quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 1 – 2347 dc.


- Em 20 de julho de 1969, o astronauta Neil Armstrong se consagrou o primeiro homem a pisar na lua. “Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”, ele disse. E quem àquela época poderia imaginar que hoje, 378 anos depois, o espaço seria a única esperança da humanidade – Assim se iniciava o discurso do General McCartney, o mais velho e respeitado militar, ainda exercendo sua função na Estação 2000.
McCartney era um homem muito bem conservado para sua avantajada idade. Suas façanhas como militar já haviam lhe rendido várias condecorações e medalhas durante sua juventude, as mesmas que ele ostentava com orgulho em seu peito, presas a farda branca, de gala, bem alinhada e que o deixava muito elegante naquela data tão especial. Tentava esconder uma careca debaixo do quepe, deixando aparente apenas o bem aparado cabelo nas laterais da cabeça, e usava também um cerrado bigode, que lhe dava uma aparência imponente e escondia a figura amável e carismática que ele realmente representava para todos os outros militares.  
A enorme platéia era composta de um grupo de distintos jovens, usando becas pretas, e também de militares de várias patentes que, assim como o General, usavam suas fardas brancas, de gala.
Mais a frente, acima do palanque de onde o General recitava seu discurso, podia-se ver uma grande faixa onde estava escrito “Formatura da 148ª Turma de Cadetes da Estação 2000”.

...

- Você já era Jakarta, vou te abater pela segunda vez no mesmo dia! – Disse Jonathan Trust, dando uma gargalhada maliciosa enquanto puxava as duas alavancas do manche com velocidade pra perto do corpo.

Jonathan A. Trust era um jovem corajoso e muito habilidoso em combates, tanto espacial quanto corpo a corpo, mas seu jeito impulsivo de agir já havia lhe trazido alguns problemas durante os anos na disciplinada Academia Militar da Força Aeroespacial. Apesar de sua indisciplina, sua habilidade em combate e também sua impetuosa Capacidade de liderança nos treinamentos em grupo garantiram-lhe a admiração dos antigos combatentes e atuais professores. Era alto e de corpo forte, devido aos intensos treinamentos na academia, e seu cabelo, escuro e bem curto, não deixava dúvidas de que era realmente um militar. Jonathan dificilmente assinava ou mencionava seu nome do meio e muitos nem sequer chegaram a conhecê-lo. Seus amigos costumavam chamá-lo apenas de Jat.
A nave que ele pilotava era uma espécie de caça de cor púrpura, muito veloz e Capaz de realizar manobras evasivas com extrema eficiência. Assim como todas as naves na estação esta possuía o nome de uma letra grega, Delta, e suas asas, sendo uma com o dobro do tamanho da outra, foram projetadas especialmente para garantir um maior desempenho nas manobras evasivas por consequência da inércia gerada pelas mesmas no espaço. Outra característica que garantia grande agilidade aos Deltas era o seu eixo rotativo, que permitia às asas girarem em todas as direções em torno do cockpit, que podia ser tripulado por até quatro pessoas.

Após o puxão no manche o caça Delta de Jonathan subiu em trajetória circular até completar um circulo completo e assim se posicionar exatamente atrás de outro Delta. Jonathan então acionou os dois gatilhos presentes no manche ao mesmo tempo, disparando dois tirou simultâneos na nave a sua frente.
- Ha, ha, ha – Simulou a voluptuosa Jakeline Jakarta, uma risada debochada - Essa é minha vez Jat! Você pode ser muito bom com os Kappas, mas os Deltas são muito rápidos pra você. – Disse se referindo a naves cargueiras da estação, conhecidas pela letra grega Kappa.

Eximia combatente, Jakeline Jakarta era talvez a única da frota capaz de competir em igualdade com Jonathan, mas suas qualidades não se resumiam apenas ao combate. Morena esbelta de cabelos bem escuros e olhos verdes oliva, possuía atributos invejados pelas mulheres e desejados pelos homens. Suas belas feições roubavam olhares cobiçosos por onde quer que passasse.

