quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Capítulo 10 – O Confronto


Lutar não só por vingança, mas sim por um ideal maior, a salvação de um planeta e de toda uma raça, que apesar das limitações se mostrara capaz de seguir em frente e evoluir com ele, em uma simbiose saudável, rendera a Jonathan e Giovanni um novo fôlego para, enfim, trabalhar nos consertos do caça Delta, que seria sua única chance contra os futuros invasores. Com o pouco tempo restante até o ataque, mas suficiente para a conclusão do pouco trabalho que ainda era necessário, os viajantes do espaço prosseguiram motivados e também auxiliados pelos amigos Dió e Xeren que, não só por sua natural boa vontade em ajudar, mas também pela perspectiva heróica com que viam os dois guerreiros buscando a salvação do planeta, se mostraram prestativos e determinados a fazer com que a nave não só fosse funcional como também fosse considerada uma obra prima.
Além de auxiliar nos reparos necessários na fuselagem, Dió e Xeren se encarregaram de dar a ela uma nova estética. Mantiveram a cor púrpura, original da nave, mas acrescentaram novos tons em degrade metálico e cromado. Dispuseram também alguns decalques, que expressavam, muito bem, a idéia de velocidade, sobre as asas, dando lhe uma aparência mais dinâmica, moderna e até um pouco psicodélica. Por fim, em perfeita harmonia com os decalques, pintaram duas palavras, uma sobre cada asa, batizando a nave.
- Queremos ir com vocês. – Anunciou Xeren, enquanto trabalhava junto a Jonathan e Giovanni.
- Não posso permitir. – Respondeu Jonathan, automaticamente deixando de lado o semblante alegre e descontraído e assumindo uma feição séria e responsável. – A missão será muito arriscada. Não há a menor certeza de que voltaremos vivos.
- É nosso planeta também, é justo que lutemos por ele. – Retrucou Xeren. O assunto já havia sido muito discutido entre ele e Dió e sua decisão dificilmente seria mudada.
- Não somos a favor da violência, mas viajar pelo espaço seria muito louco, cara. – Complementou Dió.
Nem mesmo Jonathan pôde resistir ao cômico comentário de Dió, sendo forçado a sorrir. Giovanni, já convencido, encerrou a conversa.
- Deixe-os ir conosco. Assim como nós, eles não têm nada a perder. Se a missão falhar, seu destino, aqui ou lá, será o mesmo, mas lá ao menos podem lutar por um ideal. Eles têm mais motivos do que nós, pra isso.

Giovanni demonstrou entusiasmo maior do que todos os outros empenhados no conserto, durante todo o trabalho na nave. Estar ocupado lhe servia como distração, afastando-o das mágoas que carregava pela perda dos amigos e da mulher que amava, por isso não se limitou apenas aos simples reparos previstos, como também palpitou e auxiliou como pôde na pintura da fuselagem, na limpeza detalhista do interior e também na instalação de caixas de som e um bom toca fitas, tecnologia inferior a que outrora tiveram acesso, mas a melhor que podiam dispor naquele ponto do tempo. Aparentemente, Giovanni desenvolveu um carinho especial pelo caça Delta que antes pertencera à amiga Jakeline Jakarta, e numa manhã ensolarada, as vésperas do ataque, enquanto encerava e lustrava a novíssima fuselagem, iniciou uma conversa com Jonathan cujo desfecho esperava ser um só.      
- Eu quero comandar essa nave, Jat!
- Como assim você comanda? – Jonathan não estranhou a iniciativa do amigo, mas mesmo entendendo sua posição resolveu tirar um sarro. – Você nunca comandou nem sua própria vida. Além do mais, sou muito melhor combatente do que você.
Começaram então uma discussão entre os amigos, mas uma intriguinha amistosa, daquelas que não visa ofender, mas sim sacanear um ao outro.
- Melhor combatente que eu? – Giovanni riu ironicamente. – Eu sou o melhor piloto da frota!
- Ah tá! Essa competição foi há dez anos, isso nem vale mais nada.
- Nem adianta discutir. Você já teve a sua Creedence. – E passando a mão carinhosamente sobre as letras recém pintadas sobre a fuselagem da nave, Giovanni encerrou o assunto. – A Deep Purple é minha!

...

