Apesar de suas proporções titânicas,
em toda a Estação 2000, não havia melhor lugar para comemorações do que o Caos.
A sujeira, a vulgaridade, a criminalidade e a atmosfera tenebrosa que o
caracterizava era sempre desconsiderada quando se levava em conta o nível de
entretenimento que só aquele lugar poderia oferecer.
Jonathan e Helena haviam finamente
sido aprovados no exame dos seis meses, Mercedes livrara-se de seu rancor e, em
um futuro próximo, herdaria uma pequena loja de variedades, e Giovanni possuía,
talvez o maior dos tesouros, o afeto recíproco da mulher que amava. Enfim,
todos tinham o que comemorar, logo, felizes, eles brindavam com seus copos
cheios de chope, sendo os das garotas misturados com groselha.
- À nossa amizade! – Gritaram todos ao
colidirem seus copos no ar.
Aquele lugar não trazia boas lembranças
a Mercedes, mas a companhia das pessoas de quem gostava e também a motivação
que os levava àquele que, de fato, era o melhor lugar para se divertir no Caos,
a faziam desconsiderar os maus sentimentos que o lugar lhe trazia e se
contagiar apenas pela alegria do momento que vivia. A situação era bem
diferente do que outrora vivera ali, estava ali como cliente e não mais a
trabalho, trajava-se decorosamente, era uma mulher respeitável e em breve
estaria se casando.
Sobre o palco espelhado, que naquela
noite não exibia o costumeiro mastro prateado, apresentava-se uma talentosa
banda, que, trajando-se exatamente, até no corte de cabelo, como aqueles que
pretendia imitar, tocava músicas da famosa, mas muito antiga banda de rock, The
Beatles.
Ao ouvir a introdução da música “Twist
and Shout”, Helena se levantou e puxou Jonathan pelas mãos.
- Eu adoro essa música. Vamos dançar?
Jonathan olhou para Giovanni como se
pedisse socorro, mas o amigo apenas sorriu, se divertindo com o desgosto do
amigo.
- É isso mesmo, vamos dançar. –
Levantou-se Mercedes, também puxando as mãos de Giovanni, que ao olhar de volta
para Jonathan percebeu que seu amigo parecia realizado, ao vê-lo ser convocado
também.
Giovanni e Jonathan não eram exímios
dançarinos, mas sabiam como conduzir bem suas parceiras, arriscando até mesmo
alguns passos mais ousados e rodopios. Chamaram a atenção de outros frequentadores
do Caos, alguns também militares, e logo a pista se encheu de casais dançarinos.
O ritmo agitado de “Twist and Shout” foi então se tornando mais lento e quase
que imperceptivelmente se transformou na melodia suave de “Lucy In The Sky With
Diamonds”.
Distante da pista e próxima ao bar,
Jakeline Jakarta observava, sozinha, os casais que dançavam, sentindo uma ponta
de inveja e ciúmes.
A música parou de repente e todos
olharam para a entrada da casa, de onde, com um estrondo alto provocado pelo
arrombamento, começaram a entrar vários militares fardados e empunhando suas
armas. A comitiva, de aproximadamente dez militares, era liderada por Adolf
Stolz, que ao adentrar o recinto declarou em voz alta e presunçosa:
-Você está preso, Jonathan Trust, por
contrabando de material ilegal vindo do Lixo.
Jonathan sabia que nenhum dos seus o
trairia, logo o único que poderia ser responsabilizado por entregá-los era o
próprio beneficiário do contrabando. Castro não pôde admitir ter sido ameaçado
em seu próprio território e em frente aos seus subordinados, por isso permitiu
que a negociação, importante para seus negócios, se concretizasse, mas esperou a
hora certa chegar para contra-atacar. Conhecia a rixa que existia entre
Jonathan e Stolz e sabia também que Stolz jamais perderia a oportunidade de
incriminar seu rival, então tratou de deixá-lo de sobre aviso para que, quando
a oportunidade chegasse, tivesse apenas de avisá-lo. Para sua infelicidade o tiro
acabou saindo pela culatra.
