quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 8 – Estação 3000


Aquele colossal e indistinto borrão escuro em meio ao espaço foi aos poucos tomando forma à medida que a Creedence se aproximava. Olhando para o topo já era possível identificar a cúpula translúcida que, como na Estação 2000, devia abrigar um belíssimo jardim de indescritível diversidade floral. Era uma estação de fato, porém, muito estranhamente, aquela figura gigante, robusta e imponente, sempre iluminada pelas milhares de janelas que, vistas do exterior, se assemelhavam a pequenas luzes em uma árvore de natal, padecia apagada e sem vida. Seu exterior se apresentava sujo e envelhecido, como se durante muitos e muitos anos tivesse sido submetida a mais cruel entropia. Aproximando-se mais, pouco antes de adentrarem a câmara de descompressão que antecedia os hangares, a tripulação da Creedence pode ler a borrada inscrição, que insistiu em permanecer sobre a deteriorada estrutura metálica, “International Space Station – Alfa 3000”.

- Peguem suas armas. – Recomendou Jonathan. – Não sabemos o que há lá fora.
A tripulação da Creedence desceu da nave com desconfiança, em meio à atmosfera lúgubre do hangar, tão escuro que nada se podia enxergar. Jonathan, com o revólver guardado no coldre axial, segurava firmemente um fuzil MD-97LC. Deixara sua AK-47 com Helena, que, apesar de não ter muita prática em atirar, sentia-se mais à vontade com ela. Giovanni trazia seu M-16 e Mercedes se atrapalhava toda, segurando um fuzil PARAFAL.
- Como é que se segura isso? – Tentava passar a alça, enroscada em seu braço e pescoço, sobre a cabeça, enquanto com a outra mão segurava a coronha do rifle. – Como é pesado!
- Vem cá. – Giovanni ajudou a posicionar a alça do rifle sobre o ombro de Mercedes. – Se precisar atirar, apóie a coronha contra o ombro assim... – Ele mostrou-a, posicionando a arma contra o ombro dela. – Segure firme a parte de baixo, aí é só apertar o gatilho. – Concluiu sorrindo.
- Mire na barriga. Assim, com o recuo da arma, talvez você acerte a cabeça. – Complementou Helena. – Sempre dá certo nos treinos.
Lanternas estavam acopladas as armas, de forma que podiam enxergar o que estava a sua frente ao caminharem furtivamente pela vasta escuridão do hangar. Jonathan ia à frente, às vezes acenando para que o seguissem e não o perdessem de vista. O enorme hangar estava aparentemente deserto, pois muitas das naves que ali deveriam estar estacionadas, ao retornarem de suas missões e sem conseguir estabelecer comunicação com a Estação 3000, foram recolhidas e integradas à frota da Estação 2000. Era possível ver algumas pouquíssimas naves ainda estacionadas, mas tão velhas e deterioradas que, de certo, não podiam mais sair em missão.     
- Fazem quase cento e trinta anos que a 3000 desapareceu, mas essas naves parecem não voar a vários séculos. – Observou Jonathan.
- Não só as naves, mas toda a estação parece ter sido desativada. – Emendou Giovanni. – Onde estão as pessoas? As luzes? O movimento?
- Mas cento e trinta anos é tempo pra caramba, não é? – Estranhou Mercedes.
- Sim, mas não o suficiente pra uma estação perecer. – Respondeu Helena. – As estações são subsistentes, conseguiriam agüentar mais do que isso, até mesmo sem as expedições Kappa.
- Alguma coisa muito estranha aconteceu por aqui. – Concluiu Jonathan, com ar de desconfiança. – Só não sei se devemos ficar e descobrir o que foi.
- Ei, Jat. Dê uma olhada nisso. – Giovanni apontava o facho de sua lanterna em direção a duas naves em perfeito estado.

