quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 7 – Sigma


Apesar de suas proporções titânicas, em toda a Estação 2000, não havia melhor lugar para comemorações do que o Caos. A sujeira, a vulgaridade, a criminalidade e a atmosfera tenebrosa que o caracterizava era sempre desconsiderada quando se levava em conta o nível de entretenimento que só aquele lugar poderia oferecer.
Jonathan e Helena haviam finamente sido aprovados no exame dos seis meses, Mercedes livrara-se de seu rancor e, em um futuro próximo, herdaria uma pequena loja de variedades, e Giovanni possuía, talvez o maior dos tesouros, o afeto recíproco da mulher que amava. Enfim, todos tinham o que comemorar, logo, felizes, eles brindavam com seus copos cheios de chope, sendo os das garotas misturados com groselha.
- À nossa amizade! – Gritaram todos ao colidirem seus copos no ar.
Aquele lugar não trazia boas lembranças a Mercedes, mas a companhia das pessoas de quem gostava e também a motivação que os levava àquele que, de fato, era o melhor lugar para se divertir no Caos, a faziam desconsiderar os maus sentimentos que o lugar lhe trazia e se contagiar apenas pela alegria do momento que vivia. A situação era bem diferente do que outrora vivera ali, estava ali como cliente e não mais a trabalho, trajava-se decorosamente, era uma mulher respeitável e em breve estaria se casando.
Sobre o palco espelhado, que naquela noite não exibia o costumeiro mastro prateado, apresentava-se uma talentosa banda, que, trajando-se exatamente, até no corte de cabelo, como aqueles que pretendia imitar, tocava músicas da famosa, mas muito antiga banda de rock, The Beatles.
Ao ouvir a introdução da música “Twist and Shout”, Helena se levantou e puxou Jonathan pelas mãos.
- Eu adoro essa música. Vamos dançar?
Jonathan olhou para Giovanni como se pedisse socorro, mas o amigo apenas sorriu, se divertindo com o desgosto do amigo.
- É isso mesmo, vamos dançar. – Levantou-se Mercedes, também puxando as mãos de Giovanni, que ao olhar de volta para Jonathan percebeu que seu amigo parecia realizado, ao vê-lo ser convocado também.
Giovanni e Jonathan não eram exímios dançarinos, mas sabiam como conduzir bem suas parceiras, arriscando até mesmo alguns passos mais ousados e rodopios. Chamaram a atenção de outros frequentadores do Caos, alguns também militares, e logo a pista se encheu de casais dançarinos. O ritmo agitado de “Twist and Shout” foi então se tornando mais lento e quase que imperceptivelmente se transformou na melodia suave de “Lucy In The Sky With Diamonds”.
Distante da pista e próxima ao bar, Jakeline Jakarta observava, sozinha, os casais que dançavam, sentindo uma ponta de inveja e ciúmes.
A música parou de repente e todos olharam para a entrada da casa, de onde, com um estrondo alto provocado pelo arrombamento, começaram a entrar vários militares fardados e empunhando suas armas. A comitiva, de aproximadamente dez militares, era liderada por Adolf Stolz, que ao adentrar o recinto declarou em voz alta e presunçosa:
-Você está preso, Jonathan Trust, por contrabando de material ilegal vindo do Lixo.
Jonathan sabia que nenhum dos seus o trairia, logo o único que poderia ser responsabilizado por entregá-los era o próprio beneficiário do contrabando. Castro não pôde admitir ter sido ameaçado em seu próprio território e em frente aos seus subordinados, por isso permitiu que a negociação, importante para seus negócios, se concretizasse, mas esperou a hora certa chegar para contra-atacar. Conhecia a rixa que existia entre Jonathan e Stolz e sabia também que Stolz jamais perderia a oportunidade de incriminar seu rival, então tratou de deixá-lo de sobre aviso para que, quando a oportunidade chegasse, tivesse apenas de avisá-lo. Para sua infelicidade o tiro acabou saindo pela culatra.