Adolf Stolz também se sentia humilhado por ter
sido agredido, seis meses atrás, durante a festa em que comemorava sua própria
promoção, e o prazer que sentia em finalmente se vingar de seu agressor era inigualável,
mas algo de positivo incrustado em sua personalidade era seu respeito pela
ética e disciplina militar, que jamais permitiriam que honrasse acordos com
criminosos.
Ao poucos os clientes da boate foram
encostando-se às paredes, ficando no centro apenas os acusados e a tropa que os
fazia prisioneiros. Jonathan e sua tripulação, bem como Mercedes, tiveram os
braços agarrados pelos militares, que os mantinham seguros às suas costas. Adolf
Stolz continuava seu discurso em um tom de voz que não deixava dúvidas quanto a
sua plena apreciação da situação.
- Esta casa está sendo fechada por
prática de prostituição, e seus responsáveis também responderão pelos seus
crimes perante a lei.
Castro se enfureceu ao ouvir aquelas
palavras. Não poderia tolerar tal traição. Antes que os militares se
dispusessem a prendê-lo, ele se afastou sorrateiramente, esquivando-se em seu
escritório.
Jonathan tentava arquitetar alguma
forma de escaparem daquela situação, mas foi Giovanni quem tomou a iniciativa.
- Mercedes não faz parte da
tripulação. Deixe-a ir, Stolz!
Stolz sorriu sarcasticamente, não
conseguindo conter a felicidade que preenchia seu ser.
- Ela não está presa pelo contrabando,
mas sim por que é uma prostitutazinha medíocre. – Aproximou-se então de
Giovanni e ao parar em sua frente abaixou a cabeça, cochichando ao pé de seu
ouvido. – E isso eu mesmo pude comprovar.
A fúria que se apossou de Giovanni
naquele momento não podia ser medida. Debateu-se, extraindo forças do próprio
ódio, até conseguir se libertar dos dois militares que o seguravam e voar em
direção a Adolf Stolz, segurando-o pelo colarinho da camisa e aplicando-lhe uma
série de socos no rosto.
Jonathan, ao contemplar a cena, sorriu,
vendo no ímpeto do amigo, que já montado sobre o corpo de Stolz, lhe deferia
uma torrente de porradas sobre o rosto, a oportunidade de inverter a situação.
Soltou-se também e, sem titubear, agarrou uma das cadeiras próximas com as duas
mãos e golpeou energicamente os dois soldados que antes o seguravam. Stolz,
imobilizado e caído sob Giovanni, só conseguia tentar defender-se com os braços
de alguns poucos golpes em meio aos tantos que lhe eram aplicados.
Todos os militares que acompanhavam
Adolf Stolz se lançaram pra cima de Jonathan e Giovanni, que os enfrentavam
como podiam, mas a antipatia por Stolz não era um privilégio de Jonathan e
Giovanni, sua arrogância para com os subalternos lhe rendeu uma fama indesejada
e algumas inimizades dentro do círculo militar, então, quando uma das cadeiras
voou pelo salão caindo próximo ao seu grupo e quase atingindo um deles, alguns
militares ali presentes, percebendo o tumulto e a disparidade de combatentes em
cada lado da briga, não puderam se conter, lançaram-se também ao combate,
armados com garrafas, pratos e tudo mais que puderam pegar de sobre as mesas.
Alguns outros homens, já bem alterados
pelo álcool, simpatizaram pela causa de algum dos lados e também se envolveram
na briga. Em pouco tempo, quase todos os homens presentes no bar estavam
brigando, não perdoando qualquer item de mobília, peça de decoração, ou
utensílio de jantar, qualquer coisa que se visse pela frente era usada como
arma. Até os integrantes da banda se envolveram no tumulto, depois que um dos
suportes do microfone foi lançado por um dos brigões e acabou por rasgar a pele
do bumbo da bateria.
Os quatro homens que mantinham Helena
e Mercedes sob custódia, percebendo a proporção que aquela briga de bar tomara,
soltaram as garotas, partindo em auxílio aos seus companheiros. As outras mulheres
presentes, assustadas, correram gritando pra fora da casa, e Mercedes, antes de
fugir junto com Helena, pegou uma das garrafas de sobre a mesa e sentou-a com
vontade sobre o cocuruto de um dos seus detentores, que, ao perceber a fuga, tentou,
em vão, agarrá-las novamente.