Jonathan espantou-se ao contemplar a Sigma e o Delta de Jakarta. Os quatro então correram em direção as naves, Helena um pouco mais lenta devido à barriga um tanto incomoda, com esperança de encontrarem alguém. Naquele ambiente inóspito até a presença de um rival, como Adolf Stolz, seria bem vinda.
- Eles devem ter chego pouco antes de nós, onde será que estão? – Questionou Giovanni, estranhando, ao se aproximarem do Delta.
Adentraram a nave, ainda segurando suas armas com firmeza, e vasculharam o cockpit, procurando por algo que pudesse explicar aquela situação, mas o caça estava completamente vazio.            
- Não há nada aqui. Vamos sair logo desse lugar. – Disse Helena. – Estou com uma sensação ruim sobre tudo isso.
- Espere um pouco, parece que tem alguma coisa aqui. – Jonathan percebeu um pequeno LED piscando no painel da nave.
Ele pressionou o LED e instantaneamente a imagem de Jakeline Jakarta apareceu num pequeno monitor de vídeo, posicionado sobre o painel. Jakarta exibia uma fisionomia muito séria e aparentava estar impressionada com o que via, olhando fixamente para frente, enquanto transmitia a mensagem:
- Jat, na escuta? Responda! Perdi seu sinal, mas encontramos a Estação 3000. Stolz declarou trégua e estamos prestes a adentrar o hangar. A estação parece estar totalmente abandonada.
Um chiado alto interrompeu a transmissão e fez com que todos recuassem surpresos com o barulho repentino, mas alguns segundos depois o chiado parou, exibindo uma nova Jakeline Jakarta, com rosto sujo e levemente ferido, desesperada, ofegante, suada e chorando.
- Jonathan cadê você? Stolz está morto e eles estão atrás de nós... – Ela olhou por cima do ombro, como se desconfiasse da aproximação de alguém. Inspirou profundamente e expirou antes de concluir. – Ouça essa mensagem, por favor... Precisamos de você, Jat!
Jonathan estava perplexo, sua mente ainda não conseguira assimilar a mensagem que acabara de assistir.
- Eles foram atacados... – Ele resmungava consigo mesmo. – Mas quem teria feito isso? A estação está deserta, devastada... – Sua mente revirando-se, procurando possibilidades. – O que atacou a estação?
- O tempo, meu rapaz. – E todos se viraram em direção à voz grave, anunciando que a estação não estava tão deserta quanto pensavam. - O tempo destruiu nossa estação!

...

