cara de dúvida.
- É isso mesmo, agora eu posso mandar em você. Você será o meu piloto no Lixo. – E Jonathan levantou o copo chamando um brinde.
- Caramba! Digo, digo... É uma honra, senhor comandante. – Disse Giovanni, estufando o peito e simulando uma continência. Depois gargalhou alto e brindou, chocando o copo contra o de Jonathan. – Vem cá, você é foda! – Levantou-se e abraçou o amigo. – Vamos tomar mais uma pra comemorar?
- Mais tarde, irmãozinho. Tenho que dançar uma valsa agora.
- Valsa? Com quem? – Perguntou Giovanni admirando-se que seu amigo soubesse dançar valsa e que realmente se dispusesse a isto a ponto de perder uma rodada de cerveja.
- Com a cientista membro da tripulação. – Jonathan torceu o nariz enquanto apontava pra Helena, que dançava com Adolf Stolz.
- Helena Dias e Adolf Stolz. Não sei qual dos dois seria pior.
- Stolz seria pior. Helena pelo menos é mulher. – Respondeu Jat, com um leve sorriso no canto da boca.

Se Jonathan era tido como relaxado, Giovanni tinha uma fama ainda maior. Era um brincalhão, não levava nada a sério, a vida pra ele era algo simples de se lidar, costumava dizer que o melhor a se fazer era deixar as coisas correrem naturalmente e que não valia à pena se preocupar com o que ainda não aconteceu. Sua única real responsabilidade eram os treinos de pilotagem, dedicava-se avidamente a se tronar um piloto profissional. Giovanni era o estudante com mais horas de vôo na academia, tendo mais até que outros militares recém formados, e no penúltimo ano da academia foi considerado, em um concurso promovido pela administração da Estação 2000 e aberto a todos os pilotos da estação, o melhor piloto da frota. Giovanni era um pouco mais baixo que Jonathan e também mais magro, pois não se dedicava tanto aos exercícios físicos, era loiro e seu cabelo também era mantido bem curto, não por sua própria vontade, mas sim por normas militares. Usava costeletas e um cavanhaque unanimemente condenado pelos militares de altas patentes e conservadores da academia, mas ele não se importava com isso, sabia que um piloto tão habilidoso não podia ser descartado tão facilmente.
   
A música não era de fato uma valsa, e sim uma antiquíssima música romântica da banda Whitesnake, agora interpretada pela Banda da Academia Militar em conjunto com a Orquestra Sinfônica da Estação 2000. Seu nome é “Is This Love”.
- Com licença, é minha vez. – Disse Jat colocando sua mão direita sobro o ombro de Adolf Stolz. Stolz franziu o cenho, mas soltou a mão da parceira de dança. Helena suspirou, aliviada por se livrar da desagradável companhia de Adolf, e bufou irritada, quando Jonathan segurou sua mão. – Me concede essa dança?
- Sai de cena um ruim e entra um pior. – Disse Helena descontente, mas aceitando o convite.
- Não se empolgue muito, o privilégio desta dança não é pra te agradar, ou causar inveja nas suas amigas nerds. – Debochou Jat. Helena apenas virou os olhos pra cima e emitiu um “hum”, desaprovando a pretensão do garoto. – No entanto, estou aqui pra lhe dar uma boa notícia. Terá de me agüentar por muito mais tempo do que pensa. Será a cientista de nossa tripulação. – Ele anunciou com uma empolgação sarcástica, como se essa fosse a melhor notícia que já anunciara em toda sua vida.
“I need you by my side, tell me it´s alright”, cantou um dos vocalistas da banda, e Jat segurou a mão de Helena, levantou-a e girou sua parceira de dança na pista em um singelo passo não ensaiado. 
- Não acredito nisso. Tenho trabalhado tanto nos projetos genéticos, por que fui mandada pro Lixo? De onde veio essa ordem? – Perguntou Helena com certo ar de indignação.
- Do General McCartney. – Respondeu Jat. E ambos olharam desapontados pro General. Helena também não ousaria discordar dele, todos respeitavam sua opinião.
- Aliás, genética num é um bom ramo pra se basear uma carreira. Sua aplicação se tornou quase inútil depois da Seleção Natural. – Emendou Jat, que, sentindo certa cumplicidade no desgosto pela indicação, tentou manter uma conversa em tom amigável.
- Não há nada de inútil no desenvolvimento genético. Permitir-nos garantir que todos nasçam saudáveis e sejam assim pelo resto da vida é algo simplesmente grandioso. A Seleção Natural é uma crueldade que, se dependesse de mim, já teria cessado. – Revoltou-se Helena, com algo que já não era mais a simples presença de Jonathan. – Me diga você, o Lixo é um bom lugar pra se constituir uma carreira?
- Bom, o General disse que pode ser uma boa oportunidade... – Começou Jonathan, mas não pôde concluir a frase, pois Jakeline abraçou-o, olhou bem nos olhos de Helena e disse:
- Querida, você já abusou demais... Ele agora é meu! – E puxou Jonathan para si continuando a dança. Helena sacudiu a cabeça, como quem não acredita no que acabou de ouvir, e deixou-os na pista.
Então Jonathan abaixou a cabeça até que sua boca estivesse próxima ao ouvido de Jakeline e propôs, cochichando:
- Que tal irmos pra algum lugar mais reservado?
- Que tal atrás do palanque? – Respondeu Jakeline, semicerrando os olhos e mordendo levemente os lábios.


Capítulo 2 – O Fim


“Temperatura do planeta aumenta 0,7°C no último século. O aumento pode chegar a 5,8°C em mais 100 anos.”

“Nível global de Dióxido de Carbono chega a 384,9 partes por milhão na atmosfera.”

“Ataque terrorista derruba o principal centro comercial do mundo.”

“Mais de 30 mil mortos no Iraque.”

“Bebê é abandonado em lata de lixo.”

“Ártico poderá desaparecer em 20 ou 30 anos.”

“Adolescente mata os próprios pais.”

“Com o avanço tecnológico, a produção de lixo eletrônico pode aumentar 500% em 10 anos.”

“240 mil toneladas de lixo, por dia, são produzidas no país.”

“Crianças morrem de fome em país subdesenvolvido.”

“Pedofilia envergonha religião.”

“Tsunami atinge a Indonésia em mais 11 países e mata aproximadamente 220 mil pessoas.”

“Desastres naturais ou consequências dos nossos atos?”

“Tropas invadem floresta tropical. – Reserva indígena é devastada.”

“Armas de destruição em massa – Nossos soldados voltam vivos pra casa.”

“Armas de destruição em massa – Civis são os mais afetados... Mulheres e crianças não são poupadas.”

