quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 2 – O Fim


“Temperatura do planeta aumenta 0,7°C no último século. O aumento pode chegar a 5,8°C em mais 100 anos.”

“Nível global de Dióxido de Carbono chega a 384,9 partes por milhão na atmosfera.”

“Ataque terrorista derruba o principal centro comercial do mundo.”

“Mais de 30 mil mortos no Iraque.”

“Bebê é abandonado em lata de lixo.”

“Ártico poderá desaparecer em 20 ou 30 anos.”

“Adolescente mata os próprios pais.”

“Com o avanço tecnológico, a produção de lixo eletrônico pode aumentar 500% em 10 anos.”

“240 mil toneladas de lixo, por dia, são produzidas no país.”

“Crianças morrem de fome em país subdesenvolvido.”

“Pedofilia envergonha religião.”

“Tsunami atinge a Indonésia em mais 11 países e mata aproximadamente 220 mil pessoas.”

“Desastres naturais ou consequências dos nossos atos?”

“Tropas invadem floresta tropical. – Reserva indígena é devastada.”

“Armas de destruição em massa – Nossos soldados voltam vivos pra casa.”

“Armas de destruição em massa – Civis são os mais afetados... Mulheres e crianças não são poupadas.”

“Menor de idade é violentada e perde a irmã nas mãos de estuprador.”

“Casal é torturado e assassinado por ex-namorado ciumento.”

“200 mil mortos em terremoto no Haiti.”

“Garota é encontrada esquartejada próximo a capital.”

“Venda de armas de fogo aumenta 70%.”

“Bomba a Vácuo explode matando o maior número de pessoas da história.”

“Terceira Guerra Mundial – A Luta Por Água.”


O ser humano é um vírus, que infecta o planeta, mata sua própria espécie e destrói tudo ao seu redor.

A raça humana, em sua infinita acomodação, não é capaz de agir em relação a algo a não ser que tenha consciência de que isso a prejudica diretamente. A falta de percepção da maioria das pessoas e a ignorância dos povos levaram-nos ao descaso e descrença em relação ao futuro certo que é o fim dos recursos naturais do planeta. Sendo assim, mesmo diante dessa ameaça crescente, o ser humano permanece impassível, parecendo não se importar, até que seja tarde demais.
Escrevo esta carta aos que, de fato, exercem influência sobre o planeta para que, talvez, este futuro possa ser evitado.

A devastação gradativa do planeta tomou proporções inimagináveis e, apesar das inúmeras tentativas de organizações naturalistas, movimentos pacificadores, união de governos, pessoas com boas intenções e até mesmo hipócritas em tentativas gananciosas de atrair aliados, que, por acaso, acabaram fazendo o bem, não foi possível salvar o meio ambiente.
Por maiores que fossem os esforços pra conter a devastação, eram incontavelmente mais numerosas as oportunidades de destruir.
Qualquer um podia ter um papel de bala nas mãos e a oportunidade de jogá-lo no chão, tendo para si que não havia melhor destino para este naquele momento. Qualquer um podia ir de carro à padaria da rua de baixo e ter a oportunidade de poluir ainda mais o ar, tendo para si que o carro tornaria a viagem menos cansativa e mais confortável. Qualquer um poderia imprimir uma página por folha e ter a oportunidade de contribuir com o desmatamento, tendo para si que seu trabalho seria entregue o mais vistoso e organizado possível.
Por maiores que fossem os esforços pra conter a devastação, eram incontavelmente mais numerosas as oportunidades de destruir.

A situação gerou conflitos. As nações não tinham mais alternativas sustentáveis, e guerras foram travadas por recursos naturais, antes abundantes.
Não havia mais solução, qualquer esforço que fosse realizado só poderia retardar o inevitável... O planeta estava acabado... A humanidade teria de abandoná-lo.