 Adolf Stolz também se sentia humilhado por ter sido agredido, seis meses atrás, durante a festa em que comemorava sua própria promoção, e o prazer que sentia em finalmente se vingar de seu agressor era inigualável, mas algo de positivo incrustado em sua personalidade era seu respeito pela ética e disciplina militar, que jamais permitiriam que honrasse acordos com criminosos.
Ao poucos os clientes da boate foram encostando-se às paredes, ficando no centro apenas os acusados e a tropa que os fazia prisioneiros. Jonathan e sua tripulação, bem como Mercedes, tiveram os braços agarrados pelos militares, que os mantinham seguros às suas costas. Adolf Stolz continuava seu discurso em um tom de voz que não deixava dúvidas quanto a sua plena apreciação da situação.
- Esta casa está sendo fechada por prática de prostituição, e seus responsáveis também responderão pelos seus crimes perante a lei.
Castro se enfureceu ao ouvir aquelas palavras. Não poderia tolerar tal traição. Antes que os militares se dispusessem a prendê-lo, ele se afastou sorrateiramente, esquivando-se em seu escritório.
Jonathan tentava arquitetar alguma forma de escaparem daquela situação, mas foi Giovanni quem tomou a iniciativa.
- Mercedes não faz parte da tripulação. Deixe-a ir, Stolz!
Stolz sorriu sarcasticamente, não conseguindo conter a felicidade que preenchia seu ser.
- Ela não está presa pelo contrabando, mas sim por que é uma prostitutazinha medíocre. – Aproximou-se então de Giovanni e ao parar em sua frente abaixou a cabeça, cochichando ao pé de seu ouvido. – E isso eu mesmo pude comprovar.
A fúria que se apossou de Giovanni naquele momento não podia ser medida. Debateu-se, extraindo forças do próprio ódio, até conseguir se libertar dos dois militares que o seguravam e voar em direção a Adolf Stolz, segurando-o pelo colarinho da camisa e aplicando-lhe uma série de socos no rosto.
Jonathan, ao contemplar a cena, sorriu, vendo no ímpeto do amigo, que já montado sobre o corpo de Stolz, lhe deferia uma torrente de porradas sobre o rosto, a oportunidade de inverter a situação. Soltou-se também e, sem titubear, agarrou uma das cadeiras próximas com as duas mãos e golpeou energicamente os dois soldados que antes o seguravam. Stolz, imobilizado e caído sob Giovanni, só conseguia tentar defender-se com os braços de alguns poucos golpes em meio aos tantos que lhe eram aplicados.  
Todos os militares que acompanhavam Adolf Stolz se lançaram pra cima de Jonathan e Giovanni, que os enfrentavam como podiam, mas a antipatia por Stolz não era um privilégio de Jonathan e Giovanni, sua arrogância para com os subalternos lhe rendeu uma fama indesejada e algumas inimizades dentro do círculo militar, então, quando uma das cadeiras voou pelo salão caindo próximo ao seu grupo e quase atingindo um deles, alguns militares ali presentes, percebendo o tumulto e a disparidade de combatentes em cada lado da briga, não puderam se conter, lançaram-se também ao combate, armados com garrafas, pratos e tudo mais que puderam pegar de sobre as mesas.
Alguns outros homens, já bem alterados pelo álcool, simpatizaram pela causa de algum dos lados e também se envolveram na briga. Em pouco tempo, quase todos os homens presentes no bar estavam brigando, não perdoando qualquer item de mobília, peça de decoração, ou utensílio de jantar, qualquer coisa que se visse pela frente era usada como arma. Até os integrantes da banda se envolveram no tumulto, depois que um dos suportes do microfone foi lançado por um dos brigões e acabou por rasgar a pele do bumbo da bateria.
Os quatro homens que mantinham Helena e Mercedes sob custódia, percebendo a proporção que aquela briga de bar tomara, soltaram as garotas, partindo em auxílio aos seus companheiros. As outras mulheres presentes, assustadas, correram gritando pra fora da casa, e Mercedes, antes de fugir junto com Helena, pegou uma das garrafas de sobre a mesa e sentou-a com vontade sobre o cocuruto de um dos seus detentores, que, ao perceber a fuga, tentou, em vão, agarrá-las novamente.