“Menor de idade é violentada e perde a irmã nas mãos de estuprador.”

“Casal é torturado e assassinado por ex-namorado ciumento.”

“200 mil mortos em terremoto no Haiti.”

“Garota é encontrada esquartejada próximo a capital.”

“Venda de armas de fogo aumenta 70%.”

“Bomba a Vácuo explode matando o maior número de pessoas da história.”

“Terceira Guerra Mundial – A Luta Por Água.”


O ser humano é um vírus, que infecta o planeta, mata sua própria espécie e destrói tudo ao seu redor.

A raça humana, em sua infinita acomodação, não é capaz de agir em relação a algo a não ser que tenha consciência de que isso a prejudica diretamente. A falta de percepção da maioria das pessoas e a ignorância dos povos levaram-nos ao descaso e descrença em relação ao futuro certo que é o fim dos recursos naturais do planeta. Sendo assim, mesmo diante dessa ameaça crescente, o ser humano permanece impassível, parecendo não se importar, até que seja tarde demais.
Escrevo esta carta aos que, de fato, exercem influência sobre o planeta para que, talvez, este futuro possa ser evitado.

A devastação gradativa do planeta tomou proporções inimagináveis e, apesar das inúmeras tentativas de organizações naturalistas, movimentos pacificadores, união de governos, pessoas com boas intenções e até mesmo hipócritas em tentativas gananciosas de atrair aliados, que, por acaso, acabaram fazendo o bem, não foi possível salvar o meio ambiente.
Por maiores que fossem os esforços pra conter a devastação, eram incontavelmente mais numerosas as oportunidades de destruir.
Qualquer um podia ter um papel de bala nas mãos e a oportunidade de jogá-lo no chão, tendo para si que não havia melhor destino para este naquele momento. Qualquer um podia ir de carro à padaria da rua de baixo e ter a oportunidade de poluir ainda mais o ar, tendo para si que o carro tornaria a viagem menos cansativa e mais confortável. Qualquer um poderia imprimir uma página por folha e ter a oportunidade de contribuir com o desmatamento, tendo para si que seu trabalho seria entregue o mais vistoso e organizado possível.
Por maiores que fossem os esforços pra conter a devastação, eram incontavelmente mais numerosas as oportunidades de destruir.

A situação gerou conflitos. As nações não tinham mais alternativas sustentáveis, e guerras foram travadas por recursos naturais, antes abundantes.
Não havia mais solução, qualquer esforço que fosse realizado só poderia retardar o inevitável... O planeta estava acabado... A humanidade teria de abandoná-lo.

“A Quarta Guerra Mundial será travada a paus e pedras”.
Quem um dia disse esta frase não fez idéia da premonição que fazia a respeito do futuro da humanidade. Após a Terceira Guerra Mundial a destruição era tamanha que o planeta não passava de um depósito fétido de lixo. As nações acordaram a internacionalização dos poucos recursos naturais restantes e alguns países que um dia tiveram orgulho de possuir enormes bacias hidrográficas e ricas reservas florestais passaram a não exercer mais a soberania sobre estes territórios.
A humanidade sabia que era só uma questão de tempo até que esses escassos recursos também chegassem ao fim, portanto era necessário que se propusesse uma alternativa o mais rápido possível, e esta surgiu em uma assembléia das Nações Unidas, onde os mais influentes governantes conseguiram vender a idéia de que uma antiga união entre países poderia ser a solução. Uma união iniciada em 1998, com a construção do que até aquele momento era considerado o maior laboratório de desenvolvimento científico que já existiu. Este laboratório se encontrava em uma órbita de 350 a 460 quilômetros da terra, era conhecido como ISS – International Space Station, a estação espacial internacional. 

A proposta era ampliar e desenvolver a estação até que esta oferecesse condições perfeitas para que uma civilização pudesse se instalar e viver harmonicamente, e assim prosseguir. Mas o egoísmo humano, mesmo percebendo seu planeta a beira do colapso, não procurou poupar e nem mesmo utilizar conscientemente os poucos recursos ainda restantes, muito pelo contrário, procurou esgotá-los em escala exponencial, não só para aprimorar a primeira estação como também para construir duas novas estações, com a audaciosa e doce ilusão de abrigar e salvar toda a raça humana.
As três estações, chamadas a princípio de ISS-1, ISS-2 e ISS-3, foram postas em órbita, porém, como já era esperado por aqueles realmente influentes no projeto, não foram capazes de suportar nem mesmo um terço da população total da terra, e assim iniciou-se a meticulosa seleção dos que mereciam ser salvos. Uma seleção cujo critério de merecimento considerado foi única e exclusivamente o financeiro.
Em janeiro do ano 2199 iniciou-se a ocupação das estações, e os países mais influentes na política e economia mundial tiveram prioridade. Assim os mais afortunados representantes destes países foram ocupando respectivamente a ISS-1, ISS-2 e ISS-3, tomando seus lugares junto à salvação.

A idéia era que as estações mantivessem um curso lento e despreocupado em busca de outros sistemas ou planetas que oferecessem condições de vida semelhantes as da Terra, para que os humanos pudessem recomeçar suas vidas. Enquanto as estações mantinham seus cursos seriam enviados cruzadores Sigma, naves exploratórias tripuladas, capazes de realizar longas expedições, com o objetivo de varrer o espaço com maior velocidade em busca deste convidativo habitat.

Menos de um mês após a ocupação das estações, durante uma das missões de abastecimento de suprimentos para o início da viagem, o ônibus espacial Columbia 1000 teve uma pane em seus propulsores durante a acoplagem, colidindo fatalmente contra a estação ISS-1. A explosão da ISS-1 desdobrou-se como um castigo divino sobre aqueles que antes foram influentes na condenação do resto da humanidade, e abalou consideravelmente o ânimo e fé dos habitantes das duas outras estações. Sentimentos esses, que se perderiam facilmente no tempo.
Em homenagem aos que se foram no acidente do Columbia 1000, as estações restantes foram renomeadas a partir do número de série do ônibus e de uma letra grega que seguia o padrão já empregado pela frota de naves, passando então a se chamar estações Alfa 2000 e Alfa 3000. Posteriormente, por conveniência ou dinamicidade de diálogo, passamos a ignorar a letra grega e chamá-las apenas de estações 2000 e 3000.

Exatos trinta anos depois, apesar de não ter havido acidente sequer, perdemos também a 3000. Por motivos até então desconhecidos, sua identificação desapareceu de nossos radares, e toda tentativa de comunicação tornou-se inútil.

