quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 4 – O Caos


- Charlie, Charlie Romeo solicitando autorização para atracar.
- Permissão concedida. Bem vindo à Estação 2000, Creedence.

Ao desembarcarem na doca principal, foram interrompidos por um jovem e miúdo cadete que prestava continência em frente a Jonathan, Helena e Giovanni.
- Descansar, Cadete... – Jonathan observou a identificação presa ao peito do jovem. – Meyer.
- O senhor é o Capitão Jonathan Trust, senhor? – Perguntou o rapaz.
- Sim, sou eu mesmo. – Respondeu Jat, olhando para o rapaz sem entender o porquê de sua presença ali.
- Tenho um convite para o senhor, senhor. – E o rapaz entregou a Jonathan uma folha branca com inscrições douradas.
Jonathan leu o convite, que dizia em letras garrafais:
“Honradamente Convidamos o senhor Capitão Jonathan A. Trust e sua tripulação para a cerimônia de comemoração da aposentadoria do nosso mais estimado militar, o excelentíssimo General McCartney.”
 Logo abaixo, em letras menores e menos enfeitadas, o convite também dizia:
 “Aproveitamos a oportunidade para anunciarmos a honrosa promoção de nossos oficias.”
E em seguida vinha uma pequena lista de nomes.
Jonathan virou-se para Helena e Giovanni, fazendo uma careta de descontentamento, e disse:
- Vamos ter de tirar a velha farda do armário.
Os dois fizeram a mesma careta e Giovanni respondeu:
- Hum... Imagina só o cheiro de mofo.

...

Uma comemoração tão importante para os militares não poderia ser realizada em qualquer lugar, uma locação especial deveria ser disponibilizada, e só havia um lugar, em toda a estação, capaz de honrar tal requinte. Simplesmente o deck mais belo de toda a estação. Um jardim em proporções titânicas, que além de cultivar a enorme diversidade da flora da Terra, também abrigava muitas das espécies de sua fauna, algumas no zoológico e aquário da estação e outras soltas pelo bosque. Os pássaros cantavam, as flores desabrochavam, e uma cúpula translúcida, cobrindo todo o jardim, proporcionava a climatização do ambiente e a chamada sintetização solar, que garantia a iluminação, permitia às plantas realizarem fotossíntese e aos animais viverem confortavelmente. Situado no ponto mais alto da estação, quando a iluminação do jardim era cessada, a transparência límpida da cúpula, permitia ás pessoas admirarem as estrelas no vasto espaço fora da estação. Neste jardim havia também um enorme lago onde se podia praticar pesca, esportes aquáticos e de onde surgiam fontes de águas dançantes quando escurecia. Havia um campo de golfe, uma pista de patinação no gelo, que permanecia ativa durante todo o ano, e, em seu centro, o mais luxuoso salão de bailes da estação.
As paredes laterais do salão eram compostas por grandes janelas de vidro que iam do chão ao teto, onde suas brancas armações se encerravam em arcos. O alto prédio tinha a forma de uma cruz, sendo que o telhado das extensões de seus braços era triangular como nos antigos templos gregos, e no ponto onde se cruzavam se erguia, ainda mais alta, uma abobada central, tudo construído em vidro, o que lhe dava a aparência de uma grande estufa. Havia quatro enormes portas situadas uma a cada extremidade da cruz, e em cada uma das arestas foi erguida uma coluna grega com flamingos e querubins esculpidos nos capitéis. Dentro do salão havia um grande palco central, redondo e com um lustroso chão de madeira avermelhada, de onde uma orquestra executava uma doce e harmônica música clássica. Ao seu redor, dentro do perímetro da grande abobada, ficava a pista de baile, e espalhadas pelos braços da cruz, as mesas redondas, enfeitadas com lindas toalhas de seda branca, que escorriam ao seu redor até se encontrarem e contrastarem com o lustroso chão de mármore preto, e sobre as quais estava disposto, além de toda a sorte de talheres e louças de jantar, um singelo, porém lindo, arranjo de rosas vermelhas.
Esse glamoroso jardim foi batizado de Éden.