Apesar de armados, os militares não
tinham permissão de atirar em civis, e os processos que podiam acabar
enfrentando pela morte de alguém não valiam uma vitória naquela briga, então
todos preferiram usar de seus próprios punhos e lutar primitivamente como
animais.
Castro, que não podia ver sua boate
ser totalmente destruída pelos arruaceiros, voltou, acompanhado de quatro capangas,
armados com submetralhadoras.
- Se querem brigar, vão brigar fora da
minha boate! – Ele sacou do bolso interno do paletó um revólver Colt Python
357, dando dois tiros para o alto.
Com o barulho dos tiros, os
combatentes, assustados, pararam de se mover, quase como se tivessem sido
congelados. Os capangas de Castro entenderam os tiros iniciais como o sinal
para que começassem sua própria festa. Sem mirar realmente em ninguém,
começaram a emitir rajadas de tiros de submetralhadora sobre as cabeças dos
combatentes, que, desesperados, jogaram-se no chão cobrindo-as com as mãos.
Aqueles homens de terno preto e
feições sisudas descarregaram por completo suas munições, arruinando ainda mais
o cenário do cabaré, e quando finalmente pararam de atirar, Jonathan,
percebendo ser essa sua chance de escapar dali, gritou, chamando seu amigo,
antes de correr pra fora do local.
- Não precisa falar duas vezes. –
Respondeu Giovanni ao alcançar o amigo.
Ao passarem pela porta, avistaram
Helena e Mercedes, que aguardavam o desfecho da briga do lado de fora do bar.
- Chamamos ajuda quando ouvimos os
tiros. – Disse Helena, com certa preocupação. – Logo esse lugar estará cheio de
militares.
- Não podemos ficar aqui. –
Complementou Giovanni. – Se o reforço chegar, Stolz com certeza nos levará
presos.
- Levará muito tempo até tudo se
esclarecer. – Lamentou Mercedes, já em desespero. – Não quero voltar pra
prisão!
Jonathan ouvia seus amigos, pensativo.
Como líder daquele grupo, tinha de encontrar uma solução, tinha de resolver a
situação o mais rápido possível. Seu cérebro fervia.
- Venham comigo! – Ele gritou, antes
de começar a correr pelos corredores do Caos rumo aos grandes elevadores que
levavam para os outros pavimentos. Os três logo correram para alcançá-lo.
Ainda dentro do cabaré, Stolz se
levantava junto a alguns outros de seu grupo.
- Eles fugiram. Levantem-se, seus
energúmenos! – Ele berrava aos seus subordinados.
Adolf Stolz se pôs a correr em direção
a saída, seguido de mais seis membros de sua tropa, mas quando começava a
adquirir velocidade algo em seu caminho o fez tropeçar, derrubando-o tão
violentamente que seu corpo deslizou alguns metros pelo chão e fez com que o
lado direito de seu rosto fosse esfolado. Levantou-se furioso e virou-se, fuzilando
com o olhar, aquela figura jovem e miúda, que ainda mantinha a perna esticada
sobre o caminho por onde ele tentara passar.
- No que depender de mim, você nunca
se formará, Cadete... – E puxando-a com força para mais próxima de sua vista,
leu a identificação, presa ao peito do garoto. – Meyer!
O garoto apenas deu de ombros quando
Adolf e seus subordinados saíram da boate, já tendo perdido a pista de Jonathan
Trust e sua tripulação. Stolz ficou ainda mais irritado quando ouviu a voz
chiada que saiu de seu pequeno rádio comunicador de pulso.
- Trust foi visto próximo aos
hangares, senhor.
...
Jonathan Trust tinha uma solução.
Provavelmente não a mais inteligente, mas a solução que sua mente, atordoada e
sob pressão, pôde conseguir naquele momento.
- Alguém competente esclarecerá tudo
isso. Enquanto isso... – Dizia Jonathan, enquanto acionava os motores de seu
cargueiro Kappa. – Essa briga vai se resolver no espaço!
- Você enlouqueceu? – Irritou-se
Helena. – Eles vão mandar a frota inteira atrás de nós.
- Não vão não. Stolz é arrogante o
suficiente pra vir sozinho. Ele não vai perder a oportunidade de enfrentar a
Creedence. – Respondeu Jonathan, eliminando qualquer possibilidade de voltarem
atrás. – Além do mais, temos o melhor piloto da frota e três pessoas pra operar
os canhões.