Pendendo no ar, presos pelos pulsos, em meio à similar, na Estação 3000, da sala de tortura do Pavilhão de Reabilitação da Estação 2000, estavam, lado a lado, Helena, Jonathan, Giovanni e Mercedes. Haviam sido subjugados por algum tranquilizante e trazidos inconscientes até aquele lugar. Mercedes aparentava ser a mais abalada. Suas memórias sobre aquele lugar lhe causavam calafrios, só a hipótese de ser submetida a torturas novamente já era suficiente pra lhe desesperar. Jonathan e Helena procuravam permanecer calmos, centrados. Procuravam entender a situação e arquitetar um plano de fuga. Giovanni se debatia furioso, tentava inutilmente se soltar, mas parou assim que ouviu a aproximação de um grupo.
A imagem que contemplaram era incompreensível. O grupo que se aproximava tinha estrutura corporal humanóide, mas, de forma muito bizarra, tinham estatura baixa, sendo pouco mais altos que crianças de doze anos, eram extremamente magros e suas cabeças desproporcionalmente grandes. Não usavam qualquer tipo de vestimenta ou acessórios, exibindo um corpo esguio de pele acinzentada e macilenta. Alguns, posicionados nos flancos do grupo, carregavam apenas as armas que antes estiveram no poder da tripulação da Creedence, encarando os prisioneiros com seus enormes olhos escuros e vítreos.
- O que são vocês? O que fizeram com nossos amigos? – Esbravejou Jonathan.   
- Somos o seu futuro, Jonathan Trust. – Respondeu, com a mesma voz grave ouvida anteriormente, o ser que se apresentava a frente do grupo. Apesar de grave, seu tom de voz era sutil e diplomático. – Mentes independentes, dotadas de um conhecimento inigualável, operando juntas como uma consciência única.
As pequenas fendas, que naquela pequena criatura estavam onde deveriam estar suas narinas, se abriram inspirando profundamente. Ele parecia estar ponderando sobre como iniciar uma longa história.
- A Estação 3000 esteve perdida durante tanto tempo que só aqueles que aqui viveram são capazes de assimilar. Todas as comunicações desapareceram, a maior parte de nossa frota já não podia nos apoiar, expedições de busca foram enviadas, mas retornaram em total insucesso. Era como se estivéssemos a anos luz de qualquer vida no universo, impotentes e a mercê de nossa própria sorte. Aos poucos os recursos da estação foram se esvaindo e, por não sabermos a localização da Terra, as expedições Kappa não eram mais possíveis, logo a economia de recursos se tornou nossa única opção. Primeiro foram canceladas todas as expedições, depois os reatores da estação desativados. A estação já não se movimentaria mais, poupando combustível e revertendo suas fontes de energia somente para o bem-estar de sua população. A escassez só aumentava, privando-nos cada vez mais de qualquer tipo de conforto. Certas comodidades eram deixadas de lado para dar espaço a outras mais vitais, como, por exemplo, a iluminação, que teve de ser suprimida para que pudéssemos manter a climatização da estação. – Com uma curta pausa na fala o estranho humanóide fitou aqueles quatro prisioneiros, de aspecto tão diferente, que estavam a sua frente. – É claro que todas essas mudanças, juntamente com o domínio sobre manipulação genética, contribuíram fundamentalmente para a evolução de nossa espécie. Geração após geração as mudanças foram se intensificando, tornando-nos o que somos hoje. A falta de iluminação proporcionou o desenvolvimento dos nossos olhos, tornando-os sensíveis a luz, mas permitindo maior capacidade de visão na penumbra em que vivemos. Não necessitando mais se expor a luzes fortes, nosso organismo também deixou de produzir melanina e consequentemente nossa pele se tornou acinzentada. – Obviamente ele detinha o conhecimento sobre o antigo aspecto humano, mas aquelas fisionomias, as mesmas que em toda sua vida ele só tivera a oportunidade de ver, pessoalmente, uma única vez antes daquela, quando Stolz e Jakarta chegaram à estação, ainda lhe despertavam curiosidade. – Chegamos a uma situação tão crítica que fomos obrigados a sacrificar nossos próprios iguais para que a missão pudesse continuar. – Nesse momento foi possível notar um esboço de sorriso sarcástico no seu fino e miúdo lábio, provavelmente adquirido devido á dieta unicamente baseada em alimentos sintéticos, do ser que falava. – À época, isso já não era um problema tão grave. Devorar bebês e lançar velhos no espaço durante tanto tempo acabaram por nos amadurecer, tornando-nos absolutamente livres de sentimentalismos. Tornamo-nos lógicos, objetivos, e dessa forma, a prática sexual passou a ser meramente reprodutória. Posteriormente, com as medidas extremas de contenção populacional, que já há muito tempo limitavam a atividade sexual, juntamente com o avanço da ciência genética, capaz e criar em laboratório seres perfeitamente saudáveis e também definir suas características ainda em fase embrionária, essa prática tornou-se completamente inútil. A evolução tratou então de eliminar as diferenças sexuais fisiológicas