Ela girou o manche trezentos e sessenta graus para a esquerda e o puxou com força para o corpo, e então as asas da nave giraram para a esquerda, em torno do cockpit, deslocando a nave para a mesma direção. Jonathan só pode ver seus tiros passando pelo Delta de Jakarta e se perdendo no espaço.
O puxão que ela deu no manche após a primeira manobra permitiu que a nave desacelerasse e que o outro Delta passasse por ela com velocidade. Jakeline então executou outro giro, dessa vez para a direita, se posicionando exatamente atrás da nave de Jonathan.
- Bye bye, gatinho! – E Jakarta disparou vários tiros intermitentes.
Jonathan não teve tempo de pensar em nada, sua nave foi atingida em cheio e ele só pode ver uma pequena explosão, que rapidamente foi consumida pelo vácuo, em sua asa maior, agora posicionada à sua esquerda. O impacto fez toda a nave tremer e os motores, forçados ao máximo para compensar as avarias, emitiam um som agudo e irritante. Jonathan segurou firme o manche tentando estabilizar a nave quando, de repente, todo parou.
Jonathan e Jakarta ouviram o som dos estressados motores de suas naves sendo desligados. Diante de seus olhos o espaço desapareceu e no seu lugar surgiu uma luz branca muito clara.
Jonathan tirou os óculos de proteção e os atirou contra o painel:
- Maldição! Quem desligou o simulador?
- Veja só se não são Jonathan Trust e Jakeline Jakarta. – Disse sarcasticamente o Tenente Adolf Stolz, que ainda segurava a chave usada para desligar os simuladores. – Se formam hoje e não tem o mínimo de responsabilidade. Voltem agora mesmo para a festa ou terei de prendê-los. Não me admira que vá para o Lixo, Trust.

O arrogante Tenente Adolf Stolz, desde o ingresso de Jonathan na academia, havia sido seu principal rival, e muitas vezes o motivo de ele ser punido por sua indisciplina. Stolz sempre foi muito disciplinado em todos os assuntos relativos à academia, tendo sido considerado pelos professores e outros membros do conselho militar um dos melhores alunos e um militar exemplar, mas, devido ao seu orgulho e vaidade, Adolf Stolz não era capaz de aceitar que alguém tão inconsequente, irresponsável e relaxado como Jonathan Trust pudesse vir a se tornar um militar e ainda superá-lo nos combates, caindo assim nas graças dos professores. Adolf era um rapaz alto, forte e bem apessoado, sua farda costumava estar sempre impecável, sua barba sempre bem feita e seus cabelos negros de um brilho azulado, estavam sempre curtos e bem penteados, porém, mesmo portando tal beleza, nunca pode superar o sucesso de Jonathan com as mulheres, o que lhe aumentava ainda mais o ódio e a frustração.

Jakarta segurou o braço de Jonathan, que já estava prestes a partir pra cima de Adolf.
- Não vale à pena Jat.
Jonathan olhou pra ela e compreendeu que começar uma briga agora, na véspera de suas formaturas, realmente seria estupidez, e saiu do centro de simulação a passos firmes, esbarrando propositalmente no Tenente Stolz.
Jakeline saiu logo atrás de Jonathan, e ele, ao perceber que ela o havia alcançado, disse em tom raivoso:
- Um ano... Ele se formou um maldito ano antes de nós e já acha que pode abusar da patente.
Jakeline segurou a ponta do queixo de Jonathan e respondeu:
- Calma, gatinho, nós nos formamos hoje. – Piscou o olho direito, ficou na ponta dos pés e beijou-lhe a boca.

...

Apesar das poucas conversas paralelas, o grande salão de bailes permanecia em silêncio para prestigiar o belo discurso preparado pela oradora da turma. Os militares, professores e formandos escutavam atentamente suas palavras e sentiam-se orgulhosos pelas honrarias e agradecimentos pronunciados por ela.

