quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 3 – O Lixo


“I never wanna die”, era o verso que se ouvia em alto volume a bordo da nave, mas na primeira citação do refrão “Born to be wild” o som parou repentinamente deixando pra trás apenas um chiado alto.
- Estamos adentrando a atmosfera da Terra. – Disse Giovanni, enquanto desligava o som e apertava uma série de outros botões no painel de controle da nave. – Ativando controle manual e iniciando procedimento de pouso. Apertem os cintos, crianças, e não tentem fazer isso em casa.

A nave, um cargueiro Kappa, foi projetada por Russos e possuía capacidade de carga equivalente ao antigo Antonov An-225 Mriya. Tinha forma de disco e carcaça robusta, de forma que pudesse enfrentar condições adversas tanto no espaço, como em campos de asteróides, quanto em superfícies acidentadas de altas intempéries, como na Terra. Podia ser confortavelmente tripulada por até 10 pessoas, porém as missões eram geralmente formadas por apenas três, um comandante, um piloto e um cientista.
Ao romper a barreira atmosférica da Terra, a nave incandesceu tornando-se uma grande bola de fogo, que ao se dissipar revelou a resistente e chamuscada fuselagem onde, na parte frontal da nave, estavam gravadas as letras C-CR e logo abaixo, em letras menores, a inscrição “Creedence Clearwater Revival”.
Os seis propulsores, localizados na parte inferior do disco e divididos três a três nas laterais de forma longitudinal, baixaram-se de forma que apontassem diretamente para ao solo, garantindo uma descida lenta e um pouso suave.

...

As estações utilizavam material radioativo como principal fonte de energia, além de possuir um complexo sistema de transformação e reaproveitamento da matéria orgânica, usada na produção de combustível alternativo, geração de energia e até mesmo na sintetização de alimentos. Enfim, eram capazes de garantir sua subsistência e sustentar a continuidade da missão. Porém, o ciclo de renovação era lento e nem toda a matéria consumida pela estação podia ser reposta em tempo hábil, por isso, além dos Sigmas, outro tipo de expedição era necessária.
Periodicamente eram enviados, à Terra, os cargueiros Kappa, com o objetivo de extrair todo tipo de material orgânico ou radioativo que pudesse ser encontrado no planeta. Uma missão simples, partindo do princípio que toda superfície do planeta estava coberta de matéria orgânica, mesmo que em decomposição. No entanto, uma missão pouco desejada pelos militares das estações devido aos riscos existentes na exposição à atmosfera da Terra e seu ambiente hostil, além de ser uma viagem muito longa, durando aproximadamente seis meses a cada expedição, tempo qual aumentava cada dia mais, à medida que a estação se distanciava do planeta.
Buscando minimizar esse tempo foi construído o moderno sistema de tele-transporte chamado de Check Point, que visava à liberação de um mecanismo de tele-transporte no espaço a cada vez que a estação atingisse a distância limite para a comunicação com o último Check Point posicionado, as naves deveriam viajar até o Check Point mais próximo da estação e então serem impulsionadas através de cada um dos pontos até atingir o ponto mais próximo da Terra, ponto este que estava posicionado a uma distância de aproximadamente dois meses e meio do planeta. O sistema de Check Points também era muito útil nas expedições Sigma e permitiam às naves serem transportadas de um ponto ao outro do universo em velocidade equiparada à velocidade da luz. Sendo assim, as distâncias mais longas eram percorridas em minutos, enquanto que as mais curtas e até mesmo a própria missão exigiam habilidade e coragem dos seus executores. Por esses motivos, ao contrario dos Sigmas que só podiam ser comandados por Capitães e Majores, Tenentes recém formados eram usualmente indicados para comandar os cargueiros Kappa.
Essas longas, indesejadas e perigosas missões eram vulgarmente conhecidas entre os militares como “O Lixo”.

...