- E ele tem a Sigma. – Retorquiu
Helena.
- Já era! Estamos mortos. – Concluiu
Giovanni, sacudindo a cabeça em desaprovação, mas ainda mantendo certo ar de
deboche, enquanto ocupava seu posto como piloto e iniciava a aceleração da
nave.
O cruzador Sigma foi projetado pelos
ingleses, seguindo as proporções do maior transatlântico que já existiu, o
Queen Mary 2, e recebeu esse nome devido a metodologia Six Sigma, empregada em
sua fabricação. Essa nave, de enorme comprimento, possuía a forma de um losango
achatado, se vista lateralmente, mas suas asas duplas, dispostas nas laterais de
forma que se elas se encontrassem no ponto central da nave formariam quatro
ângulos retos, davam-lhe a forma de uma estrela se vista no sentido
longitudinal. A cabine de comando se situava no ponto mais alto da nave e,
necessariamente, deveria ser tripulada por um mínimo de dez pessoas. Normalmente
as expedições Sigma costumavam ser compostas por quinze tripulantes militares e
mais quantos colaboradores civis fossem necessários para atender a demanda de
passageiros. As expedições Sigma a princípio tinham o objetivo de explorar o
universo buscando planetas cujo habitat fosse similar ao da Terra, para que,
enfim, os humanos pudessem reconstituir sua civilização, mas os poucos planetas
encontrados até o momento, cuja atmosfera era aparentemente habitável, não
davam condições suficientes para o restabelecimento de uma sociedade, servindo
apenas para a exploração de seus recursos. O sistema de Check Points era
utilizado para permitir que as explorações pudessem atingir distâncias cada vez
maiores, sendo que as últimas expedições foram realizadas em tempo médio de um
ano inteiro. O desperdício de tempo e recursos, somado a baixa obtenção de
resultados positivos, tornara as expedições Sigma muito caras, sendo que a
alternativa para que se pudessem continuá-las foi a exploração do turismo
espacial. Assim, cabines eram alugadas, por preços exorbitantes, para famílias
que tivessem interesse em conhecer pontos distantes do universo, novos planetas
ou até mesmo tivessem interesse cientifico em estudar condições de solo,
atmosféricas e astronomia. O turismo espacial se tornou tão popular e lucrativo
entre a alta classe da Estação 2000 que logo algumas expedições Sigma passaram
a ser realizadas com apenas esse objetivo, deixando de lado sua missão
original.
- Iniciar comunicação Check Point Kappa
Uno Zero. – Informou Giovanni, enquanto acionava os controles de
tele-transporte da nave.
Os Check Points eram nomeados de
acordo com a missão a que serviam, sendo que os usados no auxílio das missões Kappa,
ou seja, os que iam em direção a Terra, levavam a letra grega Kappa antes do
número sequencial que significava a distância, em Check Points, a que se
encontravam do mais próximo a Terra, o 01, e os que auxiliavam as missões Sigma
levavam a letra Sigma antes do número sequencial, que significava a distância a
que se encontravam do mais próximo da estação, também 01. Qualquer que fosse o
Check Point poderia ser usado por qualquer uma das naves, inclusive os caças
Delta, só não era possível transportar estações através deles, devido as
proporções das estações e também a necessidade de tê-las como pontos centrais
que mantinham a comunicação entre a rede de tele-transportes.
Apesar da carcaça robusta e, devido ao
tamanho inferior, maior facilidade de manobras da Creedence, o poder de fogo da
Sigma era bem mais poderoso, então o objetivo inicial de Jonathan e sua
tripulação era se distanciar o quanto pudesse da Estação 2000 e tentar manobras
evasivas, buscando oportunidades de contra-ataque, assim ganhariam tempo até
que a situação fosse melhor entendida pelos militares da estação e sofreriam
menos avarias até que houvesse uma negociação.
Chegando ao último dos Check Points a
Creedence iniciou a manobra defensiva colocando-a de frente para o equipamento
de tele-transporte. Assim que a Sigma desse as caras, seria recebida por uma
rajada de tiros certeiros. Adolf Stolz previra o ataque, mas não tinha como
evitá-lo, optou por confiar em seu poder de fogo e atacar simultaneamente a
Creedence assim que atingissem o último ponto de tele-transporte.