- Meus parabéns General. Tenho certeza que sua atuação como militar deixou um legado inestimável a todos nós.
- Muito obrigado, filho. Você sabe a consideração que tenho por todos vocês. Acompanhei a formação de vocês três e principalmente a sua, Jonathan, eu o vi crescer. Como está seu pai?
- Ainda não tive tempo de visitá-lo. Chegamos do Lixo hoje pela manhã. Mas creio que deve estar melhor do que eu mesmo.
- Já faz dez anos, não é? Você construiu uma carreira brilhante. Um verdadeiro herói.
- Somos todos heróis, senhor. Sem minha tripulação eu não teria sobrevivido nem a primeira viagem.
- Com certeza você tem os melhores companheiros que poderia ter. O melhor amigo e... Quem diria? Vocês até se casaram. Acredito nas pessoas, rapaz. Sempre soube que fariam a diferença.
Enquanto conversavam, Jonathan percebeu a aproximação de alguém com quem ele realmente preferia não ter contato.
- Acho que devo ir agora General. Prefiro evitar certos inconvenientes. – E Jonathan levantou os olhos na direção da pessoa que se aproximava.
O General McCartney, um homem muito sensato, entendeu logo o impasse e tratou de encerrar uma conversa, que poderia ter durado horas.
- Eu é que devo ir, meu jovem, ainda tenho muitos abraços para dar hoje, e depois, finalmente terei o descanso merecido. – Antes de virar e afastar-se do grupo o General voltou-se para a tripulação da Creedence e aconselhou-lhes. – Aproveitem a festa, filhos.
Jonathan virou-se para sua tripulação, fazendo-os entender que deviam sair dali o mais rápido possível, quando de repente alguém o abordou pelas costas.
- Ora, ora, se não é o Capitão Jonathan Trust. Ou será que devo chamá-lo de Jat?
- Só meus amigos me chamam assim, Stolz. – Respondeu Jonathan, virando-se com um sorrisinho sarcástico.
Adolf Stolz não se deixou abater pela indireta, pelo contrário, continuou seu soberbo discurso:
- Você deve estar ciente de que esta também é minha festa, não é? Ficou sabendo que fui promovido a Major? Terá de voltar a bater continência pra mim, Trust.
- Ha, ha. Nunca bati continência pra você, Stolz. Nem mesmo quando era cadete.
Stolz sentia a revolta se apoderar de seu ser a cada palavra do insolente Jonathan Trust.
- Também estou assumindo o comando da Sigma. Uma nave de verdade, não aquela lata velha que você pilota. Como é mesmo o nome dela? Creedence, não é?
- Meus parabéns Stolz. Finalmente assumirá sua própria nave e poderá parar de puxar, tanto, o saco dos seus superiores. Ao contrário de você, eu nunca tive que lamber as bolas de ninguém. Lata velha ou não, sempre tive minha própria nave.
Ao ouvir essas palavras Stolz foi totalmente dominado pela raiva. Sentia seu orgulho ferido e a inveja que sentia o traiu. Respirou fundo, elevou o tom de voz e agrediu:
- Uma nave que voa pro Lixo. É lá que começou e é lá que terminará, Trust. Terminará como o inválido do seu pai e se tiver o mínimo de dignidade, se deixará lançar no espaço, como ele deveria ter sido há muito tempo.
Jonathan poderia passar o resto do dia devolvendo a Stolz sua própria arrogância, e no fim acharia até divertido, mas jamais aceitaria uma ofensa a seu pai. Cerrou o punho e sem pestanejar deu lhe um direto de direita bem no meio do nariz.
- Você vai pra cadeia, Trust. – Gritou Adolf Stolz ao se levantar do chão e se por de joelhos, enquanto segurava o nariz quebrado, que jorrava sangue. 
Giovanni e Helena seguraram Jonathan, sabendo que a agressão a um oficial superior poderia realmente complicar sua vida.
- Vamos embora, Jat. Deixa esse fresco pra lá, vamos pra uma festa de verdade. Você vem Helena? – Perguntou Giovanni, enquanto segurava Jonathan e tentava acalmá-lo. Precisava tirá-lo dali rápido, antes que o tumulto começasse.
- Esfriem a cabeça e divirtam-se rapazes. Não estou me sentindo muito bem, acho que vou dar uma passada no doutor Peres e depois ir pra casa descansar. 