Estávamos sozinhos então... Sozinhos em busca de uma causa perdida... 166 anos após a partida, não encontramos um novo sistema solar, não encontramos nosso tão desejado ecossistema, não encontramos nada igual ao que a Terra um dia nos ofereceu, nada igual ao que nós destruímos.
Não há vida em outros planetas... Não há vida além de nossa medíocre existência.                                                                                                
                                                                                                             


Jonathan A. Trust
20/06/1994[1]  

 
















[1]Em 11 de dezembro de 1997 foi aberto pra assinaturas o protocolo de Quioto, que acabou por entrar em vigor em 16 de fevereiro de 2005, após 55% dos países, que juntos, produzem 55% das emissões de gases tóxicos, o ratificarem.


Capítulo 3 – O Lixo


“I never wanna die”, era o verso que se ouvia em alto volume a bordo da nave, mas na primeira citação do refrão “Born to be wild” o som parou repentinamente deixando pra trás apenas um chiado alto.
- Estamos adentrando a atmosfera da Terra. – Disse Giovanni, enquanto desligava o som e apertava uma série de outros botões no painel de controle da nave. – Ativando controle manual e iniciando procedimento de pouso. Apertem os cintos, crianças, e não tentem fazer isso em casa.

A nave, um cargueiro Kappa, foi projetada por Russos e possuía capacidade de carga equivalente ao antigo Antonov An-225 Mriya. Tinha forma de disco e carcaça robusta, de forma que pudesse enfrentar condições adversas tanto no espaço, como em campos de asteróides, quanto em superfícies acidentadas de altas intempéries, como na Terra. Podia ser confortavelmente tripulada por até 10 pessoas, porém as missões eram geralmente formadas por apenas três, um comandante, um piloto e um cientista.
Ao romper a barreira atmosférica da Terra, a nave incandesceu tornando-se uma grande bola de fogo, que ao se dissipar revelou a resistente e chamuscada fuselagem onde, na parte frontal da nave, estavam gravadas as letras C-CR e logo abaixo, em letras menores, a inscrição “Creedence Clearwater Revival”.
Os seis propulsores, localizados na parte inferior do disco e divididos três a três nas laterais de forma longitudinal, baixaram-se de forma que apontassem diretamente para ao solo, garantindo uma descida lenta e um pouso suave.

...

As estações utilizavam material radioativo como principal fonte de energia, além de possuir um complexo sistema de transformação e reaproveitamento da matéria orgânica, usada na produção de combustível alternativo, geração de energia e até mesmo na sintetização de alimentos. Enfim, eram capazes de garantir sua subsistência e sustentar a continuidade da missão. Porém, o ciclo de renovação era lento e nem toda a matéria consumida pela estação podia ser reposta em tempo hábil, por isso, além dos Sigmas, outro tipo de expedição era necessária.
Periodicamente eram enviados, à Terra, os cargueiros Kappa, com o objetivo de extrair todo tipo de material orgânico ou radioativo que pudesse ser encontrado no planeta. Uma missão simples, partindo do princípio que toda superfície do planeta estava coberta de matéria orgânica, mesmo que em decomposição. No entanto, uma missão pouco desejada pelos militares das estações devido aos riscos existentes na exposição à atmosfera da Terra e seu ambiente hostil, além de ser uma viagem muito longa, durando aproximadamente seis meses a cada expedição, tempo qual aumentava cada dia mais, à medida que a estação se distanciava do planeta.
Buscando minimizar esse tempo foi construído o moderno sistema de tele-transporte chamado de Check Point, que visava à liberação de um mecanismo de tele-transporte no espaço a cada vez que a estação atingisse a distância limite para a comunicação com o último Check Point posicionado, as naves deveriam viajar até o Check Point mais próximo da estação e então serem impulsionadas através de cada um dos pontos até atingir o ponto mais próximo da Terra, ponto este que estava posicionado a uma distância de aproximadamente dois meses e meio do planeta. O sistema de Check Points também era muito útil nas expedições Sigma e permitiam às naves serem transportadas de um ponto ao outro do universo em velocidade equiparada à velocidade da luz. Sendo assim, as distâncias mais longas eram percorridas em minutos, enquanto que as mais curtas e até mesmo a própria missão exigiam habilidade e coragem dos seus executores. Por esses motivos, ao contrario dos Sigmas que só podiam ser comandados por Capitães e Majores, Tenentes recém formados eram usualmente indicados para comandar os cargueiros Kappa.
Essas longas, indesejadas e perigosas missões eram vulgarmente conhecidas entre os militares como “O Lixo”.

...

A nave pousara em uma planície de solo árido, apesar de próxima a uma antiga represa, que outrora talvez tenha sido límpida e cristalina, mas agora apresentava uma superfície turva e pantanosa, de um liquido notavelmente viscoso e tóxico. Baixou então a rampa de acesso e nela foi descendo Jonathan Trust. Um Jonathan dez anos mais velho, que manteve seu corpo forte, porém deixou pra trás o visual disciplinado da academia. Seus cabelos, já não tão curtos exibiam o volume de um cabelo levemente cacheado. Trocou a alinhada farda azul marinho, usada na época da academia, por uma camiseta preta sem mangas e calças largas de cor cinza, geralmente usadas pelos mecânicos da frota. Costumava usar também um cinto preto de fivela prateada e um coldre axial de couro marrom, que mantinha seu revólver Smith & Wesson 500 Magnum, do lado esquerdo de seu tórax.
Jonathan descia a rampa a passos firmes olhando para o horizonte a sua frente como se procurasse por algo. Usava uma mascara acrílica transparente, ligada por um tubo a um antigo cilindro de oxigênio, preso a uma surrada mochila verde camuflada à suas costas, e carregava um antigo rifle AK-47 com coronha de madeira.

Devido à rápida evolução tecnológica no início do século, ao foco das entidades militares no desenvolvimento de armas de destruição em massa e posteriormente ao aperfeiçoamento da viagem espacial e armamento especializado para combate no espaço, o desenvolvimento das armas de combate corpo a corpo foi deixado de lado pelas autoridades, relegando as infantarias os antigos arsenais já existentes. Sendo assim, as naves da estação possuíam os mais modernos dispositivos bélicos e os mais precisos e destrutivos canhões laser, mas para os soldados em solo restaram apenas antigas armas de fogo baseadas em projéteis.

Atrás de Jat vinha descendo outra pessoa, que ao se aproximar dele passou os braços em torno de seu pescoço e simulou, em um encontro de máscaras, um beijo em seu rosto. Era Helena Dias, com quem o tempo havia sido generoso. Sua aparência pouco havia mudado, mantendo sua jovialidade e também a silhueta atlética dos tempos da academia. Logicamente agora mais experiente, era merecidamente aclamada no meio científico.