Jonathan, Giovanni, Helena e Mercedes
foram surpreendidos com os três flashes muito intensos que antecederam a
chegada da Sigma. Viraram o rosto tentando esquivar seus olhos da luz, e logo
após o terceiro flash avistaram, ainda com a vista um pouco afetada, surgir de
trás do manto escuro do espaço aquela gigantesca nave em forma de estrela.
- Fogo! – Gritou Jonathan. E todos, já
ocupando seus postos de ataque, apertaram efusivamente os gatilhos, presos aos
manches que direcionavam os canhões.
A Sigma também iniciou seu ataque, fazendo
com que duas rajadas de tiros se encontrassem no espaço entre as duas naves.
- Ativar escudos! – Gritou Adolf
Stolz.
- Estamos sob ataque intensivo, os
escudos não vão agüentar muito tempo, senhor. – Reportou um dos tripulantes da
Sigma.
- Recomendo usar a energia dos escudos
para otimizar os canhões, senhor. – Disse outro dos tripulantes, que obteve a
aprovação e Stolz em forma de um acanhado aceno de cabeça.
O fogo cruzado entre as naves permanecia
intenso e ambas estavam sendo atingidas incessantemente. Os escudos da
Creedence foram levantados antes mesmo do confronto começar, pois não haveria
chance de resistirem ao poder de fogo da Sigma sem esse recurso.
- Preparar torpedos. – Disse Jonathan.
E Helena pulou, prontamente, de sua cadeira e correu para outra extremidade da
sala, posicionando-se em frente a um enorme display, onde já era possível ver
uma mira vermelha flutuando sobre a imagem da Sigma. – Acelere, irmão, vamos ao
encontro deles.
Giovanni olhou pra Jonathan,
apavorado.
- Nossos escudos vão cair antes de
chegarmos perto. É suicídio, Jat!
Jonathan retribuiu o olhar com um
sorrisinho sarcástico, como se em sua mente tudo aquilo já tivesse ocorrido com
sucesso.
- Relaxa, irmão.
Mercedes, que nunca sequer chegara
próxima de uma nave, quem dirá entrar em um combate entre elas, divertia-se, atirando
contra a Sigma, da mesma forma que uma criança se diverte em frente a um
vídeo-game.
- Travando mira! – Gritou Helena, ao
focar a mira, que, antes vermelha, tornara-se verde sobre a imagem da Sigma no
display.
A Creedence iniciou sua trajetória
kamikaze em direção a Sigma.
- O que eles estão fazendo? – Disse o
piloto da Sigma, não compreendendo a atitude insana que observava.
- Eles vão se chocar conosco, senhor.
– Reportou o navegador ao seu comandante. – Estão vindo á toda velocidade.
- Suspender fogo! Iniciar manobra
evasiva! – Gritou Stolz, boquiaberto. – Eles enlouqueceram. – Pensou consigo
mesmo.
A Creedence continuou sua trajetória,
a toda velocidade e ainda atirando contra seus rivais, enquanto a Sigma iniciou
um lento processo de conversão à esquerda, buscando esquivar-se do choque.
- Torpedos... Agora! – Gritou
Jonathan, assim que percebeu a Sigma fora de sua rota de colisão.
A Sigma ficou para trás quando a
Creedence passou direto por ela, atirando. Cinco torpedos intermitentes foram
lançados em direção a Sigma, atingindo-a na lateral direita e na traseira,
provocando grandes danos.
- Conseguimos! – Comemorou Giovanni,
enquanto puxava o manche, diminuindo a velocidade da nave. – Yahoo!
Todos se entreolharam, sorridentes com
o resultado, porém a manobra que parecia perfeita os colocou de costas para a
Sigma, que, realizando uma trajetória circular durante a manobra evasiva, se
posicionou logo atrás deles, o que os dificultava qualquer chance de revide a
um ataque.
- Você me paga, Trust! – Disse Adolf
Stolz, abrindo a comunicação com a Creedence. – Vou me livrar de você de uma
vez por todas. – Continuou, gritando em seguida. – Lançar torpedos!