Apesar de armados, os militares não tinham permissão de atirar em civis, e os processos que podiam acabar enfrentando pela morte de alguém não valiam uma vitória naquela briga, então todos preferiram usar de seus próprios punhos e lutar primitivamente como animais.
Castro, que não podia ver sua boate ser totalmente destruída pelos arruaceiros, voltou, acompanhado de quatro capangas, armados com submetralhadoras.
- Se querem brigar, vão brigar fora da minha boate! – Ele sacou do bolso interno do paletó um revólver Colt Python 357, dando dois tiros para o alto.
Com o barulho dos tiros, os combatentes, assustados, pararam de se mover, quase como se tivessem sido congelados. Os capangas de Castro entenderam os tiros iniciais como o sinal para que começassem sua própria festa. Sem mirar realmente em ninguém, começaram a emitir rajadas de tiros de submetralhadora sobre as cabeças dos combatentes, que, desesperados, jogaram-se no chão cobrindo-as com as mãos.
Aqueles homens de terno preto e feições sisudas descarregaram por completo suas munições, arruinando ainda mais o cenário do cabaré, e quando finalmente pararam de atirar, Jonathan, percebendo ser essa sua chance de escapar dali, gritou, chamando seu amigo, antes de correr pra fora do local.
- Não precisa falar duas vezes. – Respondeu Giovanni ao alcançar o amigo.
Ao passarem pela porta, avistaram Helena e Mercedes, que aguardavam o desfecho da briga do lado de fora do bar.
- Chamamos ajuda quando ouvimos os tiros. – Disse Helena, com certa preocupação. – Logo esse lugar estará cheio de militares.
- Não podemos ficar aqui. – Complementou Giovanni. – Se o reforço chegar, Stolz com certeza nos levará presos.
- Levará muito tempo até tudo se esclarecer. – Lamentou Mercedes, já em desespero. – Não quero voltar pra prisão!
Jonathan ouvia seus amigos, pensativo. Como líder daquele grupo, tinha de encontrar uma solução, tinha de resolver a situação o mais rápido possível. Seu cérebro fervia.
- Venham comigo! – Ele gritou, antes de começar a correr pelos corredores do Caos rumo aos grandes elevadores que levavam para os outros pavimentos. Os três logo correram para alcançá-lo.
Ainda dentro do cabaré, Stolz se levantava junto a alguns outros de seu grupo.
- Eles fugiram. Levantem-se, seus energúmenos! – Ele berrava aos seus subordinados.
Adolf Stolz se pôs a correr em direção a saída, seguido de mais seis membros de sua tropa, mas quando começava a adquirir velocidade algo em seu caminho o fez tropeçar, derrubando-o tão violentamente que seu corpo deslizou alguns metros pelo chão e fez com que o lado direito de seu rosto fosse esfolado. Levantou-se furioso e virou-se, fuzilando com o olhar, aquela figura jovem e miúda, que ainda mantinha a perna esticada sobre o caminho por onde ele tentara passar.
- No que depender de mim, você nunca se formará, Cadete... – E puxando-a com força para mais próxima de sua vista, leu a identificação, presa ao peito do garoto. – Meyer!
O garoto apenas deu de ombros quando Adolf e seus subordinados saíram da boate, já tendo perdido a pista de Jonathan Trust e sua tripulação. Stolz ficou ainda mais irritado quando ouviu a voz chiada que saiu de seu pequeno rádio comunicador de pulso.
- Trust foi visto próximo aos hangares, senhor.

...

Jonathan Trust tinha uma solução. Provavelmente não a mais inteligente, mas a solução que sua mente, atordoada e sob pressão, pôde conseguir naquele momento.
- Alguém competente esclarecerá tudo isso. Enquanto isso... – Dizia Jonathan, enquanto acionava os motores de seu cargueiro Kappa. – Essa briga vai se resolver no espaço!
- Você enlouqueceu? – Irritou-se Helena. – Eles vão mandar a frota inteira atrás de nós.
- Não vão não. Stolz é arrogante o suficiente pra vir sozinho. Ele não vai perder a oportunidade de enfrentar a Creedence. – Respondeu Jonathan, eliminando qualquer possibilidade de voltarem atrás. – Além do mais, temos o melhor piloto da frota e três pessoas pra operar os canhões.