entre os seres de nossa espécie, tornando-nos indistintos e assexuados. – Essas palavras deixaram os prisioneiros boquiabertos, mas sua expressão de incredulidade não abalou aquele que falava. – Os membros das classes científicas, devido a sua maior capacidade intelectual, foram oportunamente selecionados como os mais favoráveis a sobreviver, e o foco no desenvolvimento intelectual bem como a indiferença e baixa necessidade de desenvolvimento físico, proporcionaram a expansão do nosso volume cerebral e também a atrofia de nossa musculatura corporal. – Mais uma vez ele pausou, buscando retomar o assunto inicial, que se perdera em meio à explicação. – A situação da estação era irreparável, estávamos condenados a ver a extinção de nossa espécie superior, até que uma última centelha de esperança surgiu. Os estudos sobre o estranho fenômeno, que nos lançou no espaço desconhecido, finalmente deram resultado. Nossos cientistas conseguiram isolar e controlar as propriedades da fenda espaço-temporal que os trouxe aqui, desenvolvendo o audacioso dispositivo que chamamos de Cronos, o que torna possível viajar através dela para qualquer ponto no espaço e tempo. Por infortúnio, assim como no sistema de Check Points, não podemos transportar uma estação com esse dispositivo, e as naves que nos restaram, há muito tempo não têm condições para assumir missões, mas assim que seus amigos chegaram nossas esperanças foram renovadas. Fomos presenteados com duas novas naves e finalmente teríamos recursos disponíveis para atacar a Terra, em uma época em que sua tecnologia estivesse em pleno desenvolvimento, mas que não fosse suficiente para que revidassem. – Apesar do que ele disse sobre a total isenção de sentimentos de sua espécie, os tripulantes da Creedence puderam perceber um baixar de sua cabeça que transparecia arrependimento ou tristeza, antes que aquele distinto ser prosseguisse com o que dizia. – Enviamos uma missão de reconhecimento a Terra que acabou custando a vida de um importante representante de nossa espécie. Ele foi capturado, morto e dissecado em estudos científicos, mostrando-nos a crueldade dos humanos e sua total inaptidão para continuar no controle do planeta, guiando-o rumo aos seu declínio total. Felizmente, o segundo tripulante da missão conseguiu escapar com informações suficientes sobre os seres humanos, para planejarmos e determinarmos qual a época e também os pontos principais de ataque.
Giovanni, que escutava o discurso atentamente, não se conteve ao ouvir a teoria sobre viagem no tempo e retrucou:
- Mas se vocês voltarem no tempo e destruírem a raça humana vocês também deixarão de existir. Você nunca assistiu De Volta Para o Futuro?
O inexpressivo ser fuzilou Giovanni com seu enorme e negro olhar, desaprovando a interrupção, mas continuou com o discurso, inabalado.
- Uma teoria muito interessante se aplicada à ficção, mas sendo este nosso presente, se formos para o passado o próprio passado passará a sê-lo, um presente onde já existimos e consequentemente de onde não podemos simplesmente desaparecer. Assim podemos reescrever nosso passado a partir do presente criando um novo futuro. Um pensamento que pode ser demasiado complexo para suas mentes primitivas compreenderem.
Uma nova interrupção aconteceu, mas dessa vez foi um dos representantes daquele bizarro grupo, que adentrou a sala apressado e cochichou algo próximo ao pequeno orifício localizado onde deveria estar a orelha daquele que estava a dianteira da comitiva. 
- Sua nave está nesse momento sendo equipada e programada para a viagem á Terra. Com ela são agora três naves compondo nossa frota de ataque. – Ele continuou, após dispensar o, aparente, subordinado. – O material radioativo que restou dos reatores da Estação 3000 foi convertido em seis ogivas nucleares, que foram distribuídas proporcionalmente em suas naves. Uma no caça, duas no cargueiro e três no cruzador. Com elas vamos atacar as capitais das principais potências do planeta, desestabilizando completamente seus governos e subjugando totalmente seus habitantes. Hoje nossa população é incontavelmente menos numerosa do que foi um dia, mas juntos repovoaremos a Terra com essa nova raça humana, uma raça de seres superiores e realmente capazes de fazer o planeta prosperar. – Seu tom de voz se elevou ao proferir essas palavras, transparecendo certo orgulho do que dizia. – Agora, Jonathan Trust, quanto á segunda pergunta que me fez... O que fizemos aos seus amigos? – Assumiu novamente um tom calmo. - Posso lhe dizer que se não tivessem revidado teriam prolongado suas vidas um pouco mais, assim como vocês. – Voltou a exibir crueldade no risinho praticamente inexpressivo de seus finos lábios. – É claro que seu material orgânico jamais deveria ser desperdiçado. Ainda mais sendo assim tão abundante. – E, antes de virar-se, referir-se ao seu próprio grupo e depois abandonar o recinto, ele apontou para a barriga gestante de Helena. – Preparem-na para a retirada do feto.

