quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 5 – Mercedes


Em uma escura, fria e úmida cabine no Caos, sentada na beira da cama, uma mãe enxugava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto tentando não transparecer para a filha, de apenas nove anos, o medo que sentia naquele momento.
- Durma filhinha, tudo vai passar. – Dizia, em meio aos soluços, enquanto passava os dedos pelos longos cabelos negros da menina. – Nada de mal vai te acontecer.
Os gritos que ouviam, vindos do lado de fora, apenas aumentavam seu desespero e faziam com que a mulher chorasse ainda mais. A criança, também assustada, tremia a cada pontapé dado na porta de entrada da cabine.
- Abra a porta, mulher! Quem tá aí com você? Pra quem você tá dando dessa vez? – Gritava o embriagado homem que chutava incessantemente a porta de metal. – Abre, senão eu vou derrubar essa merda!
Mais um chute, dado com toda a força, e o estrondo anunciou que a porta havia sido escancarada. Aquela apavorada mãe levou uma mão ao coração e a outra a boca, como se o que acabara de acontecer fosse seu pior pesadelo.
- Fique aqui, filha. Não saia, pelo amor de Deus. – Suplicou a mãe, antes de levantar-se e sair, fechando a porta atrás de si.

- Quem está aí com você, sua vadia? Por que você não abriu a porta? – Gritava o homem magro, de rosto fino, cabelo bem preto, pele morena e olhos vermelhos, provavelmente proporcionados pelas noites mal dormidas e pelo efeito do álcool. 
- Porque você está bêbado! Não consegue nem ficar em pé direito! – Retribuiu os gritos, aquela mulher de aparência hispânica, em quem os infortúnios da vida esculpiram marcas irreparáveis, tornando aquele rosto, que um dia fora tão belo, numa expressão triste e envelhecida. – Vai embora daqui! Nos deixe em paz!
- É minha casa, sua puta! Você quer transformar ela num puteiro, mas eu num vou deixar!

A pequena garota cobria a cabeça e se encolhia na cama. Chorado, cantava em voz alta uma antiga cantiga de ninar enquanto, com as duas mãos, tapava os ouvidos, tentando não ouvir a briga que ocorria do lado de fora do quarto.
A raiva inconsequente dominava as palavras e atos dos dois conflitantes, que buscavam a todo custo ofender um ao outro no seu mais profundo âmago.
- Ela não é sua filha, seu broxa! Nem pra isso você me serviu!
A fúria naquele homem atingiu seu ápice. Aquelas palavras entraram em seu ser como se rasgassem sua carne e o álcool em seu sangue o fez perder totalmente o controle. Aquele homem voou para cima da mulher, derrubando-a no chão e montando sobre seu corpo.
- Você é uma puta mesmo! Uma puta maldita!
A mulher tentava se esquivar, mas sua posição subjugada sob o corpo insano daquele homem, apenas permitia que usasse as mãos para evitar alguns poucos golpes dos muitos que ele lhe aplicava com toda a força na face. Aos poucos aquele rosto triste foi perdendo suas formas e dando espaço para uma massa de carne deformada. As forças daquela mulher foram se esvaído até que já não podia mais lutar, dando-se por vencida e entregando-se ao seu destino certo. A criança, não ouvindo mais os lamentos da mãe, levantou-se e ao abrir a porta gritou, deparando-se com tal violência.
Aquele homem só conseguia ouvir as palavras da mulher ecoando em sua mente alucinada. “Ela não é sua filha”.
- Você é uma puta como a sua mãe! Uma putinha desprezível!
Ele levantou-se de sobre o corpo desfalecido da mulher e caminhou na direção da garota, que correu de volta para o quarto e fechou a porta. Infelizmente, aquele homem ensandecido não poderia ser contido por uma simples porta de madeira, ele a chutou com força e a porta cedeu com facilidade.
Ao adentrar o quarto o homem puxou violentamente o cobertor de cima da menina que havia novamente se encolhido sobre a cama. Encarando a pequena e acuada garota, ele soltou o cinto que lhe segurava as calças e dobrou-o nas mãos, fazendo deste um chicote e deferindo compulsivos golpes em todo o corpo da criança.
- Você não é minha filha!
O homem segurou a pequena pelo braço e rasgou-lhe a camisola. Jogou-a de volta sobre a cama, desferiu mais um golpe de sinto em seu rosto e desabotoou a própria calça.
- Você não é minha filha!
Aquele alucinado ser gatinhou sobre a cama até o corpo da menina. A pobre garota não gritava. Não era Capaz de expressar reação alguma, tampouco olhar para o rosto demoníaco daquele que a possuía. Olhava em direção a porta, buscava, através da nesga de luz, enxergar o corpo desfalecido da mãe.