“A Quarta Guerra Mundial será travada a paus e pedras”.
Quem um dia disse esta frase não fez idéia da premonição que fazia a respeito do futuro da humanidade. Após a Terceira Guerra Mundial a destruição era tamanha que o planeta não passava de um depósito fétido de lixo. As nações acordaram a internacionalização dos poucos recursos naturais restantes e alguns países que um dia tiveram orgulho de possuir enormes bacias hidrográficas e ricas reservas florestais passaram a não exercer mais a soberania sobre estes territórios.
A humanidade sabia que era só uma questão de tempo até que esses escassos recursos também chegassem ao fim, portanto era necessário que se propusesse uma alternativa o mais rápido possível, e esta surgiu em uma assembléia das Nações Unidas, onde os mais influentes governantes conseguiram vender a idéia de que uma antiga união entre países poderia ser a solução. Uma união iniciada em 1998, com a construção do que até aquele momento era considerado o maior laboratório de desenvolvimento científico que já existiu. Este laboratório se encontrava em uma órbita de 350 a 460 quilômetros da terra, era conhecido como ISS – International Space Station, a estação espacial internacional. 

A proposta era ampliar e desenvolver a estação até que esta oferecesse condições perfeitas para que uma civilização pudesse se instalar e viver harmonicamente, e assim prosseguir. Mas o egoísmo humano, mesmo percebendo seu planeta a beira do colapso, não procurou poupar e nem mesmo utilizar conscientemente os poucos recursos ainda restantes, muito pelo contrário, procurou esgotá-los em escala exponencial, não só para aprimorar a primeira estação como também para construir duas novas estações, com a audaciosa e doce ilusão de abrigar e salvar toda a raça humana.
As três estações, chamadas a princípio de ISS-1, ISS-2 e ISS-3, foram postas em órbita, porém, como já era esperado por aqueles realmente influentes no projeto, não foram capazes de suportar nem mesmo um terço da população total da terra, e assim iniciou-se a meticulosa seleção dos que mereciam ser salvos. Uma seleção cujo critério de merecimento considerado foi única e exclusivamente o financeiro.
Em janeiro do ano 2199 iniciou-se a ocupação das estações, e os países mais influentes na política e economia mundial tiveram prioridade. Assim os mais afortunados representantes destes países foram ocupando respectivamente a ISS-1, ISS-2 e ISS-3, tomando seus lugares junto à salvação.

A idéia era que as estações mantivessem um curso lento e despreocupado em busca de outros sistemas ou planetas que oferecessem condições de vida semelhantes as da Terra, para que os humanos pudessem recomeçar suas vidas. Enquanto as estações mantinham seus cursos seriam enviados cruzadores Sigma, naves exploratórias tripuladas, capazes de realizar longas expedições, com o objetivo de varrer o espaço com maior velocidade em busca deste convidativo habitat.

Menos de um mês após a ocupação das estações, durante uma das missões de abastecimento de suprimentos para o início da viagem, o ônibus espacial Columbia 1000 teve uma pane em seus propulsores durante a acoplagem, colidindo fatalmente contra a estação ISS-1. A explosão da ISS-1 desdobrou-se como um castigo divino sobre aqueles que antes foram influentes na condenação do resto da humanidade, e abalou consideravelmente o ânimo e fé dos habitantes das duas outras estações. Sentimentos esses, que se perderiam facilmente no tempo.
Em homenagem aos que se foram no acidente do Columbia 1000, as estações restantes foram renomeadas a partir do número de série do ônibus e de uma letra grega que seguia o padrão já empregado pela frota de naves, passando então a se chamar estações Alfa 2000 e Alfa 3000. Posteriormente, por conveniência ou dinamicidade de diálogo, passamos a ignorar a letra grega e chamá-las apenas de estações 2000 e 3000.

Exatos trinta anos depois, apesar de não ter havido acidente sequer, perdemos também a 3000. Por motivos até então desconhecidos, sua identificação desapareceu de nossos radares, e toda tentativa de comunicação tornou-se inútil.

Estávamos sozinhos então... Sozinhos em busca de uma causa perdida... 166 anos após a partida, não encontramos um novo sistema solar, não encontramos nosso tão desejado ecossistema, não encontramos nada igual ao que a Terra um dia nos ofereceu, nada igual ao que nós destruímos.
Não há vida em outros planetas... Não há vida além de nossa medíocre existência.                                                                                                
                                                                                                             


Jonathan A. Trust
20/06/1994[1]  

 
















[1]Em 11 de dezembro de 1997 foi aberto pra assinaturas o protocolo de Quioto, que acabou por entrar em vigor em 16 de fevereiro de 2005, após 55% dos países, que juntos, produzem 55% das emissões de gases tóxicos, o ratificarem.


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