O grupo de criaturas acompanhou aquele que parecia liderá-los, para fora da grande sala de tortura e, dessa vez, foi Jonathan quem começou a se debater inutilmente.
- Precisamos sair daqui! – Ele esforçava-se, tentando suspender-se acima do grilhão que prendia seus pulsos.
- Eles não têm pinto. – Disse Giovanni com ar de total incredulidade. – Sem sexo, vocês conseguem acreditar nisso?
Apesar da tensão do momento, Jonathan não conseguiu manter-se suspendido e, assim como as grotas, nem mesmo conter a risada.
Infelizmente a descontração durou pouco. Logo após a piada, duas daquelas criaturas adentraram a sala, um deles portando o rifle PARAFAL que outrora estivera em posse de Mercedes. Pararam em frente ao grupo de prisioneiros e, enquanto o que portava a arma a apontava sucessivamente para cada um dos outros três, o desarmado soltava o grilhão preso aos pulsos de Helena.
- Meu filho não! – Helena gritava e se debatia. – Me solte! Vocês não podem pegá-lo!
Jonathan não podia admitir que Helena fosse levada e nem mesmo que seu filho fosse abortado, sentia-se no dever de agir e então se balançou na direção do guarda armado, prendendo sua cabeça, desproporcionalmente grande, entre suas pernas, como uma tesoura, e apertando seu pescoço a ponto de quase quebrá-lo.
Ao contemplar a cena, o outro que acabara de soltar Helena pegou a arma das mãos de seu companheiro e apontou para a cabeça da garota.
- Solte-o! – Disse olhando fixamente para Jonathan. – Pra mim não fará diferença matá-la agora ou depois, mas tenho certeza de que não desejas vê-la morrer na sua frente.
Com o rifle apontado para sua cabeça, Helena automaticamente parou de se mexer, olhava para Jonathan, atemorizada e sem saber o que dizer. Só a idéia de ver Helena morta já era suficientemente torturante para Jonathan, ele jamais seria capaz de arriscar sua vida, então soltou o pequeno ser acinzentado, já a beira da inconsciência.
Helena foi levada sob custódia para fora da sala, deixando Jonathan, Giovanni e Mercedes totalmente apreensivos.
- O que eles vão fazer com ela? – As lágrimas escorriam abundantemente pelo rosto de Mercedes. – O que vai ser de nós?
Giovanni tentava encontrar palavras para consolar Mercedes enquanto Jonathan se debatia ainda mais violentamente, tentando se soltar. Lágrimas contidas marejavam seus olhos.
- Preciso sair daqui... Ah! Meu filho... Uh!
De repente o som de coisas se quebrando vindo do lado externo da sala fez com que os três parassem e prestassem atenção. Era como se do outro lado da porta estivesse acontecendo uma briga de bar, e o som de uma rajada de tiros só aumentou ainda mais o seu temor.
Como se nada de estranho estivesse acontecendo, Helena, com um pequeno corte no cato da boca, entrou na sala, segurando o rifle em uma das mãos e algumas chaves na outra.
- Helena! – Exclamou Jonathan, emocionado ao vê-la em perfeita integridade física.
- O que houve? – Perguntou Giovanni, também espantado.
- Esses cabeçudos são uns fracotes! – Sorriu Helena, correndo para soltar os amigos.
- Você deu uma surra neles? – Sorriu também Mercedes, ainda com o rosto molhado pelas lágrimas e a maquiagem escura borrada em torno de seus olhos. – Sensacional!
Todos estavam soltos e ainda massageavam os pulsos feridos quando Helena recomeçou a falar:
- Eles sentem um ao outro, sabem quem somos e podem até prever alguns dos nossos movimentos. Talvez possam até se comunicar através do pensamento, é a tal da consciência única e blá, blá, blá.- Ao dizer isso ela engrossou a voz e fez uma careta, imitando o líder de voz grave daquela nova raça humana. - Temos que agir rápido. Nossas armas estão na outra sala.
- Vamos pegar a Creedence e fugir logo deste inferno. – Disse Jonathan, obstinado.
- Fugir pra onde, cara? Não temos idéia de em que ponto do universo estamos. – Retrucou Giovanni.
- Mas sabemos onde podemos chegar. O tal do Cronos foi programado para levar as naves a Terra. Podemos atrasá-lo em alguns meses e, quem sabe, voltar pra casa antes que o tal ataque aconteça.
- Aquele cara disse que eles atacarão em uma época em que a Terra não tem tecnologia para o contra-ataque. Se vamos viajar no tempo, por que não viajamos direto para uma época em que os Check Points já existam?
- Acredito que no ponto do tempo em que estamos, onde o ataque ao passado é uma certeza, se viajarmos pra qualquer data posterior a ele, cairemos na realidade alternativa criada a partir da data do ataque, onde a Terra pode já ter sido dominada e as estações podem nem existir, enquanto que se voltarmos para uma data anterior ao ataque, a realidade ainda não terá sido alterada, possibilitando que de lá possamos viajar em nossa linha do tempo original para um ponto no futuro onde já existam Check Points. – Ao dizer isso, Jonathan acompanhou o rosto dos amigos assumirem uma expressão de total confusão. – Bom, pode ser que eu esteja errado, mas assim, pelo menos, ganhamos tempo. 
- Acho que faz sentido. – Giovanni coçava a cabeça enquanto olhava para Jonathan, com cara de dúvida. – Mas isso tudo é complexo demais pra minha mente primitiva entender.
- Vou pra qualquer lugar que vocês forem! – Anunciou Mercedes. – Só não entendo por que, sendo eles tão inteligentes e evoluídos, nos contaram todo seu plano antes de nos matarem.
- Apesar de todo seu conhecimento, eles não são tão evoluídos quanto pensam. Seu ego humano ainda precisa que os outros considerem suas idéias geniais. – Concluiu Helena.