...

No início todos eram iguais.
Todas as famílias tinham suas próprias cabines, espaçosas o suficiente para garantir-lhes conforto e dignidade, porém não tão luxuosas quanto os nobres, que inicialmente habitaram a estação, estavam acostumados. Todos trabalhariam em prol da estação, garantindo o progresso das missões e a prosperidade de seus habitantes.
Mas o regime igualitário ideal, como previsto por Carl Marx, nunca existiu realmente na Terra, quem dirá na estação 2000. Como se poderia apostar no sucesso de um regime igualitário, quando o povo da estação e seus principais representantes eram gananciosos capitalistas.
A princípio os habitantes das estações foram divididos entre civis e militares, mas com o passar do tempo, os imperfeitos seres humanos começaram a mostrar e enfatizar os defeitos relativos à sua verdadeira natureza. O trabalho que deveria ser realizado por todos em uma justa distribuição de tarefas logo foi sendo deixado de lado pelos mais preguiçosos, sobrecarregando os mais dedicados e acarretando no seu descontentamento com o regime e a administração da estação, o que veio a gerar reivindicações e mobilizações tumultuadas, que só podiam ser contidas através da imposição da força militar.
Os mais arrogantes habitantes da estação também não eram capazes de aceitar a situação de igualdade com que todos eram tratados. Na Terra estes tinham inúmeros privilégios, garantidos por suas posses, mas na estação todos estavam à mercê dos mesmos direitos, obrigações, das mesmas leis, da mesma carga de trabalho e do mesmo conforto. Não podiam aceitar a igualdade como algo natural tendo vivido por diversas gerações como seres superiores, então alianças começaram a se formar entre as gananciosas famílias e também entre os corruptíveis militares e administradores da estação. A união entre famílias aumentava o poder e influência destes nas decisões tomadas em prol do todo da estação, e o oportuno descaso por parte da administração permitia que este poder crescesse cada vez mais, levando estes a se distinguirem dos demais, não restando alternativa senão instituir aquilo que poderia enfim diferenciar a todos, corromper aqueles que ainda acreditavam na ética e mantinham sua moral, e consequentemente derrubar para sempre o regime igualitário que os governava. Foi instituída a moeda de troca da estação, o dinheiro, os Solares.
Com essa nova forma de diferenciação, os mais aproveitadores e influentes podiam não só comprar a força de trabalho dos menos poderosos como também suas posses, antes lhes proporcionadas em igualdade, criando na estação um novo ramo comercial e profissões que já não beneficiavam mais o todo e a prosperidade da missão.
O capitalismo dominou a estação, e antigas cabines de passageiros foram negociadas em troca de privilégios e dinheiro, vindo a se tornar estabelecimentos comerciais de todos os tipos. Curiosamente estes estabelecimentos cresceram e se firmaram principalmente nos pavimentos inferiores da estação, o que os distanciava dos pavimentos militares e administrativos, que se situavam nos andares mais altos e próximos do mais alto dos pavimentos, o pavimento onde a alta classe da estação fixou sua luxuosa morada, o pavimento adjacente àquele que era o mais glamoroso da estação, o Éden.
Quanto mais se descia na Estação 2000, mais aumentava a pobreza, a sujeira, as enfermidades e o perigo. Em meio aos sujos corredores era possível ver pessoas maltrapilhas esparramadas pelo chão, as antigas cabines de passageiros deram espaço para bares e bordéis, vazamentos tornavam o ambiente úmido e mal cheiroso, e os arranjos feitos na rede elétrica tonaram os pavimentos inferiores escuros e soturnos. Era sempre noite no submundo da Estação 2000, iluminada apenas pelo neon das diversas boates.
Devido ao grande letreiro luminoso de um de seus mais famosos bordéis, esse pútrido ambiente foi chamado de Caos.
    