- Vamos parando com a putaria que tem criança chegando na sala. – Gritou Giovanni Rizzo, que agora descia a rampa. Sua aparência também não mudara tanto, aparentava logicamente ser mais maduro, mas não perdeu seu senso de humor. Manteve as costeletas, o cavanhaque e também o cabelo curto, que agora usava arrepiado, apesar das pequenas, porém aparentes, entradas acima das têmporas.
Jat e Helena sorriram e ela soltou-o, balançando os braços fingindo estar encabulada. O Sol então refletiu em algo na mão esquerda de Helena, uma aliança dourada brilhou em seu dedo anelar.
 - Ei, vocês vão acabar cegando alguém com isso! – Disse Giovanni apontando para uma aliança semelhante na mão esquerda de Jonathan.
- Vamos baixar logo o cano de sucção na represa, assim podemos correr com aquele servicinho extra. – Disse Jonathan olhando novamente para o horizonte, apreensivo com o que pudesse estar adiante.
- A água está carregada de matéria útil, mas a análise deste solo ressecado não indica nada de aproveitável. – Disse Helena enquanto olhava para um pequeno monitor que acabara de tirar da mochila.
- Acho que consigo baixar o dreno sozinho, vocês podem seguir até o depósito se quiserem. Que tal? – Perguntou Giovanni enquanto arrastava uma enorme mangueira tirada de um compartimento na parte inferior da nave.
- Vamos deixar o módulo pra você então. Assim pode nos alcançar quando terminar. – Respondeu Jat, saindo em caminhada junto a Helena. Ela procedendo com a análise do solo, em seu pequeno monitor, e ele segurando firmemente o rifle, atento ao que pudesse encontrar pelo caminho.
Alguns metros adiante ouviram Giovanni gritar novamente, para lembrar-lhes algo.
- Não querem levar alguns explosivos?
- Não! – Gritou Jat, em resposta. Mesmo tenso ele sorriu ao completar a frase. – Tenho preguiça de ativar aqueles cronômetros.
 
...

Jonathan e Helena chegaram, depois de uma caminhada de aproximadamente trinta minutos em meio ao árido e poluído cenário da Terra, a um velho e enorme hangar, erguido sobre uma estrutura de metal agora quase totalmente enferrujada. Estavam suados e ofegantes devido ao calor escaldante proporcionado pelo Sol, que se apresentava vívido, em um céu avermelhado e quase sem nuvens. Mesmo com a ajuda das máscaras de oxigênio, caminhar sob tal temperatura e em meio ao ar tóxico do Lixo exigira muito esforço de seus corpos.
Empurraram juntos, a gigantesca porta, que deslizou com dificuldade sobre os trilhos corroídos pela oxidação. A fresta aberta, suficientemente larga para que seus corpos pudessem passar, deixou entrar um feixe de luz que iluminou toda a área central do hangar, mas que intensificou as trevas que ainda encobriam as paredes laterais e o fundo daquele ambiente pouco convidativo.
Helena tirou da mochila uma grande lanterna preta, que parecia estar acoplada a uma caixa quadrada de ferramentas e era segurada por uma alça fixa na parte superior da tal caixa. Acionou o interruptor, mas a lanterna só funcionou mesmo depois que Helena deu dois tapinhas na lateral do refletor.
Tentou iluminar o que pôde, mas as dimensões do galpão não permitiam uma boa iluminação, mesmo sendo a luz produzida por aquela lanterna, bem mais intensa que a de uma lanterna comum.
- Vamos. Temos que encontrar logo o quê viemos procurar. – Disse ela.
Jat não disse nada, mas concordou com a cabeça. Sacou também uma lanterna, bem menor, da mochila e acoplou-a ao rifle, e assim continuaram sua meticulosa busca através da escuridão até que encontraram, no chão ao fundo do galpão, um alçapão de madeira bem velha e carcomida por algum tipo de inseto. Puxaram-no para o lado usando uma corrente, presa ao centro do alçapão, revelando uma passagem larga para o subterrâneo.
- Nós vamos entrar aí? Não acha melhor esperar o Rizzo? – Perguntou Helena contemplando a escuridão e a poeira levantada com a abertura da passagem.
- Ele já deve estar chegando. Temos que terminar logo isso, não é seguro ficar andando por aqui. – Respondeu Jat, iniciando a descida. Helena seguiu-o.
Chegando ao fim das escadas, estavam diante de outro galpão, subterrâneo, tão grande quanto o anterior e ainda mais escuro, mas dessa vez não estava vazio.
- Encontramos! – Disse Jonathan, sorrindo satisfeito.
Ao apontarem suas lanternas em direção ao fundo do galpão se depararam com enormes barris que, enfileirados lado a lado e empilhados dois a dois, forravam o galpão, praticamente pela metade. Focaram melhor a luz na adornada etiqueta colada na parte frontal de um dos barris, onde puderam ler a frase “Whiskey Para Exportação – 18 Anos”.

Um planeta não deixa de existir porque seus habitantes o deixaram, pelo contrário, ele se adapta. Os mais afortunados tomaram seus lugares junto à salvação, deixando o resto dos habitantes da terra a mercê da morte, para os de sorte, ou ainda pior, das deformidades advindas da evolução.

