“I never wanna die”, era o verso que
se ouvia em alto volume a bordo da nave, mas na primeira citação do refrão
“Born to be wild” o som parou repentinamente deixando pra trás apenas um chiado
alto.
- Estamos adentrando a atmosfera da
Terra. – Disse Giovanni, enquanto desligava o som e apertava uma série de
outros botões no painel de controle da nave. – Ativando controle manual e
iniciando procedimento de pouso. Apertem os cintos, crianças, e não tentem
fazer isso em casa.
A nave, um cargueiro Kappa, foi
projetada por Russos e possuía capacidade de carga equivalente ao antigo
Antonov An-225 Mriya. Tinha forma de disco e carcaça robusta, de forma que
pudesse enfrentar condições adversas tanto no espaço, como em campos de
asteróides, quanto em superfícies acidentadas de altas intempéries, como na
Terra. Podia ser confortavelmente tripulada por até 10 pessoas, porém as
missões eram geralmente formadas por apenas três, um comandante, um piloto e um
cientista.
Ao romper a barreira atmosférica da
Terra, a nave incandesceu tornando-se uma grande bola de fogo, que ao se
dissipar revelou a resistente e chamuscada fuselagem onde, na parte frontal da
nave, estavam gravadas as letras C-CR e logo abaixo, em letras menores, a
inscrição “Creedence Clearwater Revival”.
Os seis propulsores, localizados na parte
inferior do disco e divididos três a três nas laterais de forma longitudinal,
baixaram-se de forma que apontassem diretamente para ao solo, garantindo uma
descida lenta e um pouso suave.
...
As estações utilizavam material
radioativo como principal fonte de energia, além de possuir um complexo sistema
de transformação e reaproveitamento da matéria orgânica, usada na produção de
combustível alternativo, geração de energia e até mesmo na sintetização de
alimentos. Enfim, eram capazes de garantir sua subsistência e sustentar a
continuidade da missão. Porém, o ciclo de renovação era lento e nem toda a
matéria consumida pela estação podia ser reposta em tempo hábil, por isso, além
dos Sigmas, outro tipo de expedição era necessária.
Periodicamente eram enviados, à Terra,
os cargueiros Kappa, com o objetivo de extrair todo tipo de material orgânico
ou radioativo que pudesse ser encontrado no planeta. Uma missão simples,
partindo do princípio que toda superfície do planeta estava coberta de matéria
orgânica, mesmo que em
decomposição. No entanto, uma missão pouco desejada pelos militares
das estações devido aos riscos existentes na exposição à atmosfera da Terra e
seu ambiente hostil, além de ser uma viagem muito longa, durando aproximadamente
seis meses a cada expedição, tempo qual aumentava cada dia mais, à medida que a
estação se distanciava do planeta.
Buscando minimizar esse tempo foi
construído o moderno sistema de tele-transporte chamado de Check Point, que
visava à liberação de um mecanismo de tele-transporte no espaço a cada vez que
a estação atingisse a distância limite para a comunicação com o último Check
Point posicionado, as naves deveriam viajar até o Check Point mais próximo da
estação e então serem impulsionadas através de cada um dos pontos até atingir o
ponto mais próximo da Terra, ponto este que estava posicionado a uma distância
de aproximadamente dois meses e meio do planeta. O sistema de Check Points também
era muito útil nas expedições Sigma e permitiam às naves serem transportadas de
um ponto ao outro do universo em velocidade equiparada à velocidade da luz. Sendo
assim, as distâncias mais longas eram percorridas em minutos, enquanto que as mais
curtas e até mesmo a própria missão exigiam habilidade e coragem dos seus
executores. Por esses motivos, ao contrario dos Sigmas que só podiam ser
comandados por Capitães e Majores, Tenentes recém formados eram usualmente
indicados para comandar os cargueiros Kappa.
Essas longas, indesejadas e perigosas
missões eram vulgarmente conhecidas entre os militares como “O Lixo”.
...