- Você tem certeza disso, Jonathan? – Questionou Rizzo, receoso. – Nunca fizemos isso antes, não quero que se ferrem por minha causa.
- Relaxa, Giovannito, sei muito bem o que estou fazendo e faço porque quero. – Respondeu Jat, encorajando o amigo e bebendo um gole de sua cerveja. Giovannito era a forma como a avó de Giovanni o chamava quando criança. – Pense que em breve ela estará com você e poderá finalmente levá-la pra casa.
- Ela vale o esforço, Jat. Não é qualquer uma. – Completou Giovanni buscando justificar o que estavam por fazer. – Ela não teve escolha.

Conversavam à mesa do maior e mais famoso cabaré do Caos, aquele que lhe deu o nome, o próprio Caos. Uma boate requintada, frequentada principalmente por pessoas da alta sociedade da estação e militares buscando o alívio do estresse cotidiano. A sua frente havia um pequeno palco com fundo espelhado, onde uma das curvilíneas dançarinas realizava performances junto a um lustroso mastro prateado e ao som de “You Can Leave Your Hat On”, de Joe Cocker.
Apesar da proposta promiscua da casa, o Caos era famoso por apresentar uma abordagem menos depravada que outras casas, seguindo o estilo de antigos cabarés, o que diferenciava seu público e atraía inclusive mulheres e casais. A casa exibia uma decoração anos trinta, possível através de móveis antigos e restaurados, provenientes do Lixo. As lindas garotas que circulavam pela casa usavam arranjos de pequenas plumas nos cabelos e longos vestidos de caimento perfeito, o que lhes acentuava as formas e garantia o glamour não encontrado em outras casas do mesmo ramo. Do lado esquerdo do palco havia até mesmo um antigo, porém muito belo, piano de mogno, tocado poucas vezes, durante apresentações de cancã.
A belíssima dançarina que na ocasião se apresentava usava um apertado espartilho preto com rendas brancas, uma cinta liga conectada as meias sete oitavos, também pretas, um sapatinho preto verniz de salto não muito alto e uma cartola na cabeça. Sua pele branca contrastava com o rubro batom em seus carnudos lábios, mas toda a beleza daquela dançarina, bem como a de cada uma das outras tantas garotas que ali ganhavam a vida, não podia nem de longe competir com a daquela que se aproximava da mesa onde Jat e Giovanni estavam sentados. Aquela que deslizava por entre as mesas como num bailado sutil, sublime, perfeito, atraindo o olhar não só dos homens que a cobiçavam, mas também das mulheres que a invejavam. Aquela cujo vai e vem dos largos quadris era Capaz de hipnotizar, obrigando os indiscretos admiradores a acompanhá-lo não só com os olhos, mas também com a cabeça e pescoço. Aquela cujos fartos, porém proporcionalmente perfeitos, seios se mostravam insinuantes, sob o decote em V de seu lustroso vestido de seda vermelha, instigando alguns a proferir vulgares elogios, que ela ignorava com altivez. Seus longos cabelos negros caíam soltos sobre suas costas nuas, permitindo a todos se maravilharem diante do movimento desprendido que realizavam aqueles volumosos e largos cachos. Suas sinuosas curvas e o tom moreno de sua pele, provavelmente herança de sua descendência latina, a diferenciavam das demais garotas com quem convivia, mas sem dúvida o que mais atraía a atenção e tornava aquela mulher tão única e misteriosa perante todas as outras era o ar de tristeza, presente permanentemente, no fundo de seus olhos cor de mel.