A nave pousara em uma planície de solo árido, apesar de próxima a uma antiga represa, que outrora talvez tenha sido límpida e cristalina, mas agora apresentava uma superfície turva e pantanosa, de um liquido notavelmente viscoso e tóxico. Baixou então a rampa de acesso e nela foi descendo Jonathan Trust. Um Jonathan dez anos mais velho, que manteve seu corpo forte, porém deixou pra trás o visual disciplinado da academia. Seus cabelos, já não tão curtos exibiam o volume de um cabelo levemente cacheado. Trocou a alinhada farda azul marinho, usada na época da academia, por uma camiseta preta sem mangas e calças largas de cor cinza, geralmente usadas pelos mecânicos da frota. Costumava usar também um cinto preto de fivela prateada e um coldre axial de couro marrom, que mantinha seu revólver Smith & Wesson 500 Magnum, do lado esquerdo de seu tórax.
Jonathan descia a rampa a passos firmes olhando para o horizonte a sua frente como se procurasse por algo. Usava uma mascara acrílica transparente, ligada por um tubo a um antigo cilindro de oxigênio, preso a uma surrada mochila verde camuflada à suas costas, e carregava um antigo rifle AK-47 com coronha de madeira.

Devido à rápida evolução tecnológica no início do século, ao foco das entidades militares no desenvolvimento de armas de destruição em massa e posteriormente ao aperfeiçoamento da viagem espacial e armamento especializado para combate no espaço, o desenvolvimento das armas de combate corpo a corpo foi deixado de lado pelas autoridades, relegando as infantarias os antigos arsenais já existentes. Sendo assim, as naves da estação possuíam os mais modernos dispositivos bélicos e os mais precisos e destrutivos canhões laser, mas para os soldados em solo restaram apenas antigas armas de fogo baseadas em projéteis.

Atrás de Jat vinha descendo outra pessoa, que ao se aproximar dele passou os braços em torno de seu pescoço e simulou, em um encontro de máscaras, um beijo em seu rosto. Era Helena Dias, com quem o tempo havia sido generoso. Sua aparência pouco havia mudado, mantendo sua jovialidade e também a silhueta atlética dos tempos da academia. Logicamente agora mais experiente, era merecidamente aclamada no meio científico.

- Vamos parando com a putaria que tem criança chegando na sala. – Gritou Giovanni Rizzo, que agora descia a rampa. Sua aparência também não mudara tanto, aparentava logicamente ser mais maduro, mas não perdeu seu senso de humor. Manteve as costeletas, o cavanhaque e também o cabelo curto, que agora usava arrepiado, apesar das pequenas, porém aparentes, entradas acima das têmporas.
Jat e Helena sorriram e ela soltou-o, balançando os braços fingindo estar encabulada. O Sol então refletiu em algo na mão esquerda de Helena, uma aliança dourada brilhou em seu dedo anelar.
 - Ei, vocês vão acabar cegando alguém com isso! – Disse Giovanni apontando para uma aliança semelhante na mão esquerda de Jonathan.
- Vamos baixar logo o cano de sucção na represa, assim podemos correr com aquele servicinho extra. – Disse Jonathan olhando novamente para o horizonte, apreensivo com o que pudesse estar adiante.
- A água está carregada de matéria útil, mas a análise deste solo ressecado não indica nada de aproveitável. – Disse Helena enquanto olhava para um pequeno monitor que acabara de tirar da mochila.
- Acho que consigo baixar o dreno sozinho, vocês podem seguir até o depósito se quiserem. Que tal? – Perguntou Giovanni enquanto arrastava uma enorme mangueira tirada de um compartimento na parte inferior da nave.
- Vamos deixar o módulo pra você então. Assim pode nos alcançar quando terminar. – Respondeu Jat, saindo em caminhada junto a Helena. Ela procedendo com a análise do solo, em seu pequeno monitor, e ele segurando firmemente o rifle, atento ao que pudesse encontrar pelo caminho.
Alguns metros adiante ouviram Giovanni gritar novamente, para lembrar-lhes algo.
- Não querem levar alguns explosivos?
- Não! – Gritou Jat, em resposta. Mesmo tenso ele sorriu ao completar a frase. – Tenho preguiça de ativar aqueles cronômetros.
 
...