...

Os quatro fugitivos recuperaram suas armas e deixaram o pavilhão de reabilitação. Se Helena estivesse certa sobre a ligação entre as mentes dessa desconhecida nova espécie, a essa altura as duas mortes na prisão já deviam ser de conhecimento dos outros, que logo estariam em seu encalço. Sendo, os habitantes da Estação 3000, capazes de prever certas ações humanas, seria difícil surpreendê-los, então o mais sensato a se fazer era evitá-los ou, caso isso não fosse possível, atacá-los sem hesitação. Isso era exatamente o que os quatro estavam fazendo enquanto percorriam furtivamente os corredores escuros da estação em direção aos hangares.
- Será que Vulcanos é um bom nome pra eles. – Disse Giovanni enquanto caminhavam em fila indiana. – Eles são lógicos e sem sentimentos... – Ao dizer isso levantou a mão direita e juntou os dedos dois a dois em forma de V. – Vida longa e próspera.
- Mas os Vulcanos têm orelhas pontudas e vêm do planeta Vulcano, não da Estação 3000. – Discordou Jonathan, rindo da comparação feita pelo amigo.
- Sim, mas Tresmilianos não parece um bom nome pra uma raça... Opa! – Giovanni segurou firme seu rifle e apertou fundo o gatilho, atingindo um dos, ainda sem nome definido, habitantes da Estação 3000, que transitava pelos corredores.
Aparentemente esses seres não estavam habituados a se armar, sendo alvos fáceis para Jonathan e sua equipe, mas ao transpassarem a grande porta que dava para os hangares, foram surpreendidos por um vulto atravessando correndo o escuro hangar, que ao vê-los emitiu uma rajada de tiros contra eles.
- Uow! – Gritou Jonathan, que estava à frente da fila. – Estão atirando contra nós, escondam-se!
Os quatro se esconderam atrás do enorme batente de metal, mas os tiros rapidamente cessaram e Jonathan apontou o facho da lanterna, presa a sua arma, em direção ao interior do hangar aparentemente deserto.
- Estranho, eu juro que vi alguém...
- Tenho um plano. – Interrompeu Helena. – Podemos nos dividir em duas naves, assim teremos mais chance de escapar caso eles nos sigam.
- Boa idéia. – Concordou Jat. – Mas devemos acionar o tal Cronos ao mesmo tempo pra que ninguém fique pra trás.
- Podemos fazer esse sincronismo pelo rádio. – Sugeriu Giovanni.
Mercedes apenas acompanhava atentamente o desenvolvimento da estratégia de fuga. Não ousava opinar sobre um assunto tão delicado e que fatalmente influenciaria no salvamento de suas vidas.
- Você e Mercedes ficam com a Creedence. – Prosseguiu Jonathan, segurando nos ombros de Helena. – Giovanni e eu vamos com o Delta de Jakarta. O ideal é que sigamos em direções diferentes, assim teremos mais chance de despistá-los.
- OK. – Responderam as duas mulheres do grupo em uníssono.
Jonathan então abraçou Helena e beijo-a calorosamente. Giovanni repetiu o gesto com Mercedes.
- Boa sorte! – Desejaram, dessa vez os dois homens do grupo também em uníssono, antes de se soltarem e correrem todos juntos em direção a suas respectivas naves.

As duas duplas embarcaram e acionaram os barulhentos motores quase que ao mesmo tempo. Ao se acenderem as luzes internas do Delta, Jonathan avistou, através da capota translúcida do cockpit, parada à distância, em meio à penumbra da outra extremidade do hangar, a estranha silhueta de algo que não reparara antes.
- O que é aquilo, irmão? – Ele apertava os olhos para focar melhor no objeto que avistara. – Parece com uma nave.
- Parece bastante com a Creedence. – Observou Giovanni, também apertando os olhos. – Não me lembro de tê-la visto antes.
Ambos olharam para a verdadeira Creedence, estacionada ao seu lado, se entreolharam e deram de ombros. Não tinham tempo para se preocupar com nave ou com qualquer outro objeto que estivesse parado ali.