- Meus parabéns! – Disse o General McCartney se aproximando de Jonathan com dois copos de uísque nas mãos. – Soube que assumirá sua própria nave.
- É só o Lixo, senhor. – Respondeu Jonathan pegando um dos copos que o General lhe ofereceu.
- O Lixo me deu várias dessas, meu jovem. – O General apontou para as medalhas no peito. – E seu pai também teve uma brilhante carreira militar por lá.
- Também foi lá que ela terminou. É por isso que hoje ele está naquela cadeira sem poder se levantar, e se não fosse sua amizade por ele, provavelmente ele já estaria vagando no espaço, senhor.
 - Eu o vi crescer e sei que tens um futuro brilhante pela frente, filho. Não deixe que a opinião dos outros te influencie, pois são poucos os que têm o privilégio de assumir uma nave logo após a formatura. Não encare o Lixo como um desafio, mas sim como uma oportunidade.
Jonathan não soube o que responder, apenas concordou com um movimento de cabeça.
- Já sabe quem será sua tripulação? – Prosseguiu o General.
- Não, mas gostaria de indicar alguém como piloto. – Disse Jat, tomando aquele momento como uma verdadeira oportunidade.
- Jakarta? – Arriscou o General, acreditando ter acertado. – Você conhece a política, Jonathan. Sabe que não posso colocar namorados juntos na mesma tripulação.
- Sei disso senhor, e não é de Jakarta que estou falando. Quero Rizzo como meu piloto. – E apontou para o amigo, que estava sentado despojadamente em outro canto do salão, gargalhando de uma piada qualquer.
- Giovanni Rizzo nem se formou ainda.
- E já foi considerado o melhor piloto da frota. Ele passou pro último ano, pode compor a missão como estagiário até que se forme e então assuma o posto oficialmente.
- Que seja então, mexerei meus pauzinhos pra colocá-lo com você. Mas, traga-o de volta a salvo pra formatura.
Jat sorriu.
- Ah, já ia me esquecendo. – Lembrou-se o General. – Você também precisa de um cientista no grupo, e eu tomei a liberdade de indicar uma pessoa. Também se forma hoje, e fiquei realmente impressionado com o trabalho que vem desenvolvendo e seus resultados acadêmicos.
Jonathan pode sentir que a resposta não o agradaria, mas perguntou assim mesmo.
- De quem estamos falando, senhor?
- Helena Dias. – E o General apontou para o palanque, de onde a oradora da turma finalizava seu discurso.

 De fato a resposta não agradou. Helena Dias a certinha, a estudiosa, a boa menina, a insuportável, era alguém que nunca aceitaria o desleixo dos dois outros tripulantes da nave, mas tendo o General se disposto a incluir seu melhor amigo na tripulação, qualquer que fosse o cientista indicado, Jonathan não teria coragem de recusar.
Helena não suportava o total descompromisso com que Jonathan e seus amigos levavam a vida, e o General McCartney sabia disso. Sabia também que ela jamais permitiria à missão seguir desordenada, imporia sua opinião, e esse conflito de diferentes opiniões amadureceria tanto Jonathan quanto ela mesma, por este motivo ele a havia indicado.
Helena não era tão virtuosa quanto Jakeline Jakarta e nem mesmo foi uma das garotas mais populares da academia, seus atributos eram mais modestos, mas sua beleza recatada de forma alguma podia ser contestada. Tinha cabelos bem lisos e num tom castanho avermelhado, de aspecto vivo e lustroso, que costumava usar preso como rabo de cavalo. Sua pele era bem clara e tinha algumas poucas sardas no rosto, seus olhos eram verdes como esmeraldas e seu corpo atlético roubava a atenção dos homens e os deixava sem fala. Isso quando ela não estava usando o velho jaleco branco de laboratório e os óculos, de baixo grau, porém de grossa armação preta, que costumava usar. Importava-se mais com seu trabalho do que com a própria aparência, portanto era sua sorte que a natureza lhe havia sido generosa. Nunca foi de dar muita liberdade aos homens, principalmente aos garanhões como Jonathan Trust. Sentia-se indignada com a facilidade com que os garotos conquistavam as mulheres na academia. Corpos fortes não a impressionavam, considerava-se uma mulher de valor, uma mulher que não se entregaria a qualquer relação sem futuro, digna de uma verdadeira demonstração de amor, de um verdadeiro trabalho hercúleo para conquistá-la.

- E aí, estagiário? – Disse Jonathan, dando um leve tapinha na cabeça de seu amigo Giovanni Rizzo, que estava sentado junto a outros estudantes.
- E aí, seu trouxa? – Respondeu Giovanni, oferecendo um copo de cerveja a Jonathan. – O que você disse? Estagiário? – E levantou a sobrancelha esquerda com cara de dúvida.
- É isso mesmo, agora eu posso mandar em você. Você será o meu piloto no Lixo. – E Jonathan levantou o copo chamando um brinde.
- Caramba! Digo, digo... É uma honra, senhor comandante. – Disse Giovanni, estufando o peito e simulando uma continência. Depois gargalhou alto e brindou, chocando o copo contra o de Jonathan. – Vem cá, você é foda! – Levantou-se e abraçou o amigo. – Vamos tomar mais uma pra comemorar?
- Mais tarde, irmãozinho. Tenho que dançar uma valsa agora.
- Valsa? Com quem? – Perguntou Giovanni admirando-se que seu amigo soubesse dançar valsa e que realmente se dispusesse a isto a ponto de perder uma rodada de cerveja.
- Com a cientista membro da tripulação. – Jonathan torceu o nariz enquanto apontava pra Helena, que dançava com Adolf Stolz.
- Helena Dias e Adolf Stolz. Não sei qual dos dois seria pior.
- Stolz seria pior. Helena pelo menos é mulher. – Respondeu Jat, com um leve sorriso no canto da boca.