- Mercedes! – Exclamou Giovanni puxando a cadeira para a garota.
- Quanta gentileza, meu príncipe encantado. – Disse Mercedes, acariciando o rosto de Giovanni ao se sentar.
- Finalmente será libertada de sua torre, milady. – Respondeu Giovanni, com um brilho emocionado nos olhos ao contemplar os dela.

Jonathan apenas observava sorrindo, a troca de carícias e palavras ternas, enquanto bebia sua cerveja. Orgulhava-se e sentia-se feliz em poder ajudá-los, mas preocupava-se um pouco com a conversa que estava por vir, a conversa com aquele que já se aproximava, com seu terno extravagante, a passos curtos e em um gingado estranho e presunçoso.

- Presumo que devamos tratar de negócios agora, senhor Trust? – Indagou Castro, o dono do bordel, ao se aproximar da mesa. – Vamos ao meu escritório.
Jonathan levantou-se, e Giovanni fez menção de se levantar também, mas Jonathan o orientou a continuar onde estava com um gesto de mão.
- Pode deixar que eu assumo daqui. Você não vai querer deixar a Mercedes sozinha, vai? – Jat sorriu, dando uma piscadela para o casal, e então seguiu Castro até uma pequena porta no fundo do salão.

Adentraram uma ante-sala ampla, com dois sofás, virados um de frente para o outro, e uma tapeçaria vinho e dourada, que encobria tanto o chão quanto as paredes. No centro havia uma mesinha, onde estavam largadas algumas cartas de baralho, e sentados nos sofás estavam dois homens grandes, mal-encarados, vestindo ternos pretos e segurando submetralhadoras. Jonathan e Castro passaram pelos dois seguranças sem nada dizer e entraram juntos por outra porta, do lado oposto de onde vieram, chegando ao amplo escritório, também forrado pela tapeçaria, e onde, além de um divã, havia também uma grande mesa de madeira escura, com uma grande cadeira estofada atrás dela e uma pequena cadeira de madeira mais clara e sem estofamento a sua frente. Um dos capangas entrou atrás deles, parando a frente de Jat para revistá-lo e confirmando para o chefe, com um aceno de cabeça, que Jonathan não estava armado.

- Sente-se. Fique a vontade. – Disse Castro indicando a cadeira pobre a Jonathan. – Quer uma bebida? – Sentou-se em sua cadeira confortável e gritou apontando para o subordinado. – Você, traga um Dry Martini pra mim.
- Não obrigado. Espero que essa seja uma conversa rápida. – Respondeu Jat secamente.
    
A bebida alcoólica, principalmente destilada como Uísque ou Vodka, apesar de lícita, era considerada um artigo raro na estação, disponível apenas para os mais nobres, e comercializada a preços exorbitantes. Por esse motivo o tráfico ilegal de bebidas, contrabandeadas da Terra, tornara-se um ramo de negócios lucrativo para os interessados em explorá-lo.

