- Em 20 de julho de 1969, o astronauta
Neil Armstrong se consagrou o primeiro homem a pisar na lua. “Este é um pequeno
passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”, ele disse. E
quem àquela época poderia imaginar que hoje, 378 anos depois, o espaço seria a
única esperança da humanidade – Assim se iniciava o discurso do General McCartney,
o mais velho e respeitado militar, ainda exercendo sua função na Estação 2000.
McCartney era um homem muito bem
conservado para sua avantajada idade. Suas façanhas como militar já haviam lhe
rendido várias condecorações e medalhas durante sua juventude, as mesmas que
ele ostentava com orgulho em seu peito, presas a farda branca, de gala, bem
alinhada e que o deixava muito elegante naquela data tão especial. Tentava
esconder uma careca debaixo do quepe, deixando aparente apenas o bem aparado
cabelo nas laterais da cabeça, e usava também um cerrado bigode, que lhe dava
uma aparência imponente e escondia a figura amável e carismática que ele
realmente representava para todos os outros militares.
A enorme platéia era composta de um
grupo de distintos jovens, usando becas pretas, e também de militares de várias
patentes que, assim como o General, usavam suas fardas brancas, de gala.
Mais a frente, acima do palanque de
onde o General recitava seu discurso, podia-se ver uma grande faixa onde estava
escrito “Formatura da 148ª Turma de Cadetes da Estação 2000” .
...
- Você já era Jakarta, vou te abater
pela segunda vez no mesmo dia! – Disse Jonathan Trust, dando uma gargalhada
maliciosa enquanto puxava as duas alavancas do manche com velocidade pra perto
do corpo.
Jonathan A. Trust era um jovem
corajoso e muito habilidoso em combates, tanto espacial quanto corpo a corpo, mas
seu jeito impulsivo de agir já havia lhe trazido alguns problemas durante os
anos na disciplinada Academia Militar da Força Aeroespacial. Apesar de sua
indisciplina, sua habilidade em combate e também sua impetuosa Capacidade de
liderança nos treinamentos em grupo garantiram-lhe a admiração dos antigos
combatentes e atuais professores. Era alto e de corpo forte, devido aos
intensos treinamentos na academia, e seu cabelo, escuro e bem curto, não deixava
dúvidas de que era realmente um militar. Jonathan dificilmente assinava ou
mencionava seu nome do meio e muitos nem sequer chegaram a conhecê-lo. Seus
amigos costumavam chamá-lo apenas de Jat.
A nave que ele pilotava era uma
espécie de caça de cor púrpura, muito veloz e Capaz de realizar manobras evasivas
com extrema eficiência. Assim como todas as naves na estação esta possuía o
nome de uma letra grega, Delta, e suas asas, sendo uma com o dobro do tamanho
da outra, foram projetadas especialmente para garantir um maior desempenho nas
manobras evasivas por consequência da inércia gerada pelas mesmas no espaço.
Outra característica que garantia grande agilidade aos Deltas era o seu eixo rotativo,
que permitia às asas girarem em todas as direções em torno do cockpit, que podia
ser tripulado por até quatro pessoas.
Após o puxão no manche o caça Delta de
Jonathan subiu em trajetória circular até completar um circulo completo e assim
se posicionar exatamente atrás de outro Delta. Jonathan então acionou os dois
gatilhos presentes no manche ao mesmo tempo, disparando dois tirou simultâneos
na nave a sua frente.
- Ha, ha, ha – Simulou a voluptuosa Jakeline
Jakarta, uma risada debochada - Essa é minha vez Jat! Você pode ser muito bom
com os Kappas, mas os Deltas são muito rápidos pra você. – Disse se referindo a
naves cargueiras da estação, conhecidas pela letra grega Kappa.
Eximia combatente, Jakeline Jakarta era
talvez a única da frota capaz de competir em igualdade com Jonathan, mas suas
qualidades não se resumiam apenas ao combate. Morena esbelta de cabelos bem escuros
e olhos verdes oliva, possuía atributos invejados pelas mulheres e desejados
pelos homens. Suas belas feições roubavam olhares cobiçosos por onde quer que
passasse.
Ela girou o manche trezentos e
sessenta graus para a esquerda e o puxou com força para o corpo, e então as
asas da nave giraram para a esquerda, em torno do cockpit, deslocando a nave
para a mesma direção. Jonathan só pode ver seus tiros passando pelo Delta de
Jakarta e se perdendo no espaço.
O puxão que ela deu no manche após a
primeira manobra permitiu que a nave desacelerasse e que o outro Delta passasse
por ela com velocidade. Jakeline então executou outro giro, dessa vez para a
direita, se posicionando exatamente atrás da nave de Jonathan.