Deslumbrados com o achado Jonathan e Helena não perceberam que alguém os observava, escondido na escuridão. De cima de um dos barris surgiram pequenos olhos brancos e brilhantes, e ao se aproximar, sorrateiramente, aquela deformada criatura se mostrou à luz das lanternas.
Jonathan e Helena recuaram apreensivos ao avistar aquele estranho ser que se aproximava, e perceberam que ele não estava sozinho. Detrás da escuridão brotaram outros tantos olhos que eles não puderam contar.
- Estamos na toca deles. Sem movimentos bruscos – Sussurrou Jonathan tentando não perder de vista a criatura.
- Este deve ser o Alfa. – Respondeu Helena que também atentava ao ser que se exibira primeiro. – Se ele nos ignorar os outros não atacarão. Vamos sair daqui.
Começaram a recuar a passos curtos, sem deixar de acompanhar a aproximação daqueles grotescos seres. Eram humanóides, provavelmente descendentes das antigas gerações que foram deixadas no planeta, mas estes já não se pareciam com seres humanos comuns.
Deformados devido às condições climáticas e à atmosfera tóxica da Terra, sua pele era escura e áspera, como se fosse feita de terra, provavelmente uma adaptação do organismo contra intensos raios solares, suprindo a falta da já ineficiente camada de ozônio. Seus olhos eram como pequenas bolas de vidro, porém brancos como os dos animais que vivem muito tempo em tocas subterrâneas, no escuro brilhavam com aparência perolada. Alguns, devido ás toxinas encontradas no ar e água desenvolveram deformidades nos membros, chegando ás vezes a não possuir algum dos membros ou até possuí-los em excesso, atrofiados e presos a outras partes do corpo. O mesmo também acontecia em sua face, apresentando mandíbulas tortas e, alguns, a falta de olhos, orelhas ou nariz. Seu andar era atarracado, apoiando os membros superiores no chão como os antigos primatas, porém, sua estrutura óssea permitia que se erguessem sobre os membros inferiores, sendo que não o fazendo, acabaram por desenvolver grotescas corcundas. Sua capacidade de fala se extinguiu como passar do tempo e agora apenas urravam como animais.
Foi com um alto urro que o líder do bando ordenou o ataque. Todas as criaturas, em torno de vinte ou trinta, dispararam em direção a Jonathan e Helena.
- Use isto. – Gritou Jat passando o revólver para as mãos de Helena.
- Eu sou uma cientista, deveria estar preservando a vida e não a destruindo. – Protestou Helena, quando disparou o primeiro tiro.
- E você está... Está preservando as nossas vidas! – Respondeu Jat, segurando o gatilho e emitindo uma rajada de tiros.
Recuaram atirando até que conseguiram subir as escadas e sair do galpão subterrâneo, mas, apesar de muitas das criaturas terem sido atingidas e caído em meio ao caminho, algumas delas pareciam resistir aos tiros e ainda persistiam na perseguição.
O líder do bando saltou em direção a Jonathan derrubando-o e começando uma luta corpo a corpo no chão. A criatura, aparentemente mais forte, conseguia manter Jonathan sob seu corpo, apenas protegendo-se dos golpes frenéticos que ele lhe aplicava.
- Atire nele! – Gritou Jat em desespero.
- Eles são muitos, não estou dando conta. – Respondeu Helena também em desespero. – Oh não, estou sem balas!
As criaturas avançaram em fúria em direção a ela quando, de repente, como que por milagre, algo rompeu violentamente a frágil parede metálica do hangar e entrou em alta velocidade, parando bruscamente e derrapando em trajetória semicircular até bem próximo dos dois.
Era o módulo terrestre de exploração, um veículo parecido com um jipe, mas com uma grande caçamba para comportar cargas. A luz que entrou pela grande brecha feita pelo módulo na parede fez com que as criaturas recuassem, e então a capota do módulo deslizou para frente e de dentro levantou-se Giovanni Rizzo segurando um antigo fuzil M-16.
- It´s evolution baby! – Disse ele atirando no líder do bando que atacava seu amigo.
A criatura caiu sobre o corpo de Jonathan e a rajada de tiros cessou.
- Droga! Travou. – Praguejou Giovanni olhando atônito para o fuzil e dando-lhe uma chacoalhada.
Uma infelicidade relativa aos fuzis M-16 era a possibilidade de eles travarem em combate, mas nesse caso não foi um problema tão grande, tendo em vista que as criaturas, sentindo-se vulneráveis na luz e vendo seu líder morto, fugiram correndo pra longe do hangar. Jat empurrou o corpo do líder com os pés, levantou-se e atirou mais uma vez para o alto, espantando de uma vez por todas qualquer criatura que ainda estivesse por ali.

- Doze anos, dezoito, vinte e um... Qual deles nós vamos levar? – Perguntou Giovanni ao olhar para os barris.
- Vamos levar todos. – Respondeu Jonathan.
- Qualquer um desses barris não deve ter menos de 150 anos. – Complementou Helena.


Capítulo 4 – O Caos


- Charlie, Charlie Romeo solicitando autorização para atracar.
- Permissão concedida. Bem vindo à Estação 2000, Creedence.

Ao desembarcarem na doca principal, foram interrompidos por um jovem e miúdo cadete que prestava continência em frente a Jonathan, Helena e Giovanni.
- Descansar, Cadete... – Jonathan observou a identificação presa ao peito do jovem. – Meyer.
- O senhor é o Capitão Jonathan Trust, senhor? – Perguntou o rapaz.
- Sim, sou eu mesmo. – Respondeu Jat, olhando para o rapaz sem entender o porquê de sua presença ali.
- Tenho um convite para o senhor, senhor. – E o rapaz entregou a Jonathan uma folha branca com inscrições douradas.
Jonathan leu o convite, que dizia em letras garrafais:
“Honradamente Convidamos o senhor Capitão Jonathan A. Trust e sua tripulação para a cerimônia de comemoração da aposentadoria do nosso mais estimado militar, o excelentíssimo General McCartney.”
 Logo abaixo, em letras menores e menos enfeitadas, o convite também dizia:
 “Aproveitamos a oportunidade para anunciarmos a honrosa promoção de nossos oficias.”
E em seguida vinha uma pequena lista de nomes.
Jonathan virou-se para Helena e Giovanni, fazendo uma careta de descontentamento, e disse:
- Vamos ter de tirar a velha farda do armário.
Os dois fizeram a mesma careta e Giovanni respondeu:
- Hum... Imagina só o cheiro de mofo.

...

Uma comemoração tão importante para os militares não poderia ser realizada em qualquer lugar, uma locação especial deveria ser disponibilizada, e só havia um lugar, em toda a estação, capaz de honrar tal requinte. Simplesmente o deck mais belo de toda a estação. Um jardim em proporções titânicas, que além de cultivar a enorme diversidade da flora da Terra, também abrigava muitas das espécies de sua fauna, algumas no zoológico e aquário da estação e outras soltas pelo bosque. Os pássaros cantavam, as flores desabrochavam, e uma cúpula translúcida, cobrindo todo o jardim, proporcionava a climatização do ambiente e a chamada sintetização solar, que garantia a iluminação, permitia às plantas realizarem fotossíntese e aos animais viverem confortavelmente. Situado no ponto mais alto da estação, quando a iluminação do jardim era cessada, a transparência límpida da cúpula, permitia ás pessoas admirarem as estrelas no vasto espaço fora da estação. Neste jardim havia também um enorme lago onde se podia praticar pesca, esportes aquáticos e de onde surgiam fontes de águas dançantes quando escurecia. Havia um campo de golfe, uma pista de patinação no gelo, que permanecia ativa durante todo o ano, e, em seu centro, o mais luxuoso salão de bailes da estação.
As paredes laterais do salão eram compostas por grandes janelas de vidro que iam do chão ao teto, onde suas brancas armações se encerravam em arcos. O alto prédio tinha a forma de uma cruz, sendo que o telhado das extensões de seus braços era triangular como nos antigos templos gregos, e no ponto onde se cruzavam se erguia, ainda mais alta, uma abobada central, tudo construído em vidro, o que lhe dava a aparência de uma grande estufa. Havia quatro enormes portas situadas uma a cada extremidade da cruz, e em cada uma das arestas foi erguida uma coluna grega com flamingos e querubins esculpidos nos capitéis. Dentro do salão havia um grande palco central, redondo e com um lustroso chão de madeira avermelhada, de onde uma orquestra executava uma doce e harmônica música clássica. Ao seu redor, dentro do perímetro da grande abobada, ficava a pista de baile, e espalhadas pelos braços da cruz, as mesas redondas, enfeitadas com lindas toalhas de seda branca, que escorriam ao seu redor até se encontrarem e contrastarem com o lustroso chão de mármore preto, e sobre as quais estava disposto, além de toda a sorte de talheres e louças de jantar, um singelo, porém lindo, arranjo de rosas vermelhas.
Esse glamoroso jardim foi batizado de Éden.

