quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 11 – Creedence


- Carregar dispositivo de viagem no tempo. – Ouviram as duas tripulantes da Creedence, quando Jonathan anunciou o inicio do sincronismo das duas naves pelo rádio. Helena imediatamente acionou o dispositivo, que iniciou sua carga exibindo em seu display um gráfico em forma de barras.
- Estão travando a mira em nós. – Disse Helena, que no comando da Creedence notou o alerta amarelo no painel a sua frente. – A batalha com Stolz derrubou nossos escudos e não temos energia para subi-los, se acertarem esse torpedo estamos mortas.

Após a fuga da Estação 3000 e antes que os dispositivos tivessem atingido carga total, o Delta tripulado por Jonathan e Giovanni retornou para atacar a Sigma e dar cobertura a fuga de Helena e Mercedes, que tripulavam a Creedence, mas a sensata raça que ocupava a Sigma considerou como melhor estratégia ignorar o rápido e constante, porém pouco efetivo, ataque do pequeno caça e usar suas forças para neutralizar de uma vez a Creedence que, com um poder de fogo maior, ofereceria também maior risco caso contra-atacasse. Assim, mesmo sob ataque intensivo, aquele que comandava a Sigma deu ordens para lançarem torpedos contra a Creedence, que se distanciava cada vez mais do foco da batalha.     

- Eu tenho uma idéia... – Mercedes cogitou se devia mesmo expor sua opinião. Com sua pouquíssima experiência em combates, não saberia distinguir se seu plano era bom ou uma idiotice total. – Podemos liberar as bombas e deixar que eles as acertem ao invés de nós.
- Ótima idéia! Fique de olho nesse sinal e me avise, se acontecer alguma coisa. – Respondeu Helena, que instantaneamente se pôs de pé e iniciou os preparativos para executar o plano de Mercedes. – Isolando pressurização da cabine e abrindo compartimento de cargas. Aquela alavanca libera a carga, acione quando eu der o sinal.
A abertura do compartimento de cargas fez com que a nave trepidasse um pouco, mas as duas tripulantes não sentiram qualquer variação de temperatura ou pressão do ar, na cabine pressurizada. Mercedes continuou a vigiar atentamente o pequeno alerta no painel de controle.
- Ficou vermelho. O que acontece agora?
- Droga, eles vão atirar! Não temos tempo de escapar... – Helena levou as mão a cabeça, em desespero, ao mesmo tempo em que olhava a sua volta, triturando seus neurônios em busca de uma solução. – Heureca! – Gritou ao olhar para o Cronos, que aparentava ter atingido sua carga total.
Mercedes olhou surpresa e ao mesmo tempo entusiasmada para amiga, não fazia idéia do que aquela palavra significava, mas tinha certeza de que, pela atitude de Helena, devia ser coisa boa. Logicamente que a maior afinidade de Helena pela ciência a levou a usar essa, não mais tão popular, expressão, que remete a uma descoberta e foi usada originalmente pelo físico grego Arquimedes, que saiu nu pelas ruas gritando-a, após descobrir a possibilidade de se medir o volume dos corpos a partir do volume de água que deslocam ao serem submersos.
- Libere as ogivas agora! – Gritou Helena, e Mercedes puxou, com as duas mãos e toda sua força, a grande alavanca vermelha.
As duas ogivas deixaram a nave praticamente no mesmo instante em que uma luz arroxeada começou a envolvê-la, mas infelizmente o torpedo lançado pela Sigma atingiu-as antes que a Creedence pudesse ser completamente tomada pela aura transportadora.
Helena e Mercedes foram lançadas contra os painéis de controle da nave, com o forte baque causado pela explosão, que penetrou os limites da luz arroxeada. A turbulência, no entanto, durou poucos segundos e durante esse tempo, Helena pode reparar nos dígitos exibidos no display do Cronos que se alteravam constantemente, variando de forma intermitente entre ordem crescente e decrescente. Quando enfim a nave parou de tremer os dígitos também pararam de correr, e Helena observou, pasma, a curiosa data exibida no display.
- Onde estamos? – Perguntou Mercedes, ainda meio zonza, ao levantar a cabeça de sobre o painel de controle e notar a vastidão negra do espaço, do lado de fora da nave. Em sua testa havia uma pequena escoriação, resultado de uma pancada durante a turbulência.
- Não tenho certeza. Mas aqueles... – Helena apontou para um pequeno ponto iluminado ao longe, que se aproximava de um enorme borrão escuro em meio às estrelas. – Acho que somos nós.

...