- E ele tem a Sigma. – Retorquiu Helena.
- Já era! Estamos mortos. – Concluiu Giovanni, sacudindo a cabeça em desaprovação, mas ainda mantendo certo ar de deboche, enquanto ocupava seu posto como piloto e iniciava a aceleração da nave.

O cruzador Sigma foi projetado pelos ingleses, seguindo as proporções do maior transatlântico que já existiu, o Queen Mary 2, e recebeu esse nome devido a metodologia Six Sigma, empregada em sua fabricação. Essa nave, de enorme comprimento, possuía a forma de um losango achatado, se vista lateralmente, mas suas asas duplas, dispostas nas laterais de forma que se elas se encontrassem no ponto central da nave formariam quatro ângulos retos, davam-lhe a forma de uma estrela se vista no sentido longitudinal. A cabine de comando se situava no ponto mais alto da nave e, necessariamente, deveria ser tripulada por um mínimo de dez pessoas. Normalmente as expedições Sigma costumavam ser compostas por quinze tripulantes militares e mais quantos colaboradores civis fossem necessários para atender a demanda de passageiros. As expedições Sigma a princípio tinham o objetivo de explorar o universo buscando planetas cujo habitat fosse similar ao da Terra, para que, enfim, os humanos pudessem reconstituir sua civilização, mas os poucos planetas encontrados até o momento, cuja atmosfera era aparentemente habitável, não davam condições suficientes para o restabelecimento de uma sociedade, servindo apenas para a exploração de seus recursos. O sistema de Check Points era utilizado para permitir que as explorações pudessem atingir distâncias cada vez maiores, sendo que as últimas expedições foram realizadas em tempo médio de um ano inteiro. O desperdício de tempo e recursos, somado a baixa obtenção de resultados positivos, tornara as expedições Sigma muito caras, sendo que a alternativa para que se pudessem continuá-las foi a exploração do turismo espacial. Assim, cabines eram alugadas, por preços exorbitantes, para famílias que tivessem interesse em conhecer pontos distantes do universo, novos planetas ou até mesmo tivessem interesse cientifico em estudar condições de solo, atmosféricas e astronomia. O turismo espacial se tornou tão popular e lucrativo entre a alta classe da Estação 2000 que logo algumas expedições Sigma passaram a ser realizadas com apenas esse objetivo, deixando de lado sua missão original.

- Iniciar comunicação Check Point Kappa Uno Zero. – Informou Giovanni, enquanto acionava os controles de tele-transporte da nave.
Os Check Points eram nomeados de acordo com a missão a que serviam, sendo que os usados no auxílio das missões Kappa, ou seja, os que iam em direção a Terra, levavam a letra grega Kappa antes do número sequencial que significava a distância, em Check Points, a que se encontravam do mais próximo a Terra, o 01, e os que auxiliavam as missões Sigma levavam a letra Sigma antes do número sequencial, que significava a distância a que se encontravam do mais próximo da estação, também 01. Qualquer que fosse o Check Point poderia ser usado por qualquer uma das naves, inclusive os caças Delta, só não era possível transportar estações através deles, devido as proporções das estações e também a necessidade de tê-las como pontos centrais que mantinham a comunicação entre a rede de tele-transportes.
Apesar da carcaça robusta e, devido ao tamanho inferior, maior facilidade de manobras da Creedence, o poder de fogo da Sigma era bem mais poderoso, então o objetivo inicial de Jonathan e sua tripulação era se distanciar o quanto pudesse da Estação 2000 e tentar manobras evasivas, buscando oportunidades de contra-ataque, assim ganhariam tempo até que a situação fosse melhor entendida pelos militares da estação e sofreriam menos avarias até que houvesse uma negociação.
Chegando ao último dos Check Points a Creedence iniciou a manobra defensiva colocando-a de frente para o equipamento de tele-transporte. Assim que a Sigma desse as caras, seria recebida por uma rajada de tiros certeiros. Adolf Stolz previra o ataque, mas não tinha como evitá-lo, optou por confiar em seu poder de fogo e atacar simultaneamente a Creedence assim que atingissem o último ponto de tele-transporte.