A nave pousara em uma planície de solo
árido, apesar de próxima a uma antiga represa, que outrora talvez tenha sido
límpida e cristalina, mas agora apresentava uma superfície turva e pantanosa,
de um liquido notavelmente viscoso e tóxico. Baixou então a rampa de acesso e
nela foi descendo Jonathan Trust. Um Jonathan dez anos mais velho, que manteve
seu corpo forte, porém deixou pra trás o visual disciplinado da academia. Seus
cabelos, já não tão curtos exibiam o volume de um cabelo levemente cacheado. Trocou
a alinhada farda azul marinho, usada na época da academia, por uma camiseta
preta sem mangas e calças largas de cor cinza, geralmente usadas pelos
mecânicos da frota. Costumava usar também um cinto preto de fivela prateada e
um coldre axial de couro marrom, que mantinha seu revólver Smith & Wesson
500 Magnum, do lado esquerdo de seu tórax.
Jonathan descia a rampa a passos
firmes olhando para o horizonte a sua frente como se procurasse por algo. Usava
uma mascara acrílica transparente, ligada por um tubo a um antigo cilindro de
oxigênio, preso a uma surrada mochila verde camuflada à suas costas, e
carregava um antigo rifle AK-47 com coronha de madeira.
Devido à rápida evolução tecnológica
no início do século, ao foco das entidades militares no desenvolvimento de
armas de destruição em massa e posteriormente ao aperfeiçoamento da viagem
espacial e armamento especializado para combate no espaço, o desenvolvimento
das armas de combate corpo a corpo foi deixado de lado pelas autoridades,
relegando as infantarias os antigos arsenais já existentes. Sendo assim, as
naves da estação possuíam os mais modernos dispositivos bélicos e os mais
precisos e destrutivos canhões laser, mas para os soldados em solo restaram
apenas antigas armas de fogo baseadas em projéteis.
Atrás de Jat vinha descendo outra
pessoa, que ao se aproximar dele passou os braços em torno de seu pescoço e
simulou, em um encontro de máscaras, um beijo em seu rosto. Era Helena Dias, com
quem o tempo havia sido generoso. Sua aparência pouco havia mudado, mantendo
sua jovialidade e também a silhueta atlética dos tempos da academia.
Logicamente agora mais experiente, era merecidamente aclamada no meio
científico.
- Vamos parando com a putaria que tem
criança chegando na sala. – Gritou Giovanni Rizzo, que agora descia a rampa. Sua
aparência também não mudara tanto, aparentava logicamente ser mais maduro, mas
não perdeu seu senso de humor. Manteve as costeletas, o cavanhaque e também o
cabelo curto, que agora usava arrepiado, apesar das pequenas, porém aparentes,
entradas acima das têmporas.
Jat e Helena sorriram e ela soltou-o, balançando
os braços fingindo estar encabulada. O Sol então refletiu em algo na mão
esquerda de Helena, uma aliança dourada brilhou em seu dedo anelar.
- Ei, vocês vão acabar cegando alguém com
isso! – Disse Giovanni apontando para uma aliança semelhante na mão esquerda de
Jonathan.
- Vamos baixar logo o cano de sucção
na represa, assim podemos correr com aquele servicinho extra. – Disse Jonathan
olhando novamente para o horizonte, apreensivo com o que pudesse estar adiante.
- A água está carregada de matéria
útil, mas a análise deste solo ressecado não indica nada de aproveitável. –
Disse Helena enquanto olhava para um pequeno monitor que acabara de tirar da
mochila.
- Acho que consigo baixar o dreno
sozinho, vocês podem seguir até o depósito se quiserem. Que tal? – Perguntou
Giovanni enquanto arrastava uma enorme mangueira tirada de um compartimento na
parte inferior da nave.
- Vamos deixar o módulo pra você então.
Assim pode nos alcançar quando terminar. – Respondeu Jat, saindo em caminhada
junto a Helena. Ela procedendo com a análise do solo, em seu pequeno monitor, e
ele segurando firmemente o rifle, atento ao que pudesse encontrar pelo caminho.
Alguns metros adiante ouviram Giovanni
gritar novamente, para lembrar-lhes algo.
- Não querem levar alguns explosivos?
- Não! – Gritou Jat, em resposta. Mesmo
tenso ele sorriu ao completar a frase. – Tenho preguiça de ativar aqueles
cronômetros.
...