O segredo foi mantido o quanto foi possível, mas, não se sabe como ou através de quem, a história dos extraterrestres e também da batalha pela salvação do planeta se espalhou extremamente rápido, atingindo em menos de um dia toda a comunidade hippie. Felizmente, ao contrário do que se previa, a notícia não gerou uma onda de caos e total pavor.
A comunidade, que desde a chegada dos dois forasteiros já especulava e imaginava as mais mirabolantes razões para sua breve e repentina estadia ali, soube aceitar de maneira até bem tranqüila, sem espanto ou agitação, a idéia de que Jonathan e Giovanni vieram do espaço. As fofocas a respeito dos dois haviam tomado tal proporção que, apesar de terem sempre sido muito bem tratados e respeitados por todos na comunidade, algumas mães preferiram manter sues filhos distantes deles por suspeitarem de vampirismo ou licantropia. Logo, aceitar que eram apenas ETs sem nenhuma diferença física dos demais humanos e que, além disso, ainda lutariam pela salvação desses, acabou se tornando algo fácil, trivial.
- Mas eles não são verdes e nem se transformam em nada? – Chegou a perguntar uma mulher quando lhe foi contada uma das inúmeras versões, encurtadas ou estendidas, que se espalharam sobre as viagens dos visitantes do espaço. – Que sem graça!
Jonathan e Giovanni causaram uma boa impressão nas pessoas da comunidade, sendo que enquanto realizavam os preparativos finais para a partida, muitos dos que estiveram mais próximos a eles durante os últimos meses, visitaram o celeiro para agradecê-los e desejar-lhes boa sorte. Alguns trouxeram até amuletos como uma figa, um pentagrama, o símbolo da paz e uma imagem de Jesus, que foram todos carinhosamente afixados sobre o painel do Delta. Mas o mais emocionante para Jonathan e Giovanni, levando-os até a derramar algumas lágrimas, foi ver a massa de pessoas que seguiu a nave em procissão, do celeiro até o campo, de propriedade militar, onde haviam pousado quando chegaram e de onde partiriam. Praticamente todos os membros da comunidade se reuniram em torno da nave para uma calorosa despedida e também para assistir a um evento único, que nenhuma outra pessoa no mundo teria oportunidade de ver. A partida dos extraterrestres em sua nave espacial.
- Xeren! – Ágata gritou, brotando do meio da multidão e correndo para os braços do namorado. – Não vá! Por favor, fique comigo!
Mas Xeren, após abraçá-la ternamente, enxugou delicadamente suas lágrimas e, com o ar mais heróico e orgulhoso de si que pôde manifestar, beijou-lhe a testa e proclamou.
- É meu dever salvar você e o planeta em que nossos filhos viverão!
Naquele momento Ágata sentiu que em todo o universo não encontraria homem mais corajoso que seu namorado, então segurou forte em seu colarinho, ficou na ponta dos pés e beijou-lhe os lábios da maneira mais amorosa que seria capaz.
Jonathan e Giovanni, mesmo alegres ao contemplar tal cena, não puderam evitar pensar em Helena e Mercedes, e em como gostariam que estivessem vivas e lutando ao seu lado.      

Os quatro tripulantes, Jonathan, Giovanni, Dió e Xeren, acomodaram-se em seus lugares no cockpit do caça Delta e acenaram para a platéia que os assistia. Com uma salva de palmas da comunidade, acionaram os motores e fecharam a cabine. O altíssimo barulho dos propulsores praticamente anulava os gritou eufóricos da legião de hippies que acompanhava atenciosamente o subir lento e gracioso da nave.
- Aumentando propulsão. – Anunciou Giovanni, ao alcançarem altitude suficiente para dar maior potência nos motores e assim subir em maior velocidade. – Levante os escudos, Jat.
- Mas já, irmãozinho? Nem saímos da atmosfera da Terra ainda. – Questionou Jonathan.
- Não quero estragar a pintura. – Sorriu Giovanni.
Dió e Xeren observavam, atônitos, a massa de gente se distanciando da nave à medida que subiam. Quanto mais altura ganhavam, mais forte eles seguravam na lateral de seus acentos. O céu então deixou de ser azul, transformando-se em um negrume tão intenso que era possível distinguir o brilho de cada estrela disposta em sua imensidão. A quantidade de brilhantes estrelas que viram ao sair da atmosfera da Terra foi tamanha que nenhuma noite do interior poderia ter proporcionado ou vir a proporcionar em toda sua vida. O medo então abriu espaço para a admiração e, boquiabertos, em uníssono, Dió e Xeren proclamaram:
- Que brisa, cara!

...