- Vamos parar no fundo do hangar, na parte mais escura. Assim ninguém perceberá que estamos aqui. – Sugeriu Mercedes, pouco antes de a Creedence adentrar o escuro hangar da Estação 3000.
As duas tripulantes cruzaram vagarosamente o hangar, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Enquanto executavam sua trajetória até o mais escuro e entocado canto do hangar, passaram pela outra Creedence, pelo Delta de Jakarta e também pela Sigma, que foram estacionados, provavelmente pelos responsáveis pela instalação dos Cronos, lado a lado, em uma área pouco mais iluminada, entre a entrada, que haviam acabado de cruzar, e a grande porta de metal que dava acesso aos corredores e elevadores. A essa altura, os quatro tripulantes da primeira Creedence já deviam ter sido capturados e presos, e as duas sentiram-se um tanto aliviadas por saberem que daquela encrenca já haviam se livrado, mas o alívio rapidamente transformou-se em decepção.
- Estamos aqui de novo. – Resmungou Helena. – Que Merda!
- Calma, temos mais chances agora do que antes. – Animou-a Mercedes. – Se ninguém sabe onde estamos não podem atirar em nós.
Helena sorriu com o otimismo sensato da amiga. Ela acreditava que Mercedes podia mesmo ter razão no que dizia, acreditava que mesmo conseguindo sentir sua presença, os pequenos acinzentados poderiam ser confundidos pela presença delas próprias no passado, e assim elas poderiam fugir dali quando quisessem, em segurança e sem que ninguém tomasse conhecimento. De fato, poderiam já ter fugido antes, sem sequer retornar para a Estação 3000, mas enquanto navegavam pelo espaço em direção a ela, as duas elaboraram um plano, algo de tom heróico e ao mesmo tempo tolo, mas que naquele momento, motivadas até mesmo pela vingança, estavam dispostas a executar até o fim.
Elas acreditavam que Jonathan e Giovanni haviam obtido sucesso em sua viagem no tempo e que assim que chegaram a Terra, por acreditarem que elas haviam morrido, provavelmente haviam voltado em segurança para a Estação 2000. Então, com seus corações menos preocupados, resolveram retornar para a Estação 3000 e sabotá-la antes de viajarem no tempo novamente, de volta aos braços de seus amados.
- Temos de agir depressa. Tivemos sorte de os caras que instalaram o Cronos não estarem aqui quando chegamos. – Helena começava a expor sua estratégia. – Vamos transportar as ogivas da Sigma uma a uma, instalando uma no Éden e uma no Caos, a outra pode ficar aqui mesmo, pois os hangares ficam praticamente no meio da estação.
- E como explodimos as ogivas?
- Quando estávamos no Lixo acoplávamos esses cronômetros aos explosivos, para fazer bombas relógio. – Ao dizer isso Helena lembrou-se de quanto Jonathan odiava usar os tais cronômetros e preferia sempre atirar nos explosivos a distância. – A tecnologia é muito antiga, por isso eles são meio chatinhos de programar, mas precisamos da estação intacta para viajar no tempo, então teremos de sincronizá-los pra que explodam as ogivas depois que o Cronos seja ativado.    

Assim que Helena terminou de instalar os cronômetros nas ogivas, as duas mulheres, com muito esforço, conseguiram posicionar uma das pesadas bombas sobre um antiqüíssimo pallet de metal, enferrujado, com pequenas rodas de borracha. Com o transporte da ogiva facilitado pela mais importante de todas as invenções humanas, seguiram com seu plano, retirando a primeira das três bombas da Sigma e posicionando-a bem próximo de onde sua Creedence estava estacionada, para só então retirarem a segunda bomba e saírem percorrendo, armadas, os escuros corredores da estação, rumo ao Éden, onde a posicionariam.
A evolução diferenciada da Estação 3000 não resultou numa disparidade de classes sociais tão acentuada quanto na Estação 2000, sendo que, mesmo ambas possuindo arquitetura idêntica, os pavimentos onde, na Estação 2000, se situava o Caos, na Estação 3000 se assemelhariam a qualquer outro pavimento. Obviamente que com a avançada entropia sofrida pela Estação 3000, mesmo não tendo se deteriorado por questões sociais, qualquer que fosse o pavimento estaria em ruínas. No entanto, o Éden foi intencionalmente projetado para ser o mias luxuoso ambiente das estações, logo, mesmo estando tão deploráveis quanto os outros pavimentos, as áreas próximas a ele foram escolhidas, pela já escassa população da Estação 3000, como sua principal área de habitação.
Helena e Mercedes percorreram o caminho até o Éden sorrateiramente, evitando ao máximo o contato com os habitantes da estação, mas, sendo esta a área de maior concentração de habitantes, não foi possível passar totalmente despercebidas. Assim como Helena havia, de forma bastante informal, relatado anteriormente, os miúdos habitantes da Estação 3000 não possuíam relevante força física, não oferecendo grande resistência as ameaças das duas garotas armadas. Elas facilmente se livraram de qualquer habitante inconveniente que tivesse cruzado seu caminho, não necessariamente matando-o, mas apenas deixando-o inconsciente com uma bela coronhada em sua enorme cabeça.
O objetivo era explodir a estação e, consequentemente, seus habitantes, porém a idéia de atirar neles, a sangue frio, não agradava nenhuma das duas garotas. A única situação em que Helena realmente atirou em dois deles foi quando, chegando ao fim de uma rampa, na entrada do pavimento médico, foram surpreendidas por esses dois indivíduos, que logo se armaram com bisturis. Helena então soltou do pesado pallet que empurrava junto a Mercedes e, com uma única rajada de tiros de seu rifle, derrubou os dois. Talvez a visão dos dois cadáveres em sua frente tenha acentuado os naturais enjoos da gravidez, causando-lhe um leve refluxo em seguida.
No mesmo momento, Mercedes, surpresa com o peso do pallet recaindo sobre ela, tentou, com todas as suas forças, segurá-lo e não deixar que deslizasse rampa abaixo. Ainda de cabeça baixa e já segurando os cabelos, para que não fossem atingidos por um possível vômito, Helena ouviu um grito alto, de dor, que a fez recuperar-se das náuseas.
- Ai!
Helena instantaneamente voltou-se para a amiga, preocupada.
- O que houve?
Mercedes, com os olhos marejados, olhava para a mão sua direita, seus dedos esticados no ar, com expressão de total frustração.
- Quebrei minha unha.