- Creedence, QAP? – Jonathan chamou pelo rádio. – Confirme QRK.
- Alto e claro. – Respondeu Helena.
- A data configurada no Cronos é provavelmente a mesma do ataque, atrasem-na em quatro meses. – Ele continuou, após constatar que a comunicação fluía perfeitamente. – São quase três meses da Terra até o Kappa Zero Uno, mas creio que o Cronos deva nos deixar mais próximos da Terra do que isso, então teremos tempo suficiente de chegar a Terra e fugir de lá antes que eles cheguem. Carreguem o dispositivo assim que eu der o sinal, QSL?
- Positivo.

...

As duas naves voaram juntas e em sincronismo perfeito através do hangar e em direção a câmara de descompressão que ficava entre ele e o espaço exterior a estação. Ao adentrarem a câmara e antes que a gigantesca escotilha se fechasse atrás de suas naves, os quatro puderam notar um grupo numeroso de pequenos seres acinzentados chegando ao hangar. Esses, ao perceberem a quase concretizada fuga dos seus prisioneiros, correram, agrupados e determinados, como um enxame de abelhas, em direção a Sigma, parada bem próxima de onde as outras duas naves estiveram estacionadas, mas a escotilha se fechou antes que os tripulantes da Creedence e do Delta pudessem acompanhar o embarque.
Assim como combinado, as duas naves seguiram em direções diferentes com o intuito de despistarem possíveis seguidores, mas, ainda próximos a Estação 3000, ambos os tripulantes, de cada uma das naves, puderam ver a Sigma abandonando a estação à sua procura.
- Carregar dispositivo de viagem no tempo. – Jonathan comandou pelo rádio, e Giovanni imediatamente acionou o dispositivo.
Enquanto se distanciavam da estação, Jonathan percebeu que a Sigma os ignorava, indo diretamente em direção a Creedence, o que começou a preocupá-lo. Ele olhava impaciente para gráfico em forma de barras, exibido no display do Cronos, que informava o progresso da carga do dispositivo.
- Estão travando a mira em nós. – Jonathan ouviu a voz de Helena pelo rádio, mas não pôde ouvir o que ela disse em seguida, pois um chiado muito alto interrompeu a transmissão.
- Eles vão atirar contra elas. Precisamos voltar e dar cobertura. – Decidiu-se Jonathan, espontaneamente.
- O Cronos será ativado a qualquer momento. Não teremos tempo de evitar o ataque. – Discordou Giovanni. – Elas serão transportadas, ficarão bem. – Mas vendo, na fisionomia de Jonathan, que ele não abriria mão de sua decisão, balançou a cabeça negativamente... – Droga! – E puxou o manche com força, realizando uma manobra em loop.

A Sigma não atirava contra a Creedence, seu comandante apenas esperava que a mira estivesse perfeitamente posicionada para lançar um único e certeiro torpedo, quando, com um leve tremor, percebeu que sua nave estava sob ataque. Ainda distante, o caça Delta se aproximava em velocidade máxima, atirando ininterruptamente contra a Sigma.
- Ignorem o ataque. – Ordenou aquele que comandava a Sigma. – O poder de fogo do cargueiro oferece maior risco em um contra-ataque. Devemos neutralizá-lo o mais rápido possível.
O Delta logo estava sobre a Sigma, descrevendo uma trajetória circular em torno dela enquanto emitia rajadas de tiros intermitentes.
- Mira travada. – Reportou um dos tripulantes da Sigma, que notava o hexágono vermelho em torno da representação da Creedence em seu display tornar-se verde.
- Atirem! – Incitou o comandante.
Ainda atacando vigorosamente a Sigma, Jonathan observou, sem chance de reagir, o torpedo ser lançado em trajetória retilínea contra a Creedence. Instintivamente olhou para o gráfico em barras, já completamente aceso, anunciando que a carga do Cronos estava completa, e, em seguida, novamente em direção a Creedence.
Com uma grande explosão, Jonathan viu a nave, onde estavam sua esposa e a amiga, desaparecer em meio ao espaço a sua frente.
- Não! – Jonathan gritou, levando as mãos ao rosto e virando-o, tentando esconder-se daquela torturante visão.
Quase que instantaneamente após a explosão, o caça Delta foi completamente envolvido por uma luz arroxeada, que, após um rápido e forte flash, fez com que ele desaparecesse também.


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