O tédio tomou conta dos quatro tripulantes da Deep Purple durante as longas horas em que estiveram parados no espaço, esperando pela chegada da Sigma. Dió e Xeren chegaram até mesmo a pegar no sono, mas Jonathan e Giovanni continuaram atentos, mesmo enfadados com a demora. Para seu consolo, o novíssimo toca-fitas instalado recentemente estava funcionando perfeitamente e, apesar do chiadinho característico da tecnologia, o som da banda que dava nome a nave cumpria muito bem seu papel, distraindo os dois vingadores do desconfortável marasmo. Ouviam Deep Purple, em homenagem a estréia da nova roupagem da nave, e foi exatamente enquanto Ian Gillan recitava o famoso refrão “Smoke on the water... fire in the sky”, que um pequeno ponto de luz arroxeada surgiu em meio ao espaço, expandindo-se gradativamente até se tornar uma enorme nebulosa roxa em meio às estrelas.
De trás daquele borrão de luz roxa foi deslizando lentamente, como se de trás de uma cortina, o imponente Cruzador Espacial Sigma.
No diminuto caça Delta, Giovanni e Jonathan assistiam a magnífica chegada da Sigma. Posicionando-se defronte a ela, se preparavam para o, agora inevitável, confronto. Giovanni parou por um instante a música, fazendo com que Dió e Xeren despertassem assustados.
- Hã? Quê?
- O que está acontecendo? Caramba, a nave deles é enorme!
Giovanni e Jonathan riram do espanto dos amigos.
- Somos mais rápidos e mais experientes. – Disse Jonathan, confiante. – Eles não têm chance!
- Sabe que eu sempre quis destruir a Sigma? – Continuou Giovanni, agora acelerando a rotação do toca-fitas para alcançar a música desejada. Parou assim que ouviu o início da canção Space Truckin. – Come on, let´s go space truckin´!
Antes mesmo que a Sigma tivesse adentrado completamente o campo de batalha, a Deep Purple partiu pra cima dela, em alta velocidade e atirando incessantemente. Os tripulantes da Sigma foram tão completamente surpreendidos com o ataque que nem mesmo tiveram tempo de levantar os escudos da nave.
A Sigma prosseguiu em trajetória retilínea e extremamente lenta, em comparação com a velocidade do aerodinâmico caça Delta que atirava sem parar, até que estivesse completamente livre da nuvem arroxeada que a trouxera até ali. Sua fuselagem já exibia as pequenas avarias causadas pelos tiros.
Ao perceberem o ataque contínuo do Delta, os tripulantes da Sigma tentaram iniciar um contra-ataque, usando todos os canhões disponíveis para atirar contra a Deep Purple, mas o tamanho e velocidade do caça dificultavam muito a precisão dos atiradores.
A Deep Purple prosseguia intacta, desviando ligeiramente dos vários tiros emitidos pela Sigma. A habilidade de Giovanni como piloto, de fato, podia ser invejada por qualquer combatente da Estação 2000. Os tiros passavam a centímetros da fuselagem do Delta, mas, incrivelmente, nem sequer relavam o escudo da nave.
- Segura Peão! – Gritou ele ao realizar uma manobra em loop e desviando de um dos vários tiros que não os acertou por pouco. A frase ouvida em um rodeio durante o tempo em que esteve na Terra lhe parecia perfeita para aquele momento de manobras intensas, giros e chacoalhões.
- Irra! – Acompanhou Xeren, movido pela adrenalina, quando viu as asas da nave girarem trezentos e sessenta graus em torno do cockpit. – Yahoo!
Dió parecia estar em pânico total. Seus olhos lacrimejavam e ele segurava o próprio acento com toda sua força. Não era capaz de dizer uma só palavra, porque mantinha seus dentes cerrados e travados.
Jonathan permanecia focado em mirar e atirar, sempre acertando, mesmo com as várias e rápidas mudanças de posição da nave, precisamente o alvo. Não dizia nada em voz alta, mas resmungava para si mesmo, às vezes proferindo certos palavrões, quando perdia o foco da nave inimiga por conseqüência de alguma manobra evasiva de Giovanni.
- Você quer parar quieto, pelo menos por um segundo! – Ele perdeu a paciência.
- Vem você desviar desses tiros! – Respondeu Giovanni ironicamente, enquanto puxava com força o manche contra o corpo e o girava para a esquerda. – Ah!
- Já está renunciando o posto, comandante?
- Você é um filho da mãe mesmo! – Giovanni olhou para o amigo, balançando a cabeça em sinal de negação, descrente que mesmo naquela situação ele ainda era capaz de fazer piadinhas.
- Ah irmãozinho... – Jonathan retribuiu o olhar de Giovanni com um sorriso sacana. – Relaxa!
- Merda! – Praguejou Giovanni, ao ser surpreendido com o forte tremor causado por um tiro, que acertara seu escudo durante o curto período de distração.
Dió começou a tremer.
- O que foi isso? Nós vamos morrer!
Os outros três só riram, e a nave mergulhou em queda livre, se é que se pode dizer isso sobre um movimento realizado no vácuo do espaço, desviando de um torpedo atirado displicentemente contra eles.
- Eles parecem estar desnorteados, irmão. – Percebeu Jonathan, surpreendendo-se com a inexperiência em combates que os inimigos apresentavam. – Nem sequer estão mirando os torpedos.
De fato, apesar do altíssimo desenvolvimento intelectual dos habitantes da Estação 3000, sua experiência prática em combates era nula. Tendo em vista que as naves de sua frota há muito tempo não eram mais capazes de voar, o aperfeiçoamento de suas técnicas de combate no espaço se tornou inviável. Assim, os pobres invasores só podiam contar mesmo com o poderio de fogo do cruzador, pois como combatentes se mostravam precipitados e descuidados, de modo que nem os escudos da nave chegaram a levantar.
- Vamos lançar a ogiva e acabar logo com isso. – Sugeriu Giovanni. – Essa briga tá no papo!
- Precisamos diminuir a velocidade para travar a mira. Será que você consegue isso sem levarmos tiros?
Giovanni riu.
- Vou me distanciar e tentar me posicionar abaixo deles. Atiramos debaixo pra cima e eles não vão nem ver o que os atingiu!
Ainda atirando sem pausa, a Deep Purple foi, ao mesmo tempo em que desviava, com loops e giros de asas, dos tiros da Sigma, se distanciando da nave e descendo para se posicionar exatamente embaixo dela, onde sua mira seria privilegiada e o poder de fogo inimigo praticamente neutralizado.
Travando mira. – Anunciou Jonathan. Já era possível pra ele ver o círculo que, antes vermelho, tornara-se verde, ao ser posicionado sobre a representação da Sigma em seu display. 