Jonathan e Helena chegaram, depois de uma caminhada de aproximadamente trinta minutos em meio ao árido e poluído cenário da Terra, a um velho e enorme hangar, erguido sobre uma estrutura de metal agora quase totalmente enferrujada. Estavam suados e ofegantes devido ao calor escaldante proporcionado pelo Sol, que se apresentava vívido, em um céu avermelhado e quase sem nuvens. Mesmo com a ajuda das máscaras de oxigênio, caminhar sob tal temperatura e em meio ao ar tóxico do Lixo exigira muito esforço de seus corpos.
Empurraram juntos, a gigantesca porta, que deslizou com dificuldade sobre os trilhos corroídos pela oxidação. A fresta aberta, suficientemente larga para que seus corpos pudessem passar, deixou entrar um feixe de luz que iluminou toda a área central do hangar, mas que intensificou as trevas que ainda encobriam as paredes laterais e o fundo daquele ambiente pouco convidativo.
Helena tirou da mochila uma grande lanterna preta, que parecia estar acoplada a uma caixa quadrada de ferramentas e era segurada por uma alça fixa na parte superior da tal caixa. Acionou o interruptor, mas a lanterna só funcionou mesmo depois que Helena deu dois tapinhas na lateral do refletor.
Tentou iluminar o que pôde, mas as dimensões do galpão não permitiam uma boa iluminação, mesmo sendo a luz produzida por aquela lanterna, bem mais intensa que a de uma lanterna comum.
- Vamos. Temos que encontrar logo o quê viemos procurar. – Disse ela.
Jat não disse nada, mas concordou com a cabeça. Sacou também uma lanterna, bem menor, da mochila e acoplou-a ao rifle, e assim continuaram sua meticulosa busca através da escuridão até que encontraram, no chão ao fundo do galpão, um alçapão de madeira bem velha e carcomida por algum tipo de inseto. Puxaram-no para o lado usando uma corrente, presa ao centro do alçapão, revelando uma passagem larga para o subterrâneo.
- Nós vamos entrar aí? Não acha melhor esperar o Rizzo? – Perguntou Helena contemplando a escuridão e a poeira levantada com a abertura da passagem.
- Ele já deve estar chegando. Temos que terminar logo isso, não é seguro ficar andando por aqui. – Respondeu Jat, iniciando a descida. Helena seguiu-o.
Chegando ao fim das escadas, estavam diante de outro galpão, subterrâneo, tão grande quanto o anterior e ainda mais escuro, mas dessa vez não estava vazio.
- Encontramos! – Disse Jonathan, sorrindo satisfeito.
Ao apontarem suas lanternas em direção ao fundo do galpão se depararam com enormes barris que, enfileirados lado a lado e empilhados dois a dois, forravam o galpão, praticamente pela metade. Focaram melhor a luz na adornada etiqueta colada na parte frontal de um dos barris, onde puderam ler a frase “Whiskey Para Exportação – 18 Anos”.

Um planeta não deixa de existir porque seus habitantes o deixaram, pelo contrário, ele se adapta. Os mais afortunados tomaram seus lugares junto à salvação, deixando o resto dos habitantes da terra a mercê da morte, para os de sorte, ou ainda pior, das deformidades advindas da evolução.