A posição da Creedence não lhe dava
oportunidade de escapar, a rajada de torpedos a atingiu em cheio pela traseira,
derrubando seus escudos.
- Escudos em queda. Impossível
recuperar. – Reportou Helena.
- O que acontece agora? – Perguntou
Mercedes, segurando-se em seu acento, atemorizada.
- Se continuarem atirando, iremos pro
espaço. – Respondeu Giovanni, sem a menor idéia do que fazer pra evitar esse
fim.
- Estão tentando morrer, é? – Ouviram uma
voz feminina vinda do comunicador da nave.
Dentre a Sigma e a Creedence brilharam
três flashes de onde surgiu, manobrando muito rápido e atirando euforicamente
contra a Sigma, uma pequena nave de cor púrpura.
- Jakarta? – Estranhou Giovanni.
- What´s up, Rizzo? – Jakeline Jakarta
executava uma trajetória circular ao redor da Sigma, enquanto continuava a
atirar. As asas do caça Delta giravam sem parar, trezentos e sessenta graus em
torno do cockpit. – Fujam logo daqui, eu dou cobertura.
- Fico feliz em te ver. – Disse
Jonathan, sorrindo com a inesperada ajuda.
- O que eu posso fazer? Ainda gosto de
você, Jat.
O sorriso bobo no rosto de Jonathan
foi automaticamente substituído por uma expressão de dor, ao receber um forte
beliscão no braço.
- Você ainda fala com essa mulher? – Questionou
Helena, travando os dentes e franzindo o cenho, enciumada.
- Iniciar manobra evasiva, Rizzo,
digo... Irmão. – Jonathan voltou a si, deixando o sorriso de lado e retomando a
seriedade em sua fisionomia.
A Sigma também tentava uma manobra
evasiva, buscando esquivar-se do Delta de Jakarta, que por ser muito menor e
mais rápido evitava todos os tiros tentados contra ele.
- Alguém acerte esse maldito mosquito!
– Se enfurecia Adolf Stolz. – Jakarta, quando eu pegar você...
- Ha, ha... Quando você conseguir me
pegar, Stolz, só nos restará ser lançados como Sexagenários.
As naves de Stolz e Jakarta já haviam
se afastado bastante da Creedence quando esta completou sua rotação,
posicionando-se de frente para o combate.
- O que é aquilo? – Questionou
Giovanni ao ver uma mancha estranha, que, como uma tímida aurora boreal,
iluminava de branco e roxo o espaço em torno das duas naves.
Jonathan também observava,
desconfiado, o estranho fenômeno.
A Creedence se aproximava do combate
quando, de repente, aquela estranha massa de luzes se fechou sobre as naves
combatentes, tornando-se uma pequena bola de luz e emitindo raios como uma
nuvem de tempestade. Quando a massa voltou a se espalhar pelo espaço, tanto o
cruzador Sigma quanto o caça Delta haviam desaparecido.
- Uow! – Exclamou Giovanni. – O que
houve com eles?
- Foram transportados? – Preocupou-se
Mercedes.
- Aquilo não é um Check Point, isso eu
tenho certeza. – Helena olhava, atônita, para a mancha que iluminava o espaço.
- Continue seguindo em frente. Vamos
ver o que está acontecendo. – Respondeu Jonathan, tomado de curiosidade e
receio.
Prosseguiram, aproximando-se cada vez
mais da estranha massa de luz. Nada de incomum parecia estar acontecendo, mas
assim que adentraram os limites da luz uma fortíssima turbulência atingiu a
Creedence.
- Segurem-se. – Gritou Jonathan,
inutilmente, pois todos já haviam sido lançados ao chão com o tremor inesperado
da nave. Giovanni gritou alto ao levar um temendo choque, após tentar ativar
algum dispositivo da nave. O painel de controles parecia estar totalmente
eletrificado, emitindo raios e faíscas.
A nave subia e descia da mesma forma
que um barco pesqueiro em meio a uma tempestade, até que, como que por encanto,
a tormenta cessou e a nave voltou a fluir, lentamente, na calmaria do espaço.
- Que merda é essa? – Espantou-se
Giovanni. O primeiro a avistar, ao longe, uma enorme, realmente gigantesca,
estrutura escura e, aparentemente, sólida, no meio do espaço a sua frente.
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