Jonathan, Giovanni, Helena e Mercedes foram surpreendidos com os três flashes muito intensos que antecederam a chegada da Sigma. Viraram o rosto tentando esquivar seus olhos da luz, e logo após o terceiro flash avistaram, ainda com a vista um pouco afetada, surgir de trás do manto escuro do espaço aquela gigantesca nave em forma de estrela.
- Fogo! – Gritou Jonathan. E todos, já ocupando seus postos de ataque, apertaram efusivamente os gatilhos, presos aos manches que direcionavam os canhões.
A Sigma também iniciou seu ataque, fazendo com que duas rajadas de tiros se encontrassem no espaço entre as duas naves.
- Ativar escudos! – Gritou Adolf Stolz.
- Estamos sob ataque intensivo, os escudos não vão agüentar muito tempo, senhor. – Reportou um dos tripulantes da Sigma.
- Recomendo usar a energia dos escudos para otimizar os canhões, senhor. – Disse outro dos tripulantes, que obteve a aprovação e Stolz em forma de um acanhado aceno de cabeça.
O fogo cruzado entre as naves permanecia intenso e ambas estavam sendo atingidas incessantemente. Os escudos da Creedence foram levantados antes mesmo do confronto começar, pois não haveria chance de resistirem ao poder de fogo da Sigma sem esse recurso.
- Preparar torpedos. – Disse Jonathan. E Helena pulou, prontamente, de sua cadeira e correu para outra extremidade da sala, posicionando-se em frente a um enorme display, onde já era possível ver uma mira vermelha flutuando sobre a imagem da Sigma. – Acelere, irmão, vamos ao encontro deles.
Giovanni olhou pra Jonathan, apavorado.
- Nossos escudos vão cair antes de chegarmos perto. É suicídio, Jat!
Jonathan retribuiu o olhar com um sorrisinho sarcástico, como se em sua mente tudo aquilo já tivesse ocorrido com sucesso.
- Relaxa, irmão.
Mercedes, que nunca sequer chegara próxima de uma nave, quem dirá entrar em um combate entre elas, divertia-se, atirando contra a Sigma, da mesma forma que uma criança se diverte em frente a um vídeo-game.
- Travando mira! – Gritou Helena, ao focar a mira, que, antes vermelha, tornara-se verde sobre a imagem da Sigma no display.
A Creedence iniciou sua trajetória kamikaze em direção a Sigma.
- O que eles estão fazendo? – Disse o piloto da Sigma, não compreendendo a atitude insana que observava.
- Eles vão se chocar conosco, senhor. – Reportou o navegador ao seu comandante. – Estão vindo á toda velocidade.
- Suspender fogo! Iniciar manobra evasiva! – Gritou Stolz, boquiaberto. – Eles enlouqueceram. – Pensou consigo mesmo.
A Creedence continuou sua trajetória, a toda velocidade e ainda atirando contra seus rivais, enquanto a Sigma iniciou um lento processo de conversão à esquerda, buscando esquivar-se do choque.
- Torpedos... Agora! – Gritou Jonathan, assim que percebeu a Sigma fora de sua rota de colisão.
A Sigma ficou para trás quando a Creedence passou direto por ela, atirando. Cinco torpedos intermitentes foram lançados em direção a Sigma, atingindo-a na lateral direita e na traseira, provocando grandes danos.
- Conseguimos! – Comemorou Giovanni, enquanto puxava o manche, diminuindo a velocidade da nave. – Yahoo!
Todos se entreolharam, sorridentes com o resultado, porém a manobra que parecia perfeita os colocou de costas para a Sigma, que, realizando uma trajetória circular durante a manobra evasiva, se posicionou logo atrás deles, o que os dificultava qualquer chance de revide a um ataque.
- Você me paga, Trust! – Disse Adolf Stolz, abrindo a comunicação com a Creedence. – Vou me livrar de você de uma vez por todas. – Continuou, gritando em seguida. – Lançar torpedos!