- Sabe que ela é uma fonte valiosa de lucro, não sabe, senhor Trust? – Disse Castro puxando os fios das pontas de fino bigode. – E deve saber também que, apesar da qualidade, a quantidade de barris que me oferece subestima o valor de tão cobiçada prenda?
- Creio que a quantidade oferecida é mais do que o suficiente para um homem cujo negócio criminoso está em risco de extinção.
- Tem coragem de ameaçar meus negócios em minha própria casa, senhor Trust? É mesmo um militar exemplar. Muito corajoso! – E aumentando o tom de voz, perguntou. – Sabe que tenho dois capangas do lado de fora deste escritório e mesmo assim acredita que pode me intimidar?
Jat levantou-se da cadeira num salto, agarrou um velho abridor de cartas que servia de adorno a mesa e pressionou-o contra a garganta de Castro, que, pego de surpresa, não pode se esquivar, continuando sentado, acuado em sua confortável cadeira.
Nesse instante o segurança que revistara Jonathan entrou na sala.
- Sua bebida, senhor. – E ao ver Jonathan ameaçando seu chefe com o abridor de cartas, soltou a taça no chão e apontou uma pistola Beretta nove milímetros para Jonathan. – Solte a arma, agora!
- Meu amigo está lá fora me esperando. Se eu não sair vivo desta sala ele trará reforços e então será seu fim, Castro. – Respondeu Jonathan calmamente, ignorando o guarda-costas e olhando fixamente nos olhos de Castro. – Aceite os barris e liberte a garota. É sua única opção!
- Somos homens sensatos, não queremos ver uma carnificina aqui, não é senhor Trust? – Disse Castro em tom mais suave e amedrontado, ainda olhando nos olhos de Jonathan. Virou-se então para seu empregado e advertiu. – Abaixe a arma e saia. Tivemos uma desagradável demonstração da espontaneidade do senhor Trust, mas tenho certeza que esse mal-entendido não se repetirá.
Jonathan se afastou de Castro, ainda segurando o abridor de cartas.
- E então, o que será?
- Por hora devo aceitar sua proposta, senhor Trust. Mas não pense que me tem em suas mãos. O senhor não imagina por onde passam os fios de minha rede de influências. Traga-me os barris e terá a garota.

Jonathan voltou tenso e serio para a mesa, porém satisfeito com o resultado de seu primeiro acordo ilegal. Ao sentar-se respirou fundo e bebeu um longo gole do copo de cerveja que seu amigo Giovanni lhe oferecia.
- E aí Jat, como foi?
Quando Jonathan tomou fôlego para responder, Jakeline Jakarta apareceu á suas costas, massageando seus ombros.
- Nossa, quanta tensão! Você está mesmo precisando de uma massagem especial. – E deu uma piscadela para Giovanni e Mercedes, que a cumprimentaram com um aceno de cabeças.
Jonathan puxou Jakeline, pondo-a sentada em seu colo e depois lhe beijou a boca. Só então respondeu a pergunta de Giovanni.
- Conseguimos, irmão. – Ele sorriu para o amigo.
- Espera aí, conseguiram o que? – Perguntou Jakeline, tentando se situar na conversa.
- Conseguiram a minha liberdade. – Respondeu Mercedes, não podendo conter as lágrimas que já lhe escorriam pelo rosto.
- Caramba! – Alegrou-se Jakarta. – Esse é mesmo um ótimo motivo pra comemorarmos. Comemorarmos em grande estilo.
- Um brinde a liberdade. – Propôs Giovanni, com os olhos também lacrimejando.
Os quatro levantaram seus copos, brindaram e beberam. Jonathan então virou-e para Castro, que estava um pouco distante, próximo ao bar, e gritou:
- Castro, queremos dois quartos. – E complementou provocando-o. – Na conta da casa.
Castro apertou os olhos como se pudesse fulminar Jonathan com o olhar, sentiu a fúria percorrer todo seu corpo, mas assentiu com um demorado aceno de cabeça.

...

  Eram aproximadamente quatro da manhã quando Jonathan chegou, ainda sob o efeito do álcool, a sua suíte no pavimento militar. Ao entrar percebeu que as luzes ainda estavam acesas, o que não parecia normal tendo em vista que Helena, àquela hora, já deveria estar dormindo. A tensão começou a tomar-lhe, avivando sua mente, correu então para o dormitório e deparou-se com uma cena que o fez recuperar a sobriedade imediatamente.
    Helena estava sentada sobre a cama com as pernas encolhidas, sua cabeça se apoiava sobre os joelhos e suas mãos cobriam seu rosto, a sua volta havia alguns papéis amassados, exames. Ela chorava incontrolavelmente.

  - O que houve, meu amor? O que fizeram com você? – Desesperou-se Jonathan correndo até ela, sentando-se a seu lado e abraçando-a.
Helena levantou a cabeça e olhando profundamente nos olhos de Jonathan conseguiu, em meio aos soluços, dizer:
- Estou grávida.


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