Deslumbrados com o achado Jonathan e Helena não perceberam que alguém os observava, escondido na escuridão. De cima de um dos barris surgiram pequenos olhos brancos e brilhantes, e ao se aproximar, sorrateiramente, aquela deformada criatura se mostrou à luz das lanternas.
Jonathan e Helena recuaram apreensivos ao avistar aquele estranho ser que se aproximava, e perceberam que ele não estava sozinho. Detrás da escuridão brotaram outros tantos olhos que eles não puderam contar.
- Estamos na toca deles. Sem movimentos bruscos – Sussurrou Jonathan tentando não perder de vista a criatura.
- Este deve ser o Alfa. – Respondeu Helena que também atentava ao ser que se exibira primeiro. – Se ele nos ignorar os outros não atacarão. Vamos sair daqui.
Começaram a recuar a passos curtos, sem deixar de acompanhar a aproximação daqueles grotescos seres. Eram humanóides, provavelmente descendentes das antigas gerações que foram deixadas no planeta, mas estes já não se pareciam com seres humanos comuns.
Deformados devido às condições climáticas e à atmosfera tóxica da Terra, sua pele era escura e áspera, como se fosse feita de terra, provavelmente uma adaptação do organismo contra intensos raios solares, suprindo a falta da já ineficiente camada de ozônio. Seus olhos eram como pequenas bolas de vidro, porém brancos como os dos animais que vivem muito tempo em tocas subterrâneas, no escuro brilhavam com aparência perolada. Alguns, devido ás toxinas encontradas no ar e água desenvolveram deformidades nos membros, chegando ás vezes a não possuir algum dos membros ou até possuí-los em excesso, atrofiados e presos a outras partes do corpo. O mesmo também acontecia em sua face, apresentando mandíbulas tortas e, alguns, a falta de olhos, orelhas ou nariz. Seu andar era atarracado, apoiando os membros superiores no chão como os antigos primatas, porém, sua estrutura óssea permitia que se erguessem sobre os membros inferiores, sendo que não o fazendo, acabaram por desenvolver grotescas corcundas. Sua capacidade de fala se extinguiu como passar do tempo e agora apenas urravam como animais.
Foi com um alto urro que o líder do bando ordenou o ataque. Todas as criaturas, em torno de vinte ou trinta, dispararam em direção a Jonathan e Helena.
- Use isto. – Gritou Jat passando o revólver para as mãos de Helena.
- Eu sou uma cientista, deveria estar preservando a vida e não a destruindo. – Protestou Helena, quando disparou o primeiro tiro.
- E você está... Está preservando as nossas vidas! – Respondeu Jat, segurando o gatilho e emitindo uma rajada de tiros.
Recuaram atirando até que conseguiram subir as escadas e sair do galpão subterrâneo, mas, apesar de muitas das criaturas terem sido atingidas e caído em meio ao caminho, algumas delas pareciam resistir aos tiros e ainda persistiam na perseguição.
O líder do bando saltou em direção a Jonathan derrubando-o e começando uma luta corpo a corpo no chão. A criatura, aparentemente mais forte, conseguia manter Jonathan sob seu corpo, apenas protegendo-se dos golpes frenéticos que ele lhe aplicava.
- Atire nele! – Gritou Jat em desespero.
- Eles são muitos, não estou dando conta. – Respondeu Helena também em desespero. – Oh não, estou sem balas!
As criaturas avançaram em fúria em direção a ela quando, de repente, como que por milagre, algo rompeu violentamente a frágil parede metálica do hangar e entrou em alta velocidade, parando bruscamente e derrapando em trajetória semicircular até bem próximo dos dois.
Era o módulo terrestre de exploração, um veículo parecido com um jipe, mas com uma grande caçamba para comportar cargas. A luz que entrou pela grande brecha feita pelo módulo na parede fez com que as criaturas recuassem, e então a capota do módulo deslizou para frente e de dentro levantou-se Giovanni Rizzo segurando um antigo fuzil M-16.
- It´s evolution baby! – Disse ele atirando no líder do bando que atacava seu amigo.
A criatura caiu sobre o corpo de Jonathan e a rajada de tiros cessou.
- Droga! Travou. – Praguejou Giovanni olhando atônito para o fuzil e dando-lhe uma chacoalhada.
Uma infelicidade relativa aos fuzis M-16 era a possibilidade de eles travarem em combate, mas nesse caso não foi um problema tão grande, tendo em vista que as criaturas, sentindo-se vulneráveis na luz e vendo seu líder morto, fugiram correndo pra longe do hangar. Jat empurrou o corpo do líder com os pés, levantou-se e atirou mais uma vez para o alto, espantando de uma vez por todas qualquer criatura que ainda estivesse por ali.

- Doze anos, dezoito, vinte e um... Qual deles nós vamos levar? – Perguntou Giovanni ao olhar para os barris.
- Vamos levar todos. – Respondeu Jonathan.
- Qualquer um desses barris não deve ter menos de 150 anos. – Complementou Helena.


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