- Meus parabéns General. Tenho certeza que sua atuação como militar deixou um legado inestimável a todos nós.
- Muito obrigado, filho. Você sabe a consideração que tenho por todos vocês. Acompanhei a formação de vocês três e principalmente a sua, Jonathan, eu o vi crescer. Como está seu pai?
- Ainda não tive tempo de visitá-lo. Chegamos do Lixo hoje pela manhã. Mas creio que deve estar melhor do que eu mesmo.
- Já faz dez anos, não é? Você construiu uma carreira brilhante. Um verdadeiro herói.
- Somos todos heróis, senhor. Sem minha tripulação eu não teria sobrevivido nem a primeira viagem.
- Com certeza você tem os melhores companheiros que poderia ter. O melhor amigo e... Quem diria? Vocês até se casaram. Acredito nas pessoas, rapaz. Sempre soube que fariam a diferença.
Enquanto conversavam, Jonathan percebeu a aproximação de alguém com quem ele realmente preferia não ter contato.
- Acho que devo ir agora General. Prefiro evitar certos inconvenientes. – E Jonathan levantou os olhos na direção da pessoa que se aproximava.
O General McCartney, um homem muito sensato, entendeu logo o impasse e tratou de encerrar uma conversa, que poderia ter durado horas.
- Eu é que devo ir, meu jovem, ainda tenho muitos abraços para dar hoje, e depois, finalmente terei o descanso merecido. – Antes de virar e afastar-se do grupo o General voltou-se para a tripulação da Creedence e aconselhou-lhes. – Aproveitem a festa, filhos.
Jonathan virou-se para sua tripulação, fazendo-os entender que deviam sair dali o mais rápido possível, quando de repente alguém o abordou pelas costas.
- Ora, ora, se não é o Capitão Jonathan Trust. Ou será que devo chamá-lo de Jat?
- Só meus amigos me chamam assim, Stolz. – Respondeu Jonathan, virando-se com um sorrisinho sarcástico.
Adolf Stolz não se deixou abater pela indireta, pelo contrário, continuou seu soberbo discurso:
- Você deve estar ciente de que esta também é minha festa, não é? Ficou sabendo que fui promovido a Major? Terá de voltar a bater continência pra mim, Trust.
- Ha, ha. Nunca bati continência pra você, Stolz. Nem mesmo quando era cadete.
Stolz sentia a revolta se apoderar de seu ser a cada palavra do insolente Jonathan Trust.
- Também estou assumindo o comando da Sigma. Uma nave de verdade, não aquela lata velha que você pilota. Como é mesmo o nome dela? Creedence, não é?
- Meus parabéns Stolz. Finalmente assumirá sua própria nave e poderá parar de puxar, tanto, o saco dos seus superiores. Ao contrário de você, eu nunca tive que lamber as bolas de ninguém. Lata velha ou não, sempre tive minha própria nave.
Ao ouvir essas palavras Stolz foi totalmente dominado pela raiva. Sentia seu orgulho ferido e a inveja que sentia o traiu. Respirou fundo, elevou o tom de voz e agrediu:
- Uma nave que voa pro Lixo. É lá que começou e é lá que terminará, Trust. Terminará como o inválido do seu pai e se tiver o mínimo de dignidade, se deixará lançar no espaço, como ele deveria ter sido há muito tempo.
Jonathan poderia passar o resto do dia devolvendo a Stolz sua própria arrogância, e no fim acharia até divertido, mas jamais aceitaria uma ofensa a seu pai. Cerrou o punho e sem pestanejar deu lhe um direto de direita bem no meio do nariz.
- Você vai pra cadeia, Trust. – Gritou Adolf Stolz ao se levantar do chão e se por de joelhos, enquanto segurava o nariz quebrado, que jorrava sangue. 
Giovanni e Helena seguraram Jonathan, sabendo que a agressão a um oficial superior poderia realmente complicar sua vida.
- Vamos embora, Jat. Deixa esse fresco pra lá, vamos pra uma festa de verdade. Você vem Helena? – Perguntou Giovanni, enquanto segurava Jonathan e tentava acalmá-lo. Precisava tirá-lo dali rápido, antes que o tumulto começasse.
- Esfriem a cabeça e divirtam-se rapazes. Não estou me sentindo muito bem, acho que vou dar uma passada no doutor Peres e depois ir pra casa descansar. 

...