O tempo parecia ter parado. O universo parecia não se movimentar, mas a luz àquela soleira brilhou mais forte. Tudo começou a se mover lentamente, quando de repente ela pode ver duas silhuetas humanas brotarem da luz. Dois seres divinais haviam descido do céu para salvá-la.
Trazidos pelos gritos de outrora, dois militares, que se descontraíam em algum dos bares do Caos, romperam a porta do quarto e saltaram em direção ao agressor, agarrando-o e tirando-o de cima do corpo imóvel da garota.
- Você está preso, e continuará pelo resto da vida!
Aquela pequena figura de nove anos, encolhida no canto do quarto, assistia àqueles dois militares arrastarem o homem, que se debatia muito, para fora do quarto. Nunca mais os veria novamente, mas pôde ler os nomes que jamais esqueceria nas identificações presas aos seus peitos. O nome de seus salvadores, o nome de seus anjos da guarda, Capitão Trust e Major McCartney.

Ali, sozinha no canto do quarto, a inocente menina contemplava a porta por onde o monstro passara. Presa em seus próprios pensamentos e tomada pelo ódio só conseguia repetir pra si mesma:
- Você matou minha mãe... Eu vou matar você!

...

Aquela criança cresceu confusa com as frequentes visitas de diferentes mulheres que sua tia recebia em sua apertada cabine no Caos. Muitas vezes preferia sair e caminhar para não ter de ouvir os sons vindos do quarto que dividiam. Sons que atravessavam as paredes e mesmo em outro cômodo soavam nítidos e perturbadores.
Foi em uma dessas tardes de solidão que aquela garotinha de doze anos, ainda tomada pelo desejo de vingança, que também tivera tempo de crescer em seu coração, avistou em um tumultuado empório algo que lhe fez reavivar a esperança de um dia cumprir a promessa que fizera a si mesma. Seus pequenos olhos cor de mel brilharam ao contemplar, exposto horizontalmente em um suporte de madeira escura, um antigo punhal cujo cabo dourado exibia um dragão chinês em alto relevo.
Um homem franzino, aparentando estar próximo dos cinquenta anos, de traços orientais, cabelos bem grisalhos e que estava a arrumar as prateleiras da loja, percebeu o fascínio da jovem.
- Sabia que ele veio da Terra? Não do Lixo, como é conhecida hoje, mas sim de uma época muito antiga, quando a Terra era limpa e justa. Foi passado de geração pra geração. – O homem retirou o punhal do suporte e sacou-o da bainha, bordada com motivos orientais multicoloridos. – Vê essa mancha escura na lâmina? É sangue. Dizem que o primeiro dono desta arma matou sete traidores num bar. É uma lâmina justiceira.
As palavras daquele velho ecoavam em sua mente fazendo todo o sentido. Era uma lâmina justiceira, vigara seu primeiro dono e havia de vingá-la também.
- Quanto custa?
- Me desculpe, meu anjo. Não posso vendê-lo pra você. – Respondeu ternamente o dono do estabelecimento. – É uma relíquia de família e está aí apenas pra enfeitar a loja.
Ela engoliu seco ao ouvir aquilo. Era possível ver a frustração em seu olhar. Virou as costas para o homem e caminhou, de cabeça baixa, em direção a outra prateleira, remoendo-se em seus próprios pensamentos. Aquilo não podia ser possível, o punhal não se mostrara a ela por acaso, era o destino se manifestando, era uma lâmina justiceira, ela tinha que possuí-la. Parou e olhou por cima do ombro certificando-se de que aquele educado senhor não a observava mais, então se virou novamente em direção ao punhal e contemplou-o mais uma vez. Ele tinha de ser seu.
O velho dono da loja só pode ouvir o som do pequeno sino preso a porta quando essa se fechou às costas da garota. Ele olhou em direção a prateleira onde estava exposto o punhal e avistou apenas o solitário suporte de madeira.
- Ladrão! – O velho saiu apressado da loja apontando em direção a garota. - Peguem-na!
Alguém lhe passou o pé enquanto corria e a garota caiu violentamente, arrastando-se pelo chão sujo dos corredores do Caos e deixando o punhal escorregar para junto do pé de uma militar que se aproximava.
O velho sentiu uma ponta de arrependimento ao ver a garota, que se debatia, sendo levada pelos militares. Sabia que o preço que ela pagaria seria alto demais por aquela simples peça de decoração.

...

O Pavilhão de Reabilitação era o lugar para onde os menores de idade infratores eram levados. Ali viveriam, em regime de internato, até que atingissem a maioridade e pudessem trabalhar. Em teoria, os menores seriam educados e disciplinados seguindo os moldes das escolas militares da estação, porém não era bem isso que ocorria na prática.
As condições de limpeza do pavilhão eram subumanas, os alojamentos superlotados e desorganizados não ofereciam o mínimo de conforto e a discriminação dos militares para com aqueles jovens só fazia com que seu ódio e indisciplina aumentassem, tornando-os cada vez menos merecedores da liberdade.
A violência era comum no pavilhão, ocorriam brigas constantes e até mesmo rebeliões, sendo que, muitas vezes, eram contidas por tropas de choque e sucedidas de sessões de espancamento.