Jonathan e Helena chegaram, depois de
uma caminhada de aproximadamente trinta minutos em meio ao árido e poluído
cenário da Terra, a um velho e enorme hangar, erguido sobre uma estrutura de
metal agora quase totalmente enferrujada. Estavam suados e ofegantes devido ao
calor escaldante proporcionado pelo Sol, que se apresentava vívido, em um céu
avermelhado e quase sem nuvens. Mesmo com a ajuda das máscaras de oxigênio,
caminhar sob tal temperatura e em meio ao ar tóxico do Lixo exigira muito
esforço de seus corpos.
Empurraram juntos, a gigantesca porta,
que deslizou com dificuldade sobre os trilhos corroídos pela oxidação. A fresta
aberta, suficientemente larga para que seus corpos pudessem passar, deixou
entrar um feixe de luz que iluminou toda a área central do hangar, mas que
intensificou as trevas que ainda encobriam as paredes laterais e o fundo
daquele ambiente pouco convidativo.
Helena tirou da mochila uma grande lanterna
preta, que parecia estar acoplada a uma caixa quadrada de ferramentas e era
segurada por uma alça fixa na parte superior da tal caixa. Acionou o
interruptor, mas a lanterna só funcionou mesmo depois que Helena deu dois tapinhas
na lateral do refletor.
Tentou iluminar o que pôde, mas as
dimensões do galpão não permitiam uma boa iluminação, mesmo sendo a luz
produzida por aquela lanterna, bem mais intensa que a de uma lanterna comum.
- Vamos. Temos que encontrar logo o
quê viemos procurar. – Disse ela.
Jat não disse nada, mas concordou com
a cabeça. Sacou também uma lanterna, bem menor, da mochila e acoplou-a ao
rifle, e assim continuaram sua meticulosa busca através da escuridão até que
encontraram, no chão ao fundo do galpão, um alçapão de madeira bem velha e
carcomida por algum tipo de inseto. Puxaram-no para o lado usando uma corrente,
presa ao centro do alçapão, revelando uma passagem larga para o subterrâneo.
- Nós vamos entrar aí? Não acha melhor
esperar o Rizzo? – Perguntou Helena contemplando a escuridão e a poeira
levantada com a abertura da passagem.
- Ele já deve estar chegando. Temos
que terminar logo isso, não é seguro ficar andando por aqui. – Respondeu Jat,
iniciando a descida. Helena seguiu-o.
Chegando ao fim das escadas, estavam
diante de outro galpão, subterrâneo, tão grande quanto o anterior e ainda mais
escuro, mas dessa vez não estava vazio.
- Encontramos! – Disse Jonathan,
sorrindo satisfeito.
Ao apontarem suas lanternas em direção
ao fundo do galpão se depararam com enormes barris que, enfileirados lado a
lado e empilhados dois a dois, forravam o galpão, praticamente pela metade. Focaram
melhor a luz na adornada etiqueta colada na parte frontal de um dos barris,
onde puderam ler a frase “Whiskey Para Exportação – 18 Anos”.
Um planeta não deixa de existir porque
seus habitantes o deixaram, pelo contrário, ele se adapta. Os mais afortunados
tomaram seus lugares junto à salvação, deixando o resto dos habitantes da terra
a mercê da morte, para os de sorte, ou ainda pior, das deformidades advindas da
evolução.
Deslumbrados com o achado Jonathan e
Helena não perceberam que alguém os observava, escondido na escuridão. De cima
de um dos barris surgiram pequenos olhos brancos e brilhantes, e ao se
aproximar, sorrateiramente, aquela deformada criatura se mostrou à luz das
lanternas.
Jonathan e Helena recuaram apreensivos
ao avistar aquele estranho ser que se aproximava, e perceberam que ele não
estava sozinho. Detrás da escuridão brotaram outros tantos olhos que eles não
puderam contar.
- Estamos na toca deles. Sem
movimentos bruscos – Sussurrou Jonathan tentando não perder de vista a criatura.
- Este deve ser o Alfa. – Respondeu
Helena que também atentava ao ser que se exibira primeiro. – Se ele nos ignorar
os outros não atacarão. Vamos sair daqui.