No início todos eram iguais.
Todas as famílias tinham suas próprias cabines, espaçosas o suficiente para garantir-lhes conforto e dignidade, porém não tão luxuosas quanto os nobres, que inicialmente habitaram a estação, estavam acostumados. Todos trabalhariam em prol da estação, garantindo o progresso das missões e a prosperidade de seus habitantes.
Mas o regime igualitário ideal, como previsto por Carl Marx, nunca existiu realmente na Terra, quem dirá na estação 2000. Como se poderia apostar no sucesso de um regime igualitário, quando o povo da estação e seus principais representantes eram gananciosos capitalistas.
A princípio os habitantes das estações foram divididos entre civis e militares, mas com o passar do tempo, os imperfeitos seres humanos começaram a mostrar e enfatizar os defeitos relativos à sua verdadeira natureza. O trabalho que deveria ser realizado por todos em uma justa distribuição de tarefas logo foi sendo deixado de lado pelos mais preguiçosos, sobrecarregando os mais dedicados e acarretando no seu descontentamento com o regime e a administração da estação, o que veio a gerar reivindicações e mobilizações tumultuadas, que só podiam ser contidas através da imposição da força militar.
Os mais arrogantes habitantes da estação também não eram capazes de aceitar a situação de igualdade com que todos eram tratados. Na Terra estes tinham inúmeros privilégios, garantidos por suas posses, mas na estação todos estavam à mercê dos mesmos direitos, obrigações, das mesmas leis, da mesma carga de trabalho e do mesmo conforto. Não podiam aceitar a igualdade como algo natural tendo vivido por diversas gerações como seres superiores, então alianças começaram a se formar entre as gananciosas famílias e também entre os corruptíveis militares e administradores da estação. A união entre famílias aumentava o poder e influência destes nas decisões tomadas em prol do todo da estação, e o oportuno descaso por parte da administração permitia que este poder crescesse cada vez mais, levando estes a se distinguirem dos demais, não restando alternativa senão instituir aquilo que poderia enfim diferenciar a todos, corromper aqueles que ainda acreditavam na ética e mantinham sua moral, e consequentemente derrubar para sempre o regime igualitário que os governava. Foi instituída a moeda de troca da estação, o dinheiro, os Solares.
Com essa nova forma de diferenciação, os mais aproveitadores e influentes podiam não só comprar a força de trabalho dos menos poderosos como também suas posses, antes lhes proporcionadas em igualdade, criando na estação um novo ramo comercial e profissões que já não beneficiavam mais o todo e a prosperidade da missão.
O capitalismo dominou a estação, e antigas cabines de passageiros foram negociadas em troca de privilégios e dinheiro, vindo a se tornar estabelecimentos comerciais de todos os tipos. Curiosamente estes estabelecimentos cresceram e se firmaram principalmente nos pavimentos inferiores da estação, o que os distanciava dos pavimentos militares e administrativos, que se situavam nos andares mais altos e próximos do mais alto dos pavimentos, o pavimento onde a alta classe da estação fixou sua luxuosa morada, o pavimento adjacente àquele que era o mais glamoroso da estação, o Éden.
Quanto mais se descia na Estação 2000, mais aumentava a pobreza, a sujeira, as enfermidades e o perigo. Em meio aos sujos corredores era possível ver pessoas maltrapilhas esparramadas pelo chão, as antigas cabines de passageiros deram espaço para bares e bordéis, vazamentos tornavam o ambiente úmido e mal cheiroso, e os arranjos feitos na rede elétrica tonaram os pavimentos inferiores escuros e soturnos. Era sempre noite no submundo da Estação 2000, iluminada apenas pelo neon das diversas boates.
Devido ao grande letreiro luminoso de um de seus mais famosos bordéis, esse pútrido ambiente foi chamado de Caos.
    
- Você tem certeza disso, Jonathan? – Questionou Rizzo, receoso. – Nunca fizemos isso antes, não quero que se ferrem por minha causa.
- Relaxa, Giovannito, sei muito bem o que estou fazendo e faço porque quero. – Respondeu Jat, encorajando o amigo e bebendo um gole de sua cerveja. Giovannito era a forma como a avó de Giovanni o chamava quando criança. – Pense que em breve ela estará com você e poderá finalmente levá-la pra casa.
- Ela vale o esforço, Jat. Não é qualquer uma. – Completou Giovanni buscando justificar o que estavam por fazer. – Ela não teve escolha.

Conversavam à mesa do maior e mais famoso cabaré do Caos, aquele que lhe deu o nome, o próprio Caos. Uma boate requintada, frequentada principalmente por pessoas da alta sociedade da estação e militares buscando o alívio do estresse cotidiano. A sua frente havia um pequeno palco com fundo espelhado, onde uma das curvilíneas dançarinas realizava performances junto a um lustroso mastro prateado e ao som de “You Can Leave Your Hat On”, de Joe Cocker.
Apesar da proposta promiscua da casa, o Caos era famoso por apresentar uma abordagem menos depravada que outras casas, seguindo o estilo de antigos cabarés, o que diferenciava seu público e atraía inclusive mulheres e casais. A casa exibia uma decoração anos trinta, possível através de móveis antigos e restaurados, provenientes do Lixo. As lindas garotas que circulavam pela casa usavam arranjos de pequenas plumas nos cabelos e longos vestidos de caimento perfeito, o que lhes acentuava as formas e garantia o glamour não encontrado em outras casas do mesmo ramo. Do lado esquerdo do palco havia até mesmo um antigo, porém muito belo, piano de mogno, tocado poucas vezes, durante apresentações de cancã.
A belíssima dançarina que na ocasião se apresentava usava um apertado espartilho preto com rendas brancas, uma cinta liga conectada as meias sete oitavos, também pretas, um sapatinho preto verniz de salto não muito alto e uma cartola na cabeça. Sua pele branca contrastava com o rubro batom em seus carnudos lábios, mas toda a beleza daquela dançarina, bem como a de cada uma das outras tantas garotas que ali ganhavam a vida, não podia nem de longe competir com a daquela que se aproximava da mesa onde Jat e Giovanni estavam sentados. Aquela que deslizava por entre as mesas como num bailado sutil, sublime, perfeito, atraindo o olhar não só dos homens que a cobiçavam, mas também das mulheres que a invejavam. Aquela cujo vai e vem dos largos quadris era Capaz de hipnotizar, obrigando os indiscretos admiradores a acompanhá-lo não só com os olhos, mas também com a cabeça e pescoço. Aquela cujos fartos, porém proporcionalmente perfeitos, seios se mostravam insinuantes, sob o decote em V de seu lustroso vestido de seda vermelha, instigando alguns a proferir vulgares elogios, que ela ignorava com altivez. Seus longos cabelos negros caíam soltos sobre suas costas nuas, permitindo a todos se maravilharem diante do movimento desprendido que realizavam aqueles volumosos e largos cachos. Suas sinuosas curvas e o tom moreno de sua pele, provavelmente herança de sua descendência latina, a diferenciavam das demais garotas com quem convivia, mas sem dúvida o que mais atraía a atenção e tornava aquela mulher tão única e misteriosa perante todas as outras era o ar de tristeza, presente permanentemente, no fundo de seus olhos cor de mel.

- Mercedes! – Exclamou Giovanni puxando a cadeira para a garota.
- Quanta gentileza, meu príncipe encantado. – Disse Mercedes, acariciando o rosto de Giovanni ao se sentar.
- Finalmente será libertada de sua torre, milady. – Respondeu Giovanni, com um brilho emocionado nos olhos ao contemplar os dela.

Jonathan apenas observava sorrindo, a troca de carícias e palavras ternas, enquanto bebia sua cerveja. Orgulhava-se e sentia-se feliz em poder ajudá-los, mas preocupava-se um pouco com a conversa que estava por vir, a conversa com aquele que já se aproximava, com seu terno extravagante, a passos curtos e em um gingado estranho e presunçoso.

- Presumo que devamos tratar de negócios agora, senhor Trust? – Indagou Castro, o dono do bordel, ao se aproximar da mesa. – Vamos ao meu escritório.
Jonathan levantou-se, e Giovanni fez menção de se levantar também, mas Jonathan o orientou a continuar onde estava com um gesto de mão.
- Pode deixar que eu assumo daqui. Você não vai querer deixar a Mercedes sozinha, vai? – Jat sorriu, dando uma piscadela para o casal, e então seguiu Castro até uma pequena porta no fundo do salão.