- Bye bye, gatinho! – E Jakarta
disparou vários tiros intermitentes.
Jonathan não teve tempo de pensar em
nada, sua nave foi atingida em cheio e ele só pode ver uma pequena explosão,
que rapidamente foi consumida pelo vácuo, em sua asa maior, agora posicionada à
sua esquerda. O impacto fez toda a nave tremer e os motores, forçados ao máximo
para compensar as avarias, emitiam um som agudo e irritante. Jonathan segurou
firme o manche tentando estabilizar a nave quando, de repente, todo parou.
Jonathan e Jakarta ouviram o som dos estressados
motores de suas naves sendo desligados. Diante de seus olhos o espaço desapareceu
e no seu lugar surgiu uma luz branca muito clara.
Jonathan tirou os óculos de proteção e
os atirou contra o painel:
- Maldição! Quem desligou o simulador?
- Veja só se não são Jonathan Trust e Jakeline
Jakarta. – Disse sarcasticamente o Tenente Adolf Stolz, que ainda segurava a
chave usada para desligar os simuladores. – Se formam hoje e não tem o mínimo
de responsabilidade. Voltem agora mesmo para a festa ou terei de prendê-los. Não
me admira que vá para o Lixo, Trust.
O arrogante Tenente Adolf Stolz, desde
o ingresso de Jonathan na academia, havia sido seu principal rival, e muitas
vezes o motivo de ele ser punido por sua indisciplina. Stolz sempre foi muito disciplinado
em todos os assuntos relativos à academia, tendo sido considerado pelos
professores e outros membros do conselho militar um dos melhores alunos e um
militar exemplar, mas, devido ao seu orgulho e vaidade, Adolf Stolz não era capaz
de aceitar que alguém tão inconsequente, irresponsável e relaxado como Jonathan
Trust pudesse vir a se tornar um militar e ainda superá-lo nos combates, caindo
assim nas graças dos professores. Adolf era um rapaz alto, forte e bem
apessoado, sua farda costumava estar sempre impecável, sua barba sempre bem
feita e seus cabelos negros de um brilho azulado, estavam sempre curtos e bem
penteados, porém, mesmo portando tal beleza, nunca pode superar o sucesso de
Jonathan com as mulheres, o que lhe aumentava ainda mais o ódio e a frustração.
Jakarta segurou o braço de Jonathan,
que já estava prestes a partir pra cima de Adolf.
- Não vale à pena Jat.
Jonathan olhou pra ela e compreendeu
que começar uma briga agora, na véspera de suas formaturas, realmente seria
estupidez, e saiu do centro de simulação a passos firmes, esbarrando
propositalmente no Tenente Stolz.
Jakeline saiu logo atrás de Jonathan,
e ele, ao perceber que ela o havia alcançado, disse em tom raivoso:
- Um ano... Ele se formou um maldito
ano antes de nós e já acha que pode abusar da patente.
Jakeline segurou a ponta do queixo de
Jonathan e respondeu:
- Calma, gatinho, nós nos formamos
hoje. – Piscou o olho direito, ficou na ponta dos pés e beijou-lhe a boca.
...
Apesar das poucas conversas paralelas,
o grande salão de bailes permanecia em silêncio para prestigiar o belo discurso
preparado pela oradora da turma. Os militares, professores e formandos
escutavam atentamente suas palavras e sentiam-se orgulhosos pelas honrarias e
agradecimentos pronunciados por ela.
- Meus parabéns! – Disse o General
McCartney se aproximando de Jonathan com dois copos de uísque nas mãos. – Soube
que assumirá sua própria nave.
- É só o Lixo, senhor. – Respondeu
Jonathan pegando um dos copos que o General lhe ofereceu.
- O Lixo me deu várias dessas, meu
jovem. – O General apontou para as medalhas no peito. – E seu pai também teve
uma brilhante carreira militar por lá.
- Também foi lá que ela terminou. É
por isso que hoje ele está naquela cadeira sem poder se levantar, e se não
fosse sua amizade por ele, provavelmente ele já estaria vagando no espaço,
senhor.
- Eu o vi crescer e sei que tens um futuro
brilhante pela frente, filho. Não deixe que a opinião dos outros te influencie,
pois são poucos os que têm o privilégio de assumir uma nave logo após a
formatura. Não encare o Lixo como um desafio, mas sim como uma oportunidade.
Jonathan não soube o que responder,
apenas concordou com um movimento de cabeça.
- Já sabe quem será sua tripulação? –
Prosseguiu o General.
- Não, mas gostaria de indicar alguém
como piloto. – Disse Jat, tomando aquele momento como uma verdadeira
oportunidade.