Se Jonathan era tido como relaxado, Giovanni tinha uma fama ainda maior. Era um brincalhão, não levava nada a sério, a vida pra ele era algo simples de se lidar, costumava dizer que o melhor a se fazer era deixar as coisas correrem naturalmente e que não valia à pena se preocupar com o que ainda não aconteceu. Sua única real responsabilidade eram os treinos de pilotagem, dedicava-se avidamente a se tronar um piloto profissional. Giovanni era o estudante com mais horas de vôo na academia, tendo mais até que outros militares recém formados, e no penúltimo ano da academia foi considerado, em um concurso promovido pela administração da Estação 2000 e aberto a todos os pilotos da estação, o melhor piloto da frota. Giovanni era um pouco mais baixo que Jonathan e também mais magro, pois não se dedicava tanto aos exercícios físicos, era loiro e seu cabelo também era mantido bem curto, não por sua própria vontade, mas sim por normas militares. Usava costeletas e um cavanhaque unanimemente condenado pelos militares de altas patentes e conservadores da academia, mas ele não se importava com isso, sabia que um piloto tão habilidoso não podia ser descartado tão facilmente.
   
A música não era de fato uma valsa, e sim uma antiquíssima música romântica da banda Whitesnake, agora interpretada pela Banda da Academia Militar em conjunto com a Orquestra Sinfônica da Estação 2000. Seu nome é “Is This Love”.
- Com licença, é minha vez. – Disse Jat colocando sua mão direita sobro o ombro de Adolf Stolz. Stolz franziu o cenho, mas soltou a mão da parceira de dança. Helena suspirou, aliviada por se livrar da desagradável companhia de Adolf, e bufou irritada, quando Jonathan segurou sua mão. – Me concede essa dança?
- Sai de cena um ruim e entra um pior. – Disse Helena descontente, mas aceitando o convite.
- Não se empolgue muito, o privilégio desta dança não é pra te agradar, ou causar inveja nas suas amigas nerds. – Debochou Jat. Helena apenas virou os olhos pra cima e emitiu um “hum”, desaprovando a pretensão do garoto. – No entanto, estou aqui pra lhe dar uma boa notícia. Terá de me agüentar por muito mais tempo do que pensa. Será a cientista de nossa tripulação. – Ele anunciou com uma empolgação sarcástica, como se essa fosse a melhor notícia que já anunciara em toda sua vida.
“I need you by my side, tell me it´s alright”, cantou um dos vocalistas da banda, e Jat segurou a mão de Helena, levantou-a e girou sua parceira de dança na pista em um singelo passo não ensaiado. 
- Não acredito nisso. Tenho trabalhado tanto nos projetos genéticos, por que fui mandada pro Lixo? De onde veio essa ordem? – Perguntou Helena com certo ar de indignação.
- Do General McCartney. – Respondeu Jat. E ambos olharam desapontados pro General. Helena também não ousaria discordar dele, todos respeitavam sua opinião.
- Aliás, genética num é um bom ramo pra se basear uma carreira. Sua aplicação se tornou quase inútil depois da Seleção Natural. – Emendou Jat, que, sentindo certa cumplicidade no desgosto pela indicação, tentou manter uma conversa em tom amigável.
- Não há nada de inútil no desenvolvimento genético. Permitir-nos garantir que todos nasçam saudáveis e sejam assim pelo resto da vida é algo simplesmente grandioso. A Seleção Natural é uma crueldade que, se dependesse de mim, já teria cessado. – Revoltou-se Helena, com algo que já não era mais a simples presença de Jonathan. – Me diga você, o Lixo é um bom lugar pra se constituir uma carreira?
- Bom, o General disse que pode ser uma boa oportunidade... – Começou Jonathan, mas não pôde concluir a frase, pois Jakeline abraçou-o, olhou bem nos olhos de Helena e disse:
- Querida, você já abusou demais... Ele agora é meu! – E puxou Jonathan para si continuando a dança. Helena sacudiu a cabeça, como quem não acredita no que acabou de ouvir, e deixou-os na pista.
Então Jonathan abaixou a cabeça até que sua boca estivesse próxima ao ouvido de Jakeline e propôs, cochichando:
- Que tal irmos pra algum lugar mais reservado?
- Que tal atrás do palanque? – Respondeu Jakeline, semicerrando os olhos e mordendo levemente os lábios.


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