Adentraram uma ante-sala ampla, com dois sofás, virados um de frente para o outro, e uma tapeçaria vinho e dourada, que encobria tanto o chão quanto as paredes. No centro havia uma mesinha, onde estavam largadas algumas cartas de baralho, e sentados nos sofás estavam dois homens grandes, mal-encarados, vestindo ternos pretos e segurando submetralhadoras. Jonathan e Castro passaram pelos dois seguranças sem nada dizer e entraram juntos por outra porta, do lado oposto de onde vieram, chegando ao amplo escritório, também forrado pela tapeçaria, e onde, além de um divã, havia também uma grande mesa de madeira escura, com uma grande cadeira estofada atrás dela e uma pequena cadeira de madeira mais clara e sem estofamento a sua frente. Um dos capangas entrou atrás deles, parando a frente de Jat para revistá-lo e confirmando para o chefe, com um aceno de cabeça, que Jonathan não estava armado.

- Sente-se. Fique a vontade. – Disse Castro indicando a cadeira pobre a Jonathan. – Quer uma bebida? – Sentou-se em sua cadeira confortável e gritou apontando para o subordinado. – Você, traga um Dry Martini pra mim.
- Não obrigado. Espero que essa seja uma conversa rápida. – Respondeu Jat secamente.
    
A bebida alcoólica, principalmente destilada como Uísque ou Vodka, apesar de lícita, era considerada um artigo raro na estação, disponível apenas para os mais nobres, e comercializada a preços exorbitantes. Por esse motivo o tráfico ilegal de bebidas, contrabandeadas da Terra, tornara-se um ramo de negócios lucrativo para os interessados em explorá-lo.

- Sabe que ela é uma fonte valiosa de lucro, não sabe, senhor Trust? – Disse Castro puxando os fios das pontas de fino bigode. – E deve saber também que, apesar da qualidade, a quantidade de barris que me oferece subestima o valor de tão cobiçada prenda?
- Creio que a quantidade oferecida é mais do que o suficiente para um homem cujo negócio criminoso está em risco de extinção.
- Tem coragem de ameaçar meus negócios em minha própria casa, senhor Trust? É mesmo um militar exemplar. Muito corajoso! – E aumentando o tom de voz, perguntou. – Sabe que tenho dois capangas do lado de fora deste escritório e mesmo assim acredita que pode me intimidar?
Jat levantou-se da cadeira num salto, agarrou um velho abridor de cartas que servia de adorno a mesa e pressionou-o contra a garganta de Castro, que, pego de surpresa, não pode se esquivar, continuando sentado, acuado em sua confortável cadeira.
Nesse instante o segurança que revistara Jonathan entrou na sala.
- Sua bebida, senhor. – E ao ver Jonathan ameaçando seu chefe com o abridor de cartas, soltou a taça no chão e apontou uma pistola Beretta nove milímetros para Jonathan. – Solte a arma, agora!
- Meu amigo está lá fora me esperando. Se eu não sair vivo desta sala ele trará reforços e então será seu fim, Castro. – Respondeu Jonathan calmamente, ignorando o guarda-costas e olhando fixamente nos olhos de Castro. – Aceite os barris e liberte a garota. É sua única opção!
- Somos homens sensatos, não queremos ver uma carnificina aqui, não é senhor Trust? – Disse Castro em tom mais suave e amedrontado, ainda olhando nos olhos de Jonathan. Virou-se então para seu empregado e advertiu. – Abaixe a arma e saia. Tivemos uma desagradável demonstração da espontaneidade do senhor Trust, mas tenho certeza que esse mal-entendido não se repetirá.
Jonathan se afastou de Castro, ainda segurando o abridor de cartas.
- E então, o que será?
- Por hora devo aceitar sua proposta, senhor Trust. Mas não pense que me tem em suas mãos. O senhor não imagina por onde passam os fios de minha rede de influências. Traga-me os barris e terá a garota.

Jonathan voltou tenso e serio para a mesa, porém satisfeito com o resultado de seu primeiro acordo ilegal. Ao sentar-se respirou fundo e bebeu um longo gole do copo de cerveja que seu amigo Giovanni lhe oferecia.
- E aí Jat, como foi?
Quando Jonathan tomou fôlego para responder, Jakeline Jakarta apareceu á suas costas, massageando seus ombros.
- Nossa, quanta tensão! Você está mesmo precisando de uma massagem especial. – E deu uma piscadela para Giovanni e Mercedes, que a cumprimentaram com um aceno de cabeças.
Jonathan puxou Jakeline, pondo-a sentada em seu colo e depois lhe beijou a boca. Só então respondeu a pergunta de Giovanni.
- Conseguimos, irmão. – Ele sorriu para o amigo.
- Espera aí, conseguiram o que? – Perguntou Jakeline, tentando se situar na conversa.
- Conseguiram a minha liberdade. – Respondeu Mercedes, não podendo conter as lágrimas que já lhe escorriam pelo rosto.
- Caramba! – Alegrou-se Jakarta. – Esse é mesmo um ótimo motivo pra comemorarmos. Comemorarmos em grande estilo.
- Um brinde a liberdade. – Propôs Giovanni, com os olhos também lacrimejando.
Os quatro levantaram seus copos, brindaram e beberam. Jonathan então virou-e para Castro, que estava um pouco distante, próximo ao bar, e gritou:
- Castro, queremos dois quartos. – E complementou provocando-o. – Na conta da casa.
Castro apertou os olhos como se pudesse fulminar Jonathan com o olhar, sentiu a fúria percorrer todo seu corpo, mas assentiu com um demorado aceno de cabeça.

...

  Eram aproximadamente quatro da manhã quando Jonathan chegou, ainda sob o efeito do álcool, a sua suíte no pavimento militar. Ao entrar percebeu que as luzes ainda estavam acesas, o que não parecia normal tendo em vista que Helena, àquela hora, já deveria estar dormindo. A tensão começou a tomar-lhe, avivando sua mente, correu então para o dormitório e deparou-se com uma cena que o fez recuperar a sobriedade imediatamente.
    Helena estava sentada sobre a cama com as pernas encolhidas, sua cabeça se apoiava sobre os joelhos e suas mãos cobriam seu rosto, a sua volta havia alguns papéis amassados, exames. Ela chorava incontrolavelmente.

  - O que houve, meu amor? O que fizeram com você? – Desesperou-se Jonathan correndo até ela, sentando-se a seu lado e abraçando-a.
Helena levantou a cabeça e olhando profundamente nos olhos de Jonathan conseguiu, em meio aos soluços, dizer:
- Estou grávida.