- Jakarta? – Arriscou o General,
acreditando ter acertado. – Você conhece a política, Jonathan. Sabe que não
posso colocar namorados juntos na mesma tripulação.
- Sei disso senhor, e não é de Jakarta
que estou falando. Quero Rizzo como meu piloto. – E apontou para o amigo, que
estava sentado despojadamente em outro canto do salão, gargalhando de uma piada
qualquer.
- Giovanni Rizzo nem se formou ainda.
- E já foi considerado o melhor piloto
da frota. Ele passou pro último ano, pode compor a missão como estagiário até
que se forme e então assuma o posto oficialmente.
- Que seja então, mexerei meus
pauzinhos pra colocá-lo com você. Mas, traga-o de volta a salvo pra formatura.
Jat sorriu.
- Ah, já ia me esquecendo. –
Lembrou-se o General. – Você também precisa de um cientista no grupo, e eu
tomei a liberdade de indicar uma pessoa. Também se forma hoje, e fiquei
realmente impressionado com o trabalho que vem desenvolvendo e seus resultados
acadêmicos.
Jonathan pode sentir que a resposta
não o agradaria, mas perguntou assim mesmo.
- De quem estamos falando, senhor?
- Helena Dias. – E o General apontou
para o palanque, de onde a oradora da turma finalizava seu discurso.
De fato a resposta não agradou. Helena Dias a
certinha, a estudiosa, a boa menina, a insuportável, era alguém que nunca
aceitaria o desleixo dos dois outros tripulantes da nave, mas tendo o General
se disposto a incluir seu melhor amigo na tripulação, qualquer que fosse o
cientista indicado, Jonathan não teria coragem de recusar.
Helena não suportava o total
descompromisso com que Jonathan e seus amigos levavam a vida, e o General
McCartney sabia disso. Sabia também que ela jamais permitiria à missão seguir
desordenada, imporia sua opinião, e esse conflito de diferentes opiniões
amadureceria tanto Jonathan quanto ela mesma, por este motivo ele a havia
indicado.
Helena não era tão virtuosa quanto Jakeline
Jakarta e nem mesmo foi uma das garotas mais populares da academia, seus
atributos eram mais modestos, mas sua beleza recatada de forma alguma podia ser
contestada. Tinha cabelos bem lisos e num tom castanho avermelhado, de aspecto
vivo e lustroso, que costumava usar preso como rabo de cavalo. Sua pele era bem
clara e tinha algumas poucas sardas no rosto, seus olhos eram verdes como
esmeraldas e seu corpo atlético roubava a atenção dos homens e os deixava sem
fala. Isso quando ela não estava usando o velho jaleco branco de laboratório e
os óculos, de baixo grau, porém de grossa armação preta, que costumava usar.
Importava-se mais com seu trabalho do que com a própria aparência, portanto era
sua sorte que a natureza lhe havia sido generosa. Nunca foi de dar muita
liberdade aos homens, principalmente aos garanhões como Jonathan Trust. Sentia-se
indignada com a facilidade com que os garotos conquistavam as mulheres na
academia. Corpos fortes não a impressionavam, considerava-se uma mulher de
valor, uma mulher que não se entregaria a qualquer relação sem futuro, digna de
uma verdadeira demonstração de amor, de um verdadeiro trabalho hercúleo para
conquistá-la.
- E aí, estagiário? – Disse Jonathan,
dando um leve tapinha na cabeça de seu amigo Giovanni Rizzo, que estava sentado
junto a outros estudantes.
- E aí, seu trouxa? – Respondeu
Giovanni, oferecendo um copo de cerveja a Jonathan. – O que você disse? Estagiário?
– E levantou a sobrancelha esquerda com cara de dúvida.
- É isso mesmo, agora eu posso mandar em você. Você será o meu
piloto no Lixo. – E Jonathan levantou o copo chamando um brinde.
- Caramba! Digo, digo... É uma honra, senhor comandante. – Disse
Giovanni, estufando o peito e simulando uma continência. Depois gargalhou alto
e brindou, chocando o copo contra o de Jonathan. – Vem cá, você é foda! –
Levantou-se e abraçou o amigo. – Vamos tomar mais uma pra comemorar?
- Mais tarde, irmãozinho. Tenho que
dançar uma valsa agora.
- Valsa? Com quem? – Perguntou
Giovanni admirando-se que seu amigo soubesse dançar valsa e que realmente se
dispusesse a isto a ponto de perder uma rodada de cerveja.
- Com a cientista membro da
tripulação. – Jonathan torceu o nariz enquanto apontava pra Helena, que dançava
com Adolf Stolz.