A eminente ameaça de uma rebelião fez com que os militares se mobilizasse e iniciassem sessões de interrogatório com os detentos. Um a um, os jovens eram levados para uma sala escura, onde eram despidos e suspendidos pelos pulsos para então serem açoitados até que revelassem qualquer informação sobre os planos dos rebelados.
A essa infeliz situação foi submetida aquela garota de dezesseis anos, que há quatro vinha suportando essa torturante realidade.
- O que você sabe? – Gritava o carcereiro, que, encapuzado, não revelava sua identidade. – Está gostando disso, é?
A cada grito, o carcereiro desferia mais um golpe, que fendia a sensível carne da garota. A pobre jovem encolhia os membros inferiores e se retorcia a cada chibatada.
- Não sei de nada. Pare, por favor. – Suplicava a garota, que, de fato, nada sabia.
As chibatadas eram sucedidas de choque elétrico, e a tortura só cessava quando o torturado perdia a consciência, sendo então levado de volta ao alojamento.       

Sentada sobre um dos catres dispostos no alojamento, aquela garota, que já não podia mais suportar viver como animal naquele ambiente tão inóspito, chorava, cobrindo o rosto com as mãos. Os ferimentos, ainda abertos e sangrando, ardiam febrilmente.
- Por que está aqui mesmo, garota? Você não parece criminosa.
A jovem baixou as mãos procurando de onde vinha aquela voz arrastada e nasalada.
- Uma menina bonita como você faria uma grana fácil lá embaixo.
Distante, do outro lado do alojamento, aquela figura andrógina passava sombra lilás sobre as pálpebras negras, segurando um pequeno espelho de bolso, que, de acordo com as normas de segurança, não deveria estar ali.  
- Eu estava trabalhando quando me trouxeram pra cá. Os safados que me trouxeram eram meus clientes, acredita? – Disse, ajeitando a peruca de cabelos pretos bem lisos e corte Chanel. – Você foi forte, doçura, e é por isso que eu vou te contar.
A garota não disse nada, apenas se deixou dominar pela tempestade de pensamentos que inundou sua cabeça quando aquela produzida figura se aproximou rebolando e disse ao pé de seu ouvido:
- Nós vamos fugir daqui, amiga. Se quiser pode vir conosco.

...

A fuga procedeu com sucesso. Durante uma breve rebelião, os militares preocupados em conter os menores, que queimavam colchões e se armavam com pedaços de mobília quebrados, nem sequer suspeitaram dos planos bem elaborados daquele ardiloso grupo.
A esperança pôde tomar novamente algum espaço naquele doce coração adolescente. Tudo parecia estar se ajeitando. Não teria mais de agüentar os castigos dos militares e nem mesmo viver em meio à podridão do pavilhão. Viveria junto àquelas novas pessoas que conhecera. Seria livre.
Os travestis do Caos lhe deram novas roupas e ensinaram-na a se maquiar. Aquela seria sua primeira noite de trabalho. As roupas curtas e a maquiagem carregada lhe davam um tom um tanto vulgar, mas sua beleza natural se sobressaía à vulgaridade, superando opiniões pré-concebidas e destacando uma beleza exótica em meio à homogeneidade do Caos. Sentia-se glamorosa.  

Em pé em uma das esquinas do Caos, observava, tentando chamar a atenção, o primeiro homem que se aproximava. O homem que lhe tomaria, mais uma vez e por um longo tempo, sua tão cobiçada liberdade.
Esse homem, vistoso e ao mesmo tempo extravagante, vestia um paletó cor de vinho e uma camisa de seda, amarelo mostarda, com colarinho exposto sobre a lapela do paletó e aberta até a altura do peito, onde pendia uma grossa corrente de ouro. Usava sapatos de couro branco, com as pontas e calcanhares pretos, e também alguns largos anéis nos dedos. Andava altivo e possuía um ar cafajeste, proporcionado pelo fino bigode em seu rosto e pelos cabelos perfeitamente penteados para trás, fixados com algum tipo de goma, que lhes fazia aparentar estarem constantemente molhados.

- O que uma garota tão linda faz em meio à tamanha imundice? – Disse aquele notável sujeito. – Você merece muito mais do que isso, meu bem. Poderia ter uma vida bem melhor trabalhando comigo.   
A garota sorriu, ligeiramente encabulada.
- Sou Castro. – Disse ele segurando a mão da garota e beijando-a. – Qual o seu nome, senhorita?
- Mercedes.
- É, realmente, um enorme prazer conhecê-la.


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