...
    
Após retornarem para o hangar, enquanto empurravam o pallet, já contendo a terceira ogiva, que destinariam aos pavimentos inferiores, onde, na Estação 2000, seria o Caos, repararam na aproximação de alguém nos corredores externos ao hangar.
- Silencio! – Cochichou Helena, posando o dedo indicador sobre os lábios. – Veja, são luzes lá fora.
Mercedes pôs-se em guarda, apontando seu rifle em direção a grande porta de metal do hangar. Helena também se preparou para atirar, na posição em que estavam não teriam tempo de se esconder e nem mesmo de desacordar sua vítima, teriam que apelar para o poder de fogo.
A luz forte de uma lanterna irrompeu o hangar, ofuscando a visão, já adaptada à escuridão, das duas mulheres. Não conseguindo identificar a silhueta daquele que as focava com a luz, correram, para fora do raio de alcance da iluminação, e Helena atirou euforicamente contra a figura desconhecida.
Aquele que portava a lanterna recuou, escondendo-se do lado de fora do hangar, atrás da parede lateral a porta. Assim que a luz deixou de perturbar sua visão, Mercedes percebeu que aquele que acabara de se esquivar dos tiros era Jonathan Trust.
- Somos nós! – Mercedes alertou, em baixo tom de voz. – Você quase nos matou.
Helena lembrou-se então que, pouco antes de fugirem dali, quando estavam para entrar no hangar, alguém atirara neles, então, cessou os tiros, totalmente abismada.
- Éramos nós, nós já estávamos aqui... Incrível!
- Venha, vamos nos esconder. – Orientou Mercedes. – Nós não podemos nos ver aqui.

Esconderam-se, juntamente com a ogiva, atrás de algumas ferragens, em uma área escura do lado oposto de onde estavam estacionadas as naves. Assim, não seriam encontradas e ainda poderiam acompanhar a fuga com visão privilegiada. Puderam ver os quatro fugitivos ocuparem seus lugares em suas naves e também a luz forte, dos faróis do Delta, iluminar sua Creedence, oculta em uma extremidade distante, no fundo do hangar.
- Eles nos viram. – Espantou-se Mercedes.
- Provavelmente é a segunda vez que nos vêem. Se não se importaram da primeira não vão se importar agora. – Conformou-se Helena.
As duas naves levantaram vôo e assim que passaram pela escotilha que dava pra sala de descompressão, anterior a saída do hangar para o espaço, Mercedes e Helena avistaram um numeroso grupo de habitantes da estação chegando ao hangar.
Ao contrário do que Helena pensou a princípio, apesar da altíssima capacidade cerebral dessa nova raça humana, o uso total de suas funções mentais exigia alto esforço coletivo de concentração. Quando unidos, em um nível de consciência única, eram capazes de feitos grandiosos, podendo até manipular mentes mais fracas, porém, apesar de poderem sentir um ao outro naturalmente, sem a concentração necessária, a comunicação telepática era inviável. Isso pôde ser percebido por elas quando ambas ouviram uma voz grave, daquele que possivelmente era o líder da raça, sendo transmitida via rádio, abertamente para toda a estação.
- Preparem o cruzador. Persigam e abatam-nos se for necessário!

O numeroso grupo rapidamente tripulou a Sigma sem esboçar qualquer preocupação com as ogivas faltantes, que, a seu ver, estavam perfeitamente equipadas na nave. A Sigma então decolou, deixando Helena e Mercedes livres para prosseguir com sua sabotagem.
O caminho até os pavimentos inferiores foi mais tranqüilo, proporcionando poucos encontros com nativos da Estação 3000, e assim que concluíram a instalação da terceira ogiva, uma nova transmissão de radio se propagou por toda a estação.
- Atenção Estação 3000. O Cargueiro foi abatido com sucesso, mas o caça usou o Cronos para escapar.
A conhecida voz grave ecoou pelos corredores, em resposta à transmissão.
- Ativem o Cronos e prossigam com o plano de colonização. Se o caça cruzar seu caminho pulverizem-no.
Helena e Mercedes sentiram-se aliviadas ao ouvir a mensagem. Mesmo tendo, o suposto líder daquela raça, ordenado o extermínio do Delta onde estavam Jonathan e Giovanni, aquela transmissão lhes havia certificado que seus amados obtiveram sucesso em sua viagem no tempo. O atraso realizado no Cronos garantiria tempo suficiente para que os rapazes fugissem da Terra, bem antes que a Sigma iniciasse seu ataque, e a crença nessa possibilidade confortava o coração das duas garotas.
- Eles conseguiram. – Disse Helena, com um brilho feliz nos olhos e segurando Mercedes pelos ombros. – Chegaram a Terra.
- Sim, estão a salvo. – Mercedes também se emocionou e, não se contendo, abraçou a amiga alegremente.

De volta ao hangar só lhes restava preparar a nave para a fuga. Iniciaram então o aquecimento dos barulhentos motores e ativaram, através de um detonador remoto, a contagem regressiva que sincronizaria os cronômetros presos as ogivas.
- Vamos programar o Cronos para voltar ao mesmo momento que estava previsto antes. Assim chegaremos a Terra ao mesmo tempo em que os rapazes e eles nem saberão o que aconteceu conosco. – Observou Helena, já alterando os dígitos informados no display do Cronos.
- Eles vão ter uma bela de uma surpresa. – Concluiu Mercedes, sorrindo ao imaginar a situação.
Com os motores aquecidos, a nave iniciou sua decolagem, se encaminhando lentamente até a entrada da câmara de descompressão. Pouco antes de a Creedence adentrar completamente a câmara, Mercedes e Helena ouviram mais uma transmissão de radio proveniente da Sigma, dessa vez em tom bem mais baixo e sob alta interferência.
- Atenção Estação 3000. Chegamos a Terra, mas estamos sob ataque do caça. Fomos surpreendidos por eles, que, aparentemente, já aguardavam nossa chegada com todo seu poder de fogo restabelecido.
 A mensagem foi como um choque para as duas. Pouco tempo atrás acreditavam que não havia mais riscos para Jonathan e Giovanni, mas, minutos antes de sua partida, descobrem que os dois estão em meio a um combate e no mesmo momento em que o ataque a Terra deveria ocorrer. Helena e Mercedes sentiam-se perdidas em meio àquelas informações e sua confusão só piorou quando ouviram a conclusiva resposta da estação.
- Nossa mente superior jamais poderá ser derrotada por uma espécie tão primitiva. Habitantes da Estação 3000, iniciem o exercício de concentração.
A contagem regressiva para a explosão já iniciara e as tripulantes da Creedence teriam que livrar a estação o mais depressa possível. A grande escotilha que isolava a câmara de descompressão já havia sido completamente fechada, restando, como sua única escolha, prosseguir com a fuga. No momento crucial para o sucesso de seu plano, a preocupação tomava conta de seus pensamentos.
- O que isso significa? – Questionou Mercedes. – O que eles quiseram dizer com exercício de concentração?
- Não faço idéia, mas deve ser algum tipo de ataque.
- O que o Giovanni e o Jat estão fazendo lá? Eles deveriam ter voltado pra casa.
- Não sei o que houve, mas temos de ajudá-los. – Decidiu Helena, ligando o rádio e colocando-o no mais alto volume. A música era I Love Rock´n Roll, na voz de Joan Jett. Coincidentemente, Joan Jett foi uma das fundadoras da banda The Runaways, a primeira banda punk composta só por garotas.
Helena rapidamente reprogramou o Cronos e o ativou. Mercedes acelerou a nave, tentando se distanciar o máximo possível da Estação 3000. O relógio de pulso de Helena, sincronizado com os cronômetros das ogivas, se mostrava a milésimos de segundo de atingir o limite de detonação, quando o gráfico de barras no display do Cronos atingiu o ponto de carga máxima e a famigerada luz arroxeada finalmente tomou conta da nave.
Imediatamente após o desaparecimento da Creedence três explosões, praticamente simultâneas, desapareceram também com a Estação 3000.


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