A posição da Creedence não lhe dava oportunidade de escapar, a rajada de torpedos a atingiu em cheio pela traseira, derrubando seus escudos.
- Escudos em queda. Impossível recuperar. – Reportou Helena.
- O que acontece agora? – Perguntou Mercedes, segurando-se em seu acento, atemorizada.
- Se continuarem atirando, iremos pro espaço. – Respondeu Giovanni, sem a menor idéia do que fazer pra evitar esse fim.
- Estão tentando morrer, é? – Ouviram uma voz feminina vinda do comunicador da nave.
Dentre a Sigma e a Creedence brilharam três flashes de onde surgiu, manobrando muito rápido e atirando euforicamente contra a Sigma, uma pequena nave de cor púrpura.
- Jakarta? – Estranhou Giovanni.
- What´s up, Rizzo? – Jakeline Jakarta executava uma trajetória circular ao redor da Sigma, enquanto continuava a atirar. As asas do caça Delta giravam sem parar, trezentos e sessenta graus em torno do cockpit. – Fujam logo daqui, eu dou cobertura.
- Fico feliz em te ver. – Disse Jonathan, sorrindo com a inesperada ajuda.
- O que eu posso fazer? Ainda gosto de você, Jat.
O sorriso bobo no rosto de Jonathan foi automaticamente substituído por uma expressão de dor, ao receber um forte beliscão no braço.
- Você ainda fala com essa mulher? – Questionou Helena, travando os dentes e franzindo o cenho, enciumada.
- Iniciar manobra evasiva, Rizzo, digo... Irmão. – Jonathan voltou a si, deixando o sorriso de lado e retomando a seriedade em sua fisionomia.
A Sigma também tentava uma manobra evasiva, buscando esquivar-se do Delta de Jakarta, que por ser muito menor e mais rápido evitava todos os tiros tentados contra ele.
- Alguém acerte esse maldito mosquito! – Se enfurecia Adolf Stolz. – Jakarta, quando eu pegar você...
- Ha, ha... Quando você conseguir me pegar, Stolz, só nos restará ser lançados como Sexagenários.
As naves de Stolz e Jakarta já haviam se afastado bastante da Creedence quando esta completou sua rotação, posicionando-se de frente para o combate.
- O que é aquilo? – Questionou Giovanni ao ver uma mancha estranha, que, como uma tímida aurora boreal, iluminava de branco e roxo o espaço em torno das duas naves.
Jonathan também observava, desconfiado, o estranho fenômeno.
A Creedence se aproximava do combate quando, de repente, aquela estranha massa de luzes se fechou sobre as naves combatentes, tornando-se uma pequena bola de luz e emitindo raios como uma nuvem de tempestade. Quando a massa voltou a se espalhar pelo espaço, tanto o cruzador Sigma quanto o caça Delta haviam desaparecido.
- Uow! – Exclamou Giovanni. – O que houve com eles?
- Foram transportados? – Preocupou-se Mercedes.
- Aquilo não é um Check Point, isso eu tenho certeza. – Helena olhava, atônita, para a mancha que iluminava o espaço.
- Continue seguindo em frente. Vamos ver o que está acontecendo. – Respondeu Jonathan, tomado de curiosidade e receio.
Prosseguiram, aproximando-se cada vez mais da estranha massa de luz. Nada de incomum parecia estar acontecendo, mas assim que adentraram os limites da luz uma fortíssima turbulência atingiu a Creedence.
- Segurem-se. – Gritou Jonathan, inutilmente, pois todos já haviam sido lançados ao chão com o tremor inesperado da nave. Giovanni gritou alto ao levar um temendo choque, após tentar ativar algum dispositivo da nave. O painel de controles parecia estar totalmente eletrificado, emitindo raios e faíscas.
A nave subia e descia da mesma forma que um barco pesqueiro em meio a uma tempestade, até que, como que por encanto, a tormenta cessou e a nave voltou a fluir, lentamente, na calmaria do espaço.
- Que merda é essa? – Espantou-se Giovanni. O primeiro a avistar, ao longe, uma enorme, realmente gigantesca, estrutura escura e, aparentemente, sólida, no meio do espaço a sua frente.


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