Começaram a recuar a passos curtos,
sem deixar de acompanhar a aproximação daqueles grotescos seres. Eram
humanóides, provavelmente descendentes das antigas gerações que foram deixadas
no planeta, mas estes já não se pareciam com seres humanos comuns.
Deformados devido às condições
climáticas e à atmosfera tóxica da Terra, sua pele era escura e áspera, como se
fosse feita de terra, provavelmente uma adaptação do organismo contra intensos
raios solares, suprindo a falta da já ineficiente camada de ozônio. Seus olhos
eram como pequenas bolas de vidro, porém brancos como os dos animais que vivem
muito tempo em tocas subterrâneas, no escuro brilhavam com aparência perolada.
Alguns, devido ás toxinas encontradas no ar e água desenvolveram deformidades
nos membros, chegando ás vezes a não possuir algum dos membros ou até
possuí-los em excesso, atrofiados e presos a outras partes do corpo. O mesmo
também acontecia em sua face, apresentando mandíbulas tortas e, alguns, a falta
de olhos, orelhas ou nariz. Seu andar era atarracado, apoiando os membros superiores
no chão como os antigos primatas, porém, sua estrutura óssea permitia que se
erguessem sobre os membros inferiores, sendo que não o fazendo, acabaram por
desenvolver grotescas corcundas. Sua capacidade de fala se extinguiu como passar
do tempo e agora apenas urravam como animais.
Foi com um alto urro que o líder do
bando ordenou o ataque. Todas as criaturas, em torno de vinte ou trinta,
dispararam em direção a Jonathan e Helena.
- Use isto. – Gritou Jat passando o
revólver para as mãos de Helena.
- Eu sou uma cientista, deveria estar
preservando a vida e não a destruindo. – Protestou Helena, quando disparou o
primeiro tiro.
- E você está... Está preservando as
nossas vidas! – Respondeu Jat, segurando o gatilho e emitindo uma rajada de
tiros.
Recuaram atirando até que conseguiram
subir as escadas e sair do galpão subterrâneo, mas, apesar de muitas das
criaturas terem sido atingidas e caído em meio ao caminho, algumas delas
pareciam resistir aos tiros e ainda persistiam na perseguição.
O líder do bando saltou em direção a
Jonathan derrubando-o e começando uma luta corpo a corpo no chão. A criatura,
aparentemente mais forte, conseguia manter Jonathan sob seu corpo, apenas
protegendo-se dos golpes frenéticos que ele lhe aplicava.
- Atire nele! – Gritou Jat em
desespero.
- Eles são muitos, não estou dando
conta. – Respondeu Helena também em desespero. – Oh não, estou sem balas!
As criaturas avançaram em fúria em
direção a ela quando, de repente, como que por milagre, algo rompeu violentamente
a frágil parede metálica do hangar e entrou em alta velocidade, parando bruscamente
e derrapando em trajetória semicircular até bem próximo dos dois.
Era o módulo terrestre de exploração,
um veículo parecido com um jipe, mas com uma grande caçamba para comportar
cargas. A luz que entrou pela grande brecha feita pelo módulo na parede fez com
que as criaturas recuassem, e então a capota do módulo deslizou para frente e
de dentro levantou-se Giovanni Rizzo segurando um antigo fuzil M-16.
- It´s evolution baby! – Disse ele
atirando no líder do bando que atacava seu amigo.
A criatura caiu sobre o corpo de
Jonathan e a rajada de tiros cessou.
- Droga! Travou. – Praguejou Giovanni
olhando atônito para o fuzil e dando-lhe uma chacoalhada.
Uma infelicidade relativa aos fuzis
M-16 era a possibilidade de eles travarem em combate, mas nesse caso não foi um
problema tão grande, tendo em vista que as criaturas, sentindo-se vulneráveis
na luz e vendo seu líder morto, fugiram correndo pra longe do hangar. Jat
empurrou o corpo do líder com os pés, levantou-se e atirou mais uma vez para o
alto, espantando de uma vez por todas qualquer criatura que ainda estivesse por
ali.
- Doze anos, dezoito, vinte e um...
Qual deles nós vamos levar? – Perguntou Giovanni ao olhar para os barris.
- Vamos levar todos. – Respondeu
Jonathan.
- Qualquer um desses barris não deve
ter menos de 150 anos. – Complementou Helena.
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