- Helena Dias e Adolf Stolz. Não sei
qual dos dois seria pior.
- Stolz seria pior. Helena pelo menos
é mulher. – Respondeu Jat, com um leve sorriso no canto da boca.
Se Jonathan era tido como relaxado,
Giovanni tinha uma fama ainda maior. Era um brincalhão, não levava nada a
sério, a vida pra ele era algo simples de se lidar, costumava dizer que o
melhor a se fazer era deixar as coisas correrem naturalmente e que não valia à
pena se preocupar com o que ainda não aconteceu. Sua única real
responsabilidade eram os treinos de pilotagem, dedicava-se avidamente a se
tronar um piloto profissional. Giovanni era o estudante com mais horas de vôo
na academia, tendo mais até que outros militares recém formados, e no penúltimo
ano da academia foi considerado, em um concurso promovido pela administração da
Estação 2000 e aberto a todos os pilotos da estação, o melhor piloto da frota. Giovanni
era um pouco mais baixo que Jonathan e também mais magro, pois não se dedicava
tanto aos exercícios físicos, era loiro e seu cabelo também era mantido bem
curto, não por sua própria vontade, mas sim por normas militares. Usava
costeletas e um cavanhaque unanimemente condenado pelos militares de altas
patentes e conservadores da academia, mas ele não se importava com isso, sabia
que um piloto tão habilidoso não podia ser descartado tão facilmente.
A música não era de fato uma valsa, e
sim uma antiquíssima música romântica da banda Whitesnake, agora interpretada pela
Banda da Academia Militar em conjunto com a Orquestra Sinfônica da Estação 2000.
Seu nome é “Is This Love”.
- Com licença, é minha vez. – Disse
Jat colocando sua mão direita sobro o ombro de Adolf Stolz. Stolz franziu o
cenho, mas soltou a mão da parceira de dança. Helena suspirou, aliviada por se
livrar da desagradável companhia de Adolf, e bufou irritada, quando Jonathan
segurou sua mão. – Me concede essa dança?
- Sai de cena um ruim e entra um pior.
– Disse Helena descontente, mas aceitando o convite.
- Não se empolgue muito, o privilégio
desta dança não é pra te agradar, ou causar inveja nas suas amigas nerds. –
Debochou Jat. Helena apenas virou os olhos pra cima e emitiu um “hum”, desaprovando
a pretensão do garoto. – No entanto, estou aqui pra lhe dar uma boa notícia.
Terá de me agüentar por muito mais tempo do que pensa. Será a cientista de
nossa tripulação. – Ele anunciou com uma empolgação sarcástica, como se essa
fosse a melhor notícia que já anunciara em toda sua vida.
“I need you by my side, tell me it´s
alright”, cantou um dos vocalistas da banda, e Jat segurou a mão de Helena,
levantou-a e girou sua parceira de dança na pista em um singelo passo não
ensaiado.
- Não acredito nisso. Tenho trabalhado
tanto nos projetos genéticos, por que fui mandada pro Lixo? De onde veio essa
ordem? – Perguntou Helena com certo ar de indignação.
- Do General McCartney. – Respondeu
Jat. E ambos olharam desapontados pro General. Helena também não ousaria
discordar dele, todos respeitavam sua opinião.
- Aliás, genética num é um bom ramo
pra se basear uma carreira. Sua aplicação se tornou quase inútil depois da Seleção
Natural. – Emendou Jat, que, sentindo certa cumplicidade no desgosto pela
indicação, tentou manter uma conversa em tom amigável.
- Não há nada de inútil no
desenvolvimento genético. Permitir-nos garantir que todos nasçam saudáveis e
sejam assim pelo resto da vida é algo simplesmente grandioso. A Seleção Natural
é uma crueldade que, se dependesse de mim, já teria cessado. – Revoltou-se
Helena, com algo que já não era mais a simples presença de Jonathan. – Me diga
você, o Lixo é um bom lugar pra se constituir uma carreira?
- Bom, o General disse que pode ser
uma boa oportunidade... – Começou Jonathan, mas não pôde concluir a frase, pois
Jakeline abraçou-o, olhou bem nos olhos de Helena e disse:
- Querida, você já abusou demais... Ele
agora é meu! – E puxou Jonathan para si continuando a dança. Helena sacudiu a
cabeça, como quem não acredita no que acabou de ouvir, e deixou-os na pista.
Então Jonathan abaixou a cabeça até
que sua boca estivesse próxima ao ouvido de Jakeline e propôs, cochichando:
- Que tal irmos pra algum lugar mais
reservado?
- Que tal atrás do palanque? – Respondeu Jakeline, semicerrando
os olhos e mordendo levemente os lábios.
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