Longe da ofensiva inimiga e com a mira travada no alvo, a vitória sobre a Sigma já era assumida como certeza pelos tripulantes da Deep Purple.
Jonathan já se preparava para pressionar o gatilho quando, de repente, sentiu-se como se uma onda o tivesse atingido. Não houve trepidação ou choque contra a nave, toda a agitação ocorreu dentro da mente dos tripulantes do Delta e, instantaneamente, seus corpos pararam de obedecer aos comandos de seus cérebros. Eram capazes de enxergar e ouvir tudo ao seu redor, mas já não podiam se mover os falar.
Lentamente, a Sigma se moveu até se posicionar exatamente de frente para a Deep Purple. Os tripulantes do caça só puderam acompanhar seu movimento sem a menor chance de reagir e, assim que a enorme nave impôs-se a sua frente, ouviram uma voz grave chamar-lhes pelo rádio.
- Esta é uma demonstração da consciência única. Mentes superiores unidas para controlar as mentes inferiores.
Jonathan se revoltava com a situação. Queria responder, agredir o inimigo, mas continuava totalmente paralisado. Giovanni olhava confuso para o amigo, buscando compreender o que estava ocorrendo. Na fisionomia de Dió e Xeren era possível perceber o terror que os assolava.
Jonathan de Giovanni repararam no alerta amarelo, piscando em seu display. Sabiam que os invasores tentavam travar sua mira neles e desesperavam-se com a sensação de impotência diante daquela situação.
- Puseram-se a nossa frente no caminho rumo à dominação da Terra, agora vamos exterminá-los assim como fizemos com o cargueiro. – Dizia a voz vinda do radio. – Uma ogiva deve bastar e ainda restarão duas para a dominação do planeta.
Vendo que o alerta no display tornara-se vermelho, perceberam que o ataque era inevitável. A Deep Purple foi atingida por dois torpedos sequenciais que, com um fortíssimo tremor, derrubou seus escudos.
A esperança pela vitória se esvaiu do coração de Jonathan e Giovanni. Á poucos minutos estava a um passo de destruir a Sigma e agora a derrota era iminente. Dió e Xeren, já assumindo a morte como certa, recitavam preces em suas mentes.

O alerta vermelho piscando novamente no display vinha anunciar o breve lançamento da ogiva. Jonathan lembrou-se de Helena. Lembrou-se também do bebê que ela carregava em seu ventre. Seu filho, o fruto de seu amor. Não conseguira vingá-los e sentia como se toda sua existência não fizesse nenhum sentido. Em breve se encontraria com Helena e sentiria vergonha em sua presença.
- Sentiram a nossa falta? – Jonathan, bem como os outros tripulantes da Deep Purple, ouviu uma voz feminina ser transmitida pelo rádio.
Recuperando seus sentidos, acompanharam a chegada da Creedence, que deslizava detrás de uma nuvem roxa, se aproximando furtivamente e atirando contra a Sigma.
- São as garotas! – Exclamou Giovanni, maravilhado com a ótima notícia.
- Como é possível? – Jonathan, boquiaberto, sentia a alegria voltando a preencher seu ser. Já não era capaz de conter as lágrimas, que escorriam abundantemente pelo seu